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Bauru caminha para geração sem cárie

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 6 min

Aos 22 anos, Vitor Enéas Garcia Frotamendes nunca teve cáries dentárias. Ele diz que, entre amigos e familiares da mesma faixa etária, outros ostentam o que, há alguns anos atrás, poderia ser chamado de privilégio. No Dia Mundial do Sorriso, comemorado hoje, no entanto, uma feliz constatação: cada vez mais, é mais comum que as pessoas cheguem à idade adulta sem terem sido acometidos pela doença, que, em 1976, já havia atingido 99,6% das crianças de 12 anos.

 

Para Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado, diretora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP), já é possível falar em uma “geração sem cáries” graças à sensível redução de casos entre jovens de até 20 anos.

 

“Existem ainda, porém, bolsões de cáries espalhados pelo Brasil e até na cidade, onde as pessoas precisam de tratamento e não têm acesso a ele. Trata-se de um paradoxo: apesar de tantos avanços, essa doença continua sendo o maior desafio para a saúde bucal no País”, pondera.

 

Em 2006, foi realizada a última pesquisa, em âmbito municipal, apontando que 63,8% das crianças de 12 anos eram livres de cárie. Trinta anos antes, elas eram 0,4%. 

 

Na mesma faixa etária, o CPOD – índice que mede o número de dentes cariados, perdidos ou obturados – era de 9,9 em 1976. Trinta anos depois, caiu para 0,9, bem abaixo da meta de 3,0 preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e até do índice nacional no ano de 2010 (2,1).

 

Professora de Bioquímica da FOB e estudiosa da doença, Ana Carolina Magalhães afirma que, hoje, os indicadores devem ser ainda melhores na cidade. “A tendência é que, cada vez mais, as pessoas estejam livres das cáries”.

 

Isso quer dizer que, com o passar do tempo, maior será o número de adultos que nunca desenvolveram a doença, consequência de uma massa orgânica, onde se concentram bactérias cariogênicas, que metabolizam os açúcares ingeridos e os transformam em ácidos que dissolvem a superfície esmaltada e criam orifícios nos dentes (cáries).

 

FUTURO SEM DENTADURA

 

A diminuição na prevalência de cáries em crianças e adolescentes ao longo dos anos veio acompanhada da melhor na saúde bucal de adultos, segundo Roosevelt Bastos, professor da disciplina de saúde coletiva da FOB. Ele pontua, contudo, que os avanços ainda não foram observados entre os idosos brasileiros. “Mas a gente pode dizer que já existe uma parcela grande da população que nunca teve e, provavelmente, nunca terá cáries, que motivou a perda de dentes em muita gente. Atualmente, muitos idosos usam ou deveriam usar dentadura. Já as crianças e os adolescentes de hoje serão avôs e avós com dentes, que, de fato, estão na boca para durar a vida inteira”, explica.

 

AÇÕES

 

Tanto Ana Carolina quanto Roosevelt atribuem parte das melhoras dos últimos anos aos resultados obtidos pelo Brasil Sorridente, criado em 2004. Segundo o professor, o programa federal incentivou atitudes preventivas e educativas, além de ter inserido a odontologia na estratégia da Saúde da Família e instituído clínicas de especialidades em todos os municípios. “Existem desafios importantes. Extraímos dentes porque esses procedimentos ainda são necessários, embora o número tenha diminuído bastante. As políticas devem focar a promoção de qualidade de vida e isso passa por uma dentição adequada, com estética e com condições para a implantação de próteses, se necessário”, diz Roosevelt.

 

ÁGUA FLUORETADA

 

Ana Carolina Magalhães explica que, no combate às cáries, o flúor age no sentido oposto ao dos ácidos que provocam os orifícios na dentição. Nesse sentido, a fluoretação da água que chega às torneiras das residências cumpre papel importante na prevenção.

 

Segundo Roosevelt Bastos, os níveis da substância da água fornecida pelo DAE de Bauru estão em níveis adequados.  “Hoje, a nossa água é fluoretada e muito bem monitorada. A FOB, inclusive, faz o controle do produto que chega nas torneiras das casas, das escolas. Até a década de 1990, tínhamos muitas dificuldades nesse aspecto”, recorda o professor.

