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"Meus filhos dão cor à minha arte", diz artista Marisa de Souza Melo

Thiago Vendrami
| Tempo de leitura: 3 min

Aceituno Jr.

Marisa de Souza Melo enfrenta a cegueira com o amor e ajuda dos filhos; na foto, Niege auxilia a mãe a colorir suas telas

Sem ter contato visual com o mundo, a artista bauruense Marisa de Souza Melo se dedica, dentre tantas outras formas de arte, à pintura. E, na véspera do Dia das Mães, ela é um exemplo pelo amor que tem pelos filhos e, claro, que os filhos tem por ela. São eles que acabam fazendo com que a escuridão da cegueira se transforme em cores nas suas telas.


Ela é mãe da dona de casa Niege e do metalúrgico Mauro Vinícius de Souza Melo, que possuem, respectivamente, 24 e 26 anos. O casal auxilia, junto com os quatro filhos de Niege, na administração das cores expostas nas telas criadas por Marisa. “Acaba que todos participam do processo, é uma grande diversão, uma alegria para a família”, conta Marisa.


Recentemente, ela expôs seus quadros de óleo sobre tela no Centro Cultural do câmpus da Universidade de São Paulo (USP), encerrado no último dia 30.


Seus filhos não rompem, em momento algum, seus laços afetivos. “Mesmo com novas famílias formadas, eles nunca deixam de participar da minha rotina e partilhar os acontecimentos”, orgulha-se.


Segundo ela, foram os próprios desafios da cegueira que fortaleceram ainda mais os laços da família. A mãe artista ainda enxergava quando seus filhos beiravam a adolescência.


A cegueira


O percurso de vida de Marisa foi alterado em 2001, época em que sua visão já era prejudicada com cegueira parcial causada por uma retinose pigmentar. Mas um choque anafilático durante um procedimento médico, em exames de rotina, teria deixado ela cega de forma irreversível.


Sua reação ao sair da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) sem enxergar foi a mais dolorosa possível. “Meu mundo havia acabado ali. Me sentia totalmente inútil”.


Por dois anos, até 2003, colocava-se em um papel nada artístico de vítima. “Você se torna tão dependente que não tem reação para sair. Me sentia fora do mundo, uma coitada, tinha pena de mim mesmo”.


Até quando?


A superação veio a partir de uma ação inusitada do marido, Valter. Ele colocou um espelho em frente à cama e disse: “Olhe para o espelho, veja você. Lembra de quando era mais jovem? Vai se lembrando da sua fase de vida. Olhe quem se tornou agora. Até quando continuará sentindo pena de si?”.


Esse gesto, essas palavras, tornaram-se o princípio da superação. Desde então, a artista passou a organizar a residência. Entre raladas e feridas, reaprendeu a viver.


Desde o “choque de realidade” do marido e sempre com o apoio dos filhos, a artista se reinventou como mulher e encontrou um novo sentido à vida.


Limpar a casa, cozinhar, passear, cuidar dos netos e participar de inúmeras atividades sociais e artísticas, dentre elas a dança, passou a ser o novo modo de vida de Marisa. “Só não danço tango”, brinca.


Ela tenta levar aos portadores de deficiências que os desafios estão ali para serem superados. “Hoje, posso, por meio de minhas atividades, mostrar que o deficiente, o cego, pode levar uma vida normal e ser útil”, diz, apontando que já quebrou o nariz duas vezes, sofreu várias escoriações e tem canelas cheia de hematomas. “São marcas de muitas batalhas enfrentadas e vencidas”.


Preconceito


Batalhas essas que, muitas vezes, poderiam ser evitadas a partir da compreensão do ser humano e a queda do preconceito.


Após muitos ateliês e professores de pintura se recusarem a ensiná-la a pintar, com o argumento de que ela não poderia ver o cento da tela, o marido a encontrou chorando no sofá e novamente se colocando como uma vítima.


Ao invés de consolá-la com palavras ou mais uma vez perguntar “até quando?”, ele comprou pincéis, tintas e telas. Desde então, ela passou a ter um mundo colorido. Se não pelos seus olhos, pelo amor de seus filhos.

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