Economia & Negócios

Indústria terá plano contra retração

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

Osetor industrial é o que, até agora, parece ter sofrido de forma mais acentuada os efeitos da retração econômica. Enquanto a previsão para o PIB do País é de queda de 1,2% em 2015, o mesmo indicador referente apenas ao setor de produção deve recuar em 3,4%, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgados nesta semana. Diante do cenário – que já afeta, inclusive, a manutenção dos postos de trabalho –, o empresariado pretende reagir e buscar alternativas.

 

Especialistas consultados pelo JC são unânimes: até junho, as deficiências da macroeconomia tendem a se agravar. A expectativa é de que se estabilizem no último trimestre deste ano, mas a indústria só deve se recuperar a partir do segundo semestre de 2016.

 

Diante disso, em até um mês, o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) deve apresentar um plano de ações, que englobará solicitações ao poder público, tomadas de posições e medidas conjuntas do setor. 

 

A decisão foi tomada, ontem, em reunião com 43 diretores regionais do órgão, incluindo o representante de Bauru, Domingos Malandrino. “A ideia é tentar algum tipo de reação para tentar minimizar a política econômica desastrosa. Faz 20 anos que atuo e nunca vi a situação assim”, avalia.

 

O empresário reforça que a deterioração da indústria nacional tem se arrastado ao longo da última década. A atividade econômica representava 22% da composição do PIB brasileiro em 2005. Hoje é de 12% e, até o final deste ano, deve recuar ainda mais e chegar ao patamar de 10%.

 

EMPREGOS

 

Das 43 regionais do Ciesp, apenas 11 não apresentaram resultados negativos na geração de empregos da indústria no mês de março. No mês anterior, em todo o País, 35 mil postos de trabalho do setor foram fechados. “Das 11 regiões do Estado que se salvaram, sete oscilaram praticamente nada. Em Bauru, variamos em 0,71%, o que significa mais 250 empregos. Eu agradeço a Deus por isso. Não sei como conseguimos conquistar essa proeza. Registro minhas congratulações aos empresários daqui”.

 

Faturamento aumenta, mas todo mundo perde

 

De janeiro a fevereiro, a produção industrial no País caiu 0,9%. Os dados da CNI apontaram, por outro lado, que o faturamento das empresas do setor cresceu 1,9% no mesmo período. Os números parecem ser contraditórios, mas o cenário macroeconômico os explicam. Economista consultado pelo JC, Carlos Sette explica: não há o que ser comemorado.

 

Ele observa, em primeiro lugar, que muitas pessoas confundem faturamento com lucro. O primeiro engloba todos os ganhos obtidos pelas empresas, enquanto o segundo exclui os custos dela. “Mesmo com a retração da produção física, é normal que o faturamento da indústria tenha crescido em função da alta inflação [8,1% no acumulado]. Aumentam os custos das empresas para produzir e elas os repassam nos preços ao consumidor. É uma pena essa situação da economia e da atividade manufatureira, que é a que mais e melhor emprega”.

 

PREJUÍZO GERAL

 

Diretor-presidente da Tiliform, Ricardo Coube afirma que os números revelam um quadro pessimista. “Como houve queda no poder aquisitivo, vai ter redução de consumo. É o famoso ‘perde-perde’ porque tanto o empresário quanto o consumidor saem prejudicados. Isso é fruto da política monetária que quer segurar a inflação”, critica.

 

CÂMBIO

 

Domingos Malandrino pontua ainda que o dólar em altar também pode responder pela elevação do faturamento da indústria, por conta das empresas que exportam.

 

Ele ressalta, contudo, que uma minoria de 1% das empresas se beneficia da desvalorização do real diante da moeda norte-americana. “A maioria sofre porque precisa importar insumos ou peças para garantir o funcionamento de sua linha de montagem”, diz o diretor do Ciesp.

 

Malandrino cita ainda que a maioria das empresas não conseguiu repassar integralmente o aumento de custos dos produtos, fortemente afetados pelo aumento da energia e dos combustíveis. “Com exceção do ramo automobilístico e da linha branca, poucas recomposições foram feitas”.

 

Demanda?

 

Os empresários da indústria criticam ainda mais uma elevação da taxa básica de juros (para 13,5%), anunciada anteontem. “A justificativa do governo é conter a demanda para combater a inflação. Mas daí eu pergunto: qual demanda? Já caiu tudo. Quando houve a crise nos Estados Unidos, em 2008, os juros ficaram negativos para incentivar o consumo”, comenta Domingos Malandrino.

 

Ele afirma que a política econômica do governo federal é equivocada porque também fará com que a dívida pública cresça mais. “Depois, eles vão querer tapar os buracos com mais ajustes e mais impostos. Só que eles não falam em reduzir custos ou diminuir o número de ministérios”, pontua.

 

O economista Carlos Sette endossa as colocações. Segundo ele, cairá a produção e postos de trabalho serão fechados. “Pode gerar fatores perigosos: inflação alta, crescimento baixo e desemprego”.

 

Ricardo Coube, por sua vez, pondera que o cenário só deve melhorar em 2016 “caso as coisas comecem a andar já no próximo semestre”. Isso só será possível, segundo ele, com investimentos públicos em infraestrutura, especialmente por meio de concessões de aeroportos, ferrovias, portos e rodovias.

 

 

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