Tribuna do Leitor

Sonhador


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Ele caminhava a passos largos pelo jardim da praça. Invariavelmente encontrava ali um conhecido, um velho ou novo amigo cheios de histórias para serem contadas ou ouvidas. Sem chapéu, cabelos paina e bem penteados, calça de brim e camisa estampada e de mangas compridas tendo no bolso do lado esquerdo um óculos de longo alcance, tênis azul com cadarços verdes, casado e pai de dois filhos ? avô e bisavô ? era a própria figura do aposentado. Sentado com os amigos ele revolvia suas lembranças de ter trabalhado em um banco, dizia com natural orgulho ter apenas um registro na carteira de trabalho.
Havia começado ainda menino e lá ficou por mais de 35 anos! Gabava-se de ter passado das mais simples funções até as mais altas, nas gerências das agências onde prestou seus serviços.
Sua maior alegria era contar aos colegas ali reunidos suas exigências com a probidade íntima de cada um dos bancários e banqueiros. Lembrava do dinheiro antigo em notas ou moedas; da entrega de chapas no balcão, hoje substituídas por senhas; das solicitações de "papagaios por 90 dias"; do expediente aos sábados com exigência da gravata, dos almoços com clientes e das confraternizações de final de ano. Tudo isso era passado.... Dizia estar na cidade a passeio e que seu domicílio era em Ilhéus na Bahia cidade onde podia contemplar os coqueiros e as areias brancas das praias. Teve seu tempo como prisioneiro nas arapucas das obrigações e agora dizia-se livre para sonhar, livre para passear e livre para não fazer nada; no fundo... no fundo de sua alma gostaria mesmo era de voar como voam os passarinhos. ? Como voar se ele tinha medo das altura? Ao contar para os amigos sua vontade de voar, deixava transparecer um mundo de nostalgia e se, realmente não pudesse voar, ficaria feliz assim mesmo indo com as próprias pernas ao banco da rua principal, o banco da sua juventude e das suas memórias e retirar de uma máquina qualquer um extrato da sua vida onde, com a certeza do dever cumprido, encontrará seus lançamentos em azul, o mesmo azul que iria desfrutar no céu infinito de seus sonhos.
Sonhar assim como voar é uma verdadeira arte ? privilégios concedidos por Deus aos homens e aos pássaros. Estes, não sonham nunca, mas o homem aposentado, quando sonhador, nunca irá envelhecer, ao contrário, seus sonhos encontram o tempo. Sonhar... recordar... partilhar... amar... ser amado... o abraço da mulher, dos filhos e dos amigos... contemplar a exuberante natureza e a beleza do céu nas tardes de outono justificam viver, uma vida inteira de tantos janeiros: a sua própria vida!

Roque Roberto Pires de Carvalho

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