Com o índice da inflação acumulado em 8,13% nos últimos meses, o repasse de preços para as mercadorias é natural. Nos supermercados, por exemplo, o aumento dos produtos da cesta básica já é notório. Por conta disso, a Associação Paulista de Supermercados (Apas) sugere a utilização de outras fontes de energia e equipamentos mais eficientes nestes estabelecimentos, conforme divulgada pelo JC no último dia 13.
Diante deste cenário econômico, são muitos os setores que veem as vendas despencarem. Resultado: começam as promoções - como as do comércio.
Neste momento, a difícil missão do empresariado brasileiro é revisar os preços de seus produtos e serviços, mas sem correr o risco de dar o chamado “tiro no pé”, espantar a freguesia. Do outro lado, o consumidor faz malabarismo para manter o mesmo padrão de vida conquistado, especialmente nos últimos 20 anos de moeda estável e nos 10 de crescimento.
E se o aperto financeiro tem mudado o comportamento - novas relações entre quem vende e quem compra estão surgindo -, o setor de serviços é dos mais afetados. E quem trabalha na área de lazer e diversões já sente as mudanças.
O JC procurou mostrar como está a relação nesse setor atualmente, e ouviu um consultor que dá aval ao que é preciso fazer até a crise passar: apelar para a criatividade.
Baixou: empresários do ramo de entretenimento fazem descontos e se dão bem
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Diegoli ‘segura’ preços das excursões para não perder clientes |
Os empresários Ronaldo Diegoli e Paulo Sérgio Rodrigues têm algo mais em comum além de tirarem o ganha-pão da família do ramo do entretenimento: eles baixaram os preços de seus serviços. Ronaldo, que trabalha na área de turismo especializado em excursões para grandes shows, diz que o momento está sendo um desafio.
“Em algumas excursões para shows e festivais organizadas pela RD Cultural (sua empresa), baixamos o preço do pacote. Em outras situações mantivemos o mesmo valor do ano passado, tendo que pagar valores reajustados pela inflação aos fornecedores. Está sendo um grande desafio, porque o mais importante para nós é sempre melhorar ou pelo menos manter a qualidade do serviço. Estamos conseguindo porque muitas pessoas que gostam desses shows e festivais viajam com a gente desde 2007 e sempre nos dão preferência”.
Ronaldo aposta na criatividade e está consciente de que o público acaba vendo o entretenimento como “supérfluo”, e na hora de fazer cortes esse item ocupa o primeiro lugar na lista das famílias. Dinheiro curto acaba sendo sinônimo de contenção em lazer.
Sem dinheiro, sem viagem, sem passeios. Ou então, passeios mais modestos. Consciente disso, a empresa de Ronaldo já se adequou. “Também temos que ser criativos e empreendedores para viabilizar novas viagens e atrair novos clientes. Estamos até oferecendo opções de parcelamento por cartão como facilidade”.
Pela dificuldade da economia, inclusive com altas taxas de desemprego, as pessoas deixam de ir naquele festival ou show que tanto queriam, principalmente pelos valores dos ingressos, que no caso de shows internacionais são fechados em dólar.
“Os festivais nacionais, como o tradicional João Rock de Ribeirão Preto, têm valores bem mais acessíveis e acabam sendo uma boa opção”, aponta ele, como alternativa.
Por outro lado, quem tem um dinheiro guardado pode aproveitar agora, já que com os preços dos pacotes de shows mais baratos, é a hora de realizar o sonho de ver um grande astro internacional, por exemplo, lembra Ronaldo, que uniu o útil ao agradável. Além de ter levado clientes a todos os principais shows de rock do País de 2011 para cá, ainda teve um sonho realizado: encontrou Steve Tyler, vocalista do AeroSmith, uma de suas bandas preferidas, na Calçada da Fama, em Los Angeles.
Bonecos do momento
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Paulo - o Palhaço Rogerito - também anima festas com bonecos |
Na mesma esteira de Diegoli, acreditando que criatividade é tudo nos momentos de crise, está o empresário Paulo Sérgio Rodrigues, que além de encarnar o Palhaço Rogerito como animador de festas e eventos, inclusive em shows em escolas, agora tem uma nova vertente: fez réplicas dos bonecos do momento que estão fazendo o maior sucesso com a criançada e assina presença em festas infantis.
