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"Desenvolver capacidades é uma arte", diz pesquisador português em evento na USC


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Douglas Reis

“Ninguém pode ensinar aquilo que não conhece ou conhece em fragilidade”, afirma Ventura

“Nada substitui o bom professor” foi o tema da conferência de Alexandre Ventura, professor do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, em Portugal, no encerramento do 5º Simpósio Internacional de Linguagens Educativas (SILE), promovido pela Universidade Sagrado Coração (USC) e a Sagrado - Rede de Educação. Pesquisador e palestrante em diversos países, Ventura conversou com o Jornal da Cidade.

 

O que caracteriza um bom professor?

Alexandre Ventura - Não tenho a pretensão de esgotar todas as características, mas creio que algumas são fundamentais. Um bom professor tem que dominar a sua área científica, sua especialidade, ou seja, conhecer profundamente sua matéria. Ninguém pode ensinar aquilo que não conhece ou conhece em fragilidade. Também ter a competência de estimular os alunos para aquilo que acontece em sala de aula. Muitos deles não têm nível suficiente de atenção, de motivação ou de estímulo e, portanto, a pedagogia do professor para desenvolver capacidades, conhecimentos e competências dos alunos é uma arte. Nesse aspecto, o humor é sempre um instrumento ótimo para que os alunos se sintam à vontade, porque aprender não precisa ser uma coisa chata. Aprender pode e deve ter ludicidade, porque assim é muito mais provável que aconteça o aprendizado.


Como valorizar a imagem social do professor?

Ventura - Podemos dizer que no Brasil há uma imagem social depreciada do papel do professor, que decorre de questões históricas, políticas, demográficas, sociológicas e da massificação do ensino. Os próprios professores têm que se comunicar com a sociedade, partilhar sua contribuição para o sucesso acadêmico, social e profissional de seus alunos. Um bom professor marca, faz a diferença na vida do aluno, não se limita à fase acadêmica; seu exemplo vai motivá-lo. O professores têm vivido muito para dentro da profissão e não têm o estímulo de tornar isso mais transparente. Muitos governos têm um ação que contribui para que a sociedade minimize a função do professor. Não há o reconhecimento substantivo da sua importância. Há entidades sindicais que defendem os direitos dos professores, mas não existem organizações com visibilidade pública que equilibrem as obrigações, filtrem os profissionais e afastem os que não possuem conduta ética e competências para essa profissão. Isso beneficiaria a imagem e daria mais credibilidade ao posicionamento dos professores. Não depende do MEC, da presidente, mas dos professores congregarem vontades.


Como o senhor observa a educação no Brasil?

Ventura - As características são distintas, mas a crise na educação é um tema recorrente em termos mundiais. Nos EUA, supostamente o país mais poderoso do mundo e com grande desenvolvimento científico e social, continua-se a falar de escolas que são “fábricas do insucesso”. Eles também estão insatisfeitos com o sistema público de educação, que não corresponde as necessidades dos alunos. O Brasil é um país muito grande, com uma diversidade enorme, que tem um conjunto de problemas estruturais, políticos e sociais e isso faz com existam muitos brasis e muitos sistemas educativos dentro do Brasil, com qualidade e resultados diferenciados. Eu que venho de fora olho como um desafio, não de forma negativa. Vejo nos educadores uma vontade de fazer mais e melhor, de se comprometer. A profissão de professor é muito difícil, é muito exigente, de grande desgaste no mundo todo. A questão remuneratória não se resolve em nenhum lugar. Normalmente nas estruturas das profissões, a do professor não é bem remunerada; não é atrativa pelo salário, mas para as pessoas que gostam de ensinar, que abraçam a profissão pelo prazer que lhes dá estar com as crianças, os alunos, de promover a aprendizagem. É uma vocação.


O desinteresse dos alunos pelas aulas e leituras está relacionado ao uso cada vez maior da internet, principalmente pelo celular?

Ventura - Não é só isso. Estamos em uma fase do desenvolvimento social, que chamo de instantâneo e fugaz. Em média, consultamos nosso celular por 130 vezes à procura do último curtir, para ver se alguém nos afagou o ego e apreciou coisas que não mereceriam nenhum tipo de notoriedade, mas que alguns de nós resolveram atribuir importância. Estamos muito focados no imediatismo do e-mail, do Facebook, e no final do dia perdemos muito tempo, muita energia, e isso não se traduziu em nada de substantivo, em nada de gratificante. E o tempo que dedicamos a isso foi roubado da leitura, da conversa com os familiares, do nosso descanso. Está provado pela neurociência que nós necessitamos de momentos de pausa ao longo do dia, não pensar em nada, não estar em tarefa, para que o resto do dia seja mais produtivo e com nível de concentração melhor. Esses acontecimentos nos fizeram perder uma dimensão narrativa da história, do tempo que é necessário para ler, aprender, articular. Hoje tomamos uma espécie de “balinhas do conhecimento”: são as sínteses das sínteses, que fazem com que se perca a substância, a reflexão. É natural que nossos alunos, que tem professores que vivenciam o mesmo estilo de atuação, foquem o tempo nesse tipo de atividade, que não agrega conhecimento. Há cada vez menos alunos a ler. E minha pergunta é: há também menos professores a ler?


Outro tema muito discutido é a participação da família na vida escolar. O que pensa sobre isso?

Ventura - A família é fundamental. O ideal é que  funcionasse como parceira da escola e dos professores, com estratégias e uma ação no cotidiano que olhasse para o aluno em casa e na escola para promover a aprendizagem, que tivessem efetivamente uma linguagem comum. Isso na prática não acontece na maior parte dos casos. É óbvio que existam diferenças pelo nível do capital cultural das famílias, mas não são apenas as famílias de menores recursos que participam menos. Muitas famílias de alta renda não articulam esforços com o que é feito nas escolas ou porque não valorizam a escola, ou valorizam e não têm tempo ou porque preferem investir em cursos que aumentem a possibilidade de sucesso acadêmico dos filhos. Minha visão é pragmática: criamos uma ficção sobre um nível de parceria que nunca vai ocorrer. Na perspectiva de professores, há muitas queixas; como pais, muitos reconhecem que também não fazem tudo o que está ao alcance para essa articulação. Ainda assim, os professores não podem desistir, a variável pais não é controlada pela escola. Podem criar  condições, convidar, partilhar. Os casos de maior sucesso envolvem os pais em atividades lúdicas em que os filhos participam como teatro, momentos musicais, esportivos... Talvez se sintam  mais estimulados a participar de outros eventos.


Em sua opinião, os alunos portadores de necessidades especiais devem ser integrados ao ensino regular?

Ventura - Minha opinião é que deve ser feito um diagnóstico muito criterioso das dificuldades que esses alunos apresentam. Há alunos que podem ter esse tipo de integração, trabalhar em conjunto com outros alunos em turmas; há aqueles que podem ter um equilíbrio entre especialistas que aumentem suas possibilidades de sucesso acadêmico, social e profissional, pois os professores regulares não têm suficientes competências para estar sempre com esses alunos e rentabilizar o potencial deles; e há alunos que colocam um desafio tão grande que não vejo como integrá-los em turma regular nem que seja por algum tempo. Colocar alunos que manifestam algum nível de incapacidade junto com outros alunos que não apresentem o mesmo tipo de dificuldade não vai fazer bem a ninguém. É preciso consagrar profissionais a esses alunos que possam estimulá-los mais. Forçar essa integração acaba sendo uma injustiça.

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