 

Ele observa ainda outro fator importante: hoje, a maior parte dos cremes dentais contêm flúor.

 

Existe algum segredo para estar livre das cáries?

 

Apesar de nunca ter tido cárie, Vitor Frotamendes, 22 anos, garante não ser um “neurótico” no cuidado com seus dentes. “Sempre tive orientações sobre higiene bucal. Também ia ao dentista, desde a infância, pelo menos duas vezes por ano para fazer limpeza porque, na escola pública, não era sempre que tínhamos acompanhamento. Hoje, faço escovação depois de refeições e uso enxaguante”.

 

Também sem uma cárie sequer ao longo da vida, a universitária Júlia Ticianelli, 22 anos, acredita ter uma boa dentição. “Sofri dois acidentes e, nos dois, bati os dentes, mas só precisei lixá-los e ficou tudo bem. Quando eu era adolescente, também usei aparelho e dizem que o risco de cárie aumenta. Mas eu fazia a manutenção bem certinho”.

 

A jovem conta, no entanto, que, desde bebê frequentava o dentista. “Minha mãe sempre foi preocupada com isso”.

 

Aos 20 anos, Giovanni Giatti Anversa é outro que passou ileso.  “Na escola em que eu estudava [da rede particular], tinha dentista uma vez por semana. A gente usava flúor e também umas pastilhas”.

 

Para o biólogo Luiz Ricardo dos Santos Tozin, 24, algum tipo de predisposição pode ter ajudado. “Sempre fui ao dentista e fiz a escovação normalmente, mas sempre comi muito doce. Meu dentista acredita que pode ter algo a ver com a minha salivação intensa. Meu irmão recebeu as mesmas orientações e os mesmos cuidados e teve cáries”.

 

SEM DENTISTA

 

Diferentemente dos demais, Ana Beatriz Garcia Santos, 23, nunca desenvolveu a doença mesmo tendo ido ao dentista pela primeira vez somente aos 16 anos. “Não tive acompanhamento odontológico na infância, mas minha mãe sempre teve muito cuidado com. As refeições eram sempre seguidas da escovação. Lembro bem dela me questionando se eu havia escovado os dentes antes de dormir, porque dizia esse era o pior horário para as bactérias se desenvolverem”, lembra a universitária.

 

Ela conta que, quando se consultou com uma profissional pela primeira vez, foi muito elogiada.

 

Vulnerabilidade

Professor da FOB, Roosevelt Bastos aponta que, apesar dos avanços, ainda há prevalência de cáries na dentição de leite de crianças em idade pré-escolar. A preocupação maior, no entanto, está com os adolescentes.

“Depois dos 12 anos, eles vão ficando mais independentes e se descuidam um pouco. A consequência é o aumento na incidência de cáries”, pontua.

 

Segundo Bastos, o uso do flúor e a higienização são ações importantes para combater os fatores biológicos para o desenvolvimento da doença. Ele ressalta, no entanto, que a cárie tem relação ainda com a determinação social. “Envolve muita coisa: consumo excessivo de açúcar, ausência de atividades preventivas, deficiência nutricional e também a questão social. Quando a gente fala em desigualdade, baixa renda, ocupações mais simples, observamos a cárie de forma mais frequente”. 

 

Mutirão do sorriso é hoje

 

O grupo formado por 94 dentistas voluntários de Bauru, chamado Turma do Bem, realizará, hoje, uma mega triagem para mutirão que prevê atendimentos e procedimentos gratuitos. 

 

A triagem acontecerá no estacionamento do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), que cedeu o espaço gratuitamente ao grupo. A ação é destinada aos estudantes de escola pública com baixa renda.

 

Ainda hoje, os dentistas também farão pequenos atendimentos no local e distribuirão kits de higienização bucal. 

 

Os casos mais graves serão encaminhados para posterior procedimento, também gratuito, em clínica odontológica particular. É importante ressaltar que os estudantes precisam estar acompanhados de seus respectivos responsáveis, além de portar RG, comprovante de residência e de matrícula em escola pública.

 

Serviço

A triagem odontológica da Turma do Bem para estudantes de 11 a 17 anos ocorre hoje no Ceac, quadra 8 da rua Sete de Setembro, Centro, das 8h às 13h. O atendimento é por ordem de chegada. 

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