Assim, a disputa dos pequenos para passar algumas horinhas ao lado da Peppa Pig, por exemplo, ou do boneco Olaf do filme “Frozen”, é grande. Mas isso não impediu que ele reduzisse o preço das apresentações. Se no auge já chegou a cobrar até R$ 200,00 por duas horas de permanência em uma festa (a média era R$ 150,00 por período), hoje ele aposta em promoções - por R$ 100,00 cada duas horas e a criança fica feliz em receber o seu personagem preferido em casa.
A estratégia tem dado certo. Com o aumento do número de personagens e com a ajuda de familiares, Paulo Sérgio dá conta de administrar duas empresas - a do palhaço Rogerito e a de Personagens Infantis que têm se multiplicado. No dia em que fizemos a entrevista, dois dos bonecos-personagens tinham “viajado para a região com meu irmão, por isso não dá para mostrá-los”, justificou.
‘As respostas estão na criatividade’
Segundo Cadu Moura, é preciso fugir da visão drástica do momento atual: ‘O tamanho do dragão reflete apenas a visão que cada um tem dele’
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Cadu: “As pessoas devem encarar isso como uma oportunidade” |
O coach Cadu Moura é expert na relação das vendas com a qualidade de vida e orienta as pessoas a não terem uma “visão drástica” do momento econômico atual. Em uma de suas principais palestras, Moura - que é de Agudos, membro do casting de palestrantes da agência “Grandes Profissionais”, a maior do Brasil neste segmento - analisa a relação entre consumidor e vendedor. Ao JC, falou sobre o momento atual.
Jornal da Cidade - Como o senhor vê o cenário atual?
Cadu Moura - O comércio está usando as ferramentas que possui para lidar com o aperto financeiro atual. Então começam a aparecer as promoções na tentativa de manter o mesmo nível de lucro que eles estavam tendo antes do início de 2015. É basicamente o mesmo pensamento do feirante que oferece descontos de até 35% para quem compra seus produtos perto do final do seu expediente. Ele não quer voltar para casa com um estoque grande e a dona de casa mais experiente percebe isso e deixa para ir à feira próximo ao meio-dia, porque ela sabe que vai economizar nesse horário.
JC - Mas então, como enfrentar o problema e aumentar (ou ao menos manter) sem perder qualidade?
Cadu Moura - Na criatividade está a resposta. Exatamente o que alguns dos entrevistados já estão fazendo intuitivamente. Analisando o lado do empresário que está neste ramo de festas, concordo que é preciso adaptar-se ao momento para não perder clientes durante a crise. Uma opção é oferecer pacotes com menos salgadinhos ou com um tempo menor para tornar esses eventos mais baratos. Modificar os pacotes disponíveis, diminuir o número de itens e apresentar preços mais populares pode ajudar o empresário a passar por essa fase. É preciso parar e analisar as possibilidades com a visão de alguém que está do lado de fora do negócio para tentar enxergar outras oportunidades.
JC - E o consumidor deve abrir mão da diversão?
Cadu Moura - Durante esse período de contenção de gastos é preciso encontrar novas maneiras de se divertir. O importante é sempre lembrar daquela máxima que a gente pode ser feliz sem dinheiro. Então, a festinha de aniversário da criança, que antes seria realizada em um bufê infantil, pode virar um piquenique no quintal, onde os salgadinhos dão lugar para frutas, e o pai pode fazer as vezes do monitor e ensinar para os mais novos como eram as brincadeiras na época dele, como jogar pião e bolinha de gude. Ao invés de ir ao cinema no final de semana, a família, ou o casal de namorados, pode apostar em rever um filme que eles já possuem em DVD”.
JC - Mas não se perde qualidade de vida com isso?
Cadu Moura - No meu trabalho tento mudar o modo como as pessoas enxergam as coisas. É o caso do senso comum quando muita gente pensa que vai perder qualidade de vida ao cortar os gastos com lazer. Só que esta é uma visão muito drástica. Grande parte dos problemas que o ser humano possui está muito mais no modo como ele interpreta e assimila as situações do cotidiano, do que nas coisas que acontecem no nosso dia-a-dia.
JC - Como assim?
Cadu Moura - Acredito que as pessoas devem encarar esse tipo de problema como uma oportunidade. Uma oportunidade para que a gente reflita sobre nossos hábitos de consumo e para que as famílias encontrem outras maneiras de economizar. Quem aprender a se comportar de uma forma diferente nesse momento vai sair mais forte da crise. E temos um exemplo de mudança de comportamento recente, o da seca.
JC - O consumidor sentiu no bolso, além do banho...
Cadu Moura - No caso das secas, que fizeram com que muitas famílias ficassem sem água nesse início de ano, quem desenvolveