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Em defesa do humor bobo

Nélson Itaberá
| Tempo de leitura: 3 min

Volto de uns dias de descanso com a sensação dúbia - confesso em sorriso largo - de que estes me fizeram o bem que esperava mas, como toda sombra, água fresca e chinelos que massagearam meus pisantes, não me amoleceram o cocuruto o tanto que merecia ... Coisa trivial, minha, nem ligue. Igual a de muitos... de querer ficar mais dias de perna pro ar.

Eis que, de posse do retorno concretizado implacavelmente pela presença do teclado cheio de letrinhas na redação, ataca-me a alma a necessidade de privilegiar o humor, em especial o bobo, o mais coloquial, mesmo o mais coloquial... Afinal, o "essencial é simples", como preconiza do ponto de vista terapêutico psicológico o sábio Bert Hellinger.

Mas como buscar o encontro com nossas raízes inter geracionais é algo, por vezes, tão esquecido ou desprezado como mergulhar na face gostosa do sorriso sem preço...

Sim, precisamos revisar essa ideia de tabu ingênuo contra o humor bobo. O letrista Djavan é quem pode estar convidando certo. Senão vejamos em trechos de uma de suas boas letras: "Sorri, quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias... Sorri quando tudo terminar...".

É preciso exercitar o apreço pelas charges de bom humor, pela tiras de piadinhas singelas, pela brincadeira despretensiosa do colega de trabalho (não é Vitor Oshiro?), pela mensagem bem ?tontinha? enviada pelo amigo ao seu GPS de mão para fustigar seu lado escravo-urbanóide (Rs! Estou falando de seu celular!), pelo recadinho à mão da historinha que você, tal qual como com o inseparável aparelho portátil, jogou no lixo com a mesma presteza que clicou na tela "apagar" para afagar a pressa de sempre.

Eu sei, juro que entendo você. Alguns amigos abusam e enviam tanta mensagem tola que enche o saco. Mas não estou falando dessas coisinhas. Estou falando de seu lado mais atencioso na "lida" cotidiana.

Então, perdoe, vou rir com carinho de você. Rir por não aproveitar a sensação duplamente gratuita oferecida em segundos eternos na piada ruim de seu amigo no Wattsapp! Estou em gargalhadas, esta sim de profunda compaixão por você, paradoxalmente, ser o mesmo que insiste em engolir o alimento do almoço com voracidade, sem piscar, enquanto confere os últimos cliques das turmas que lhe infernizam no mesmo aparelhinho portátil que desprezaste quando o emissário era o amigo que não abraças há meses.

Volto para o trabalho em defesa de mais bate papos no café da tarde na redação, ainda que o chefe venha a me franzir a testa em divergência. Falta-lhe humor também, às vezes. Azar o dele que não tem o prazer de ouvir os tons líricos das gargalhadas rasgadas da londrinense Gisela Strass.

Volto para a jornada em busca de histórias que emocionem, claro, de debates que convidem a novas ideias e de temas que apontem o dedo para o que precisa ser ajustado, evidentemente. Afinal, jornalismo não é piada.

Mas retorno, também, em profissão de fé em defesa de um tempo para o ócio produtivo, o humor sem fronteiras, as tirinhas singelas. Porque a vida não me custa mais do que os já pesados devaneios insanos do ser humano que recaem sobre meus ombros.

Feliz humor bobo pra você e os seus!


O autor é jornalista do Jornal da Cidade, da TV Câmara e compositor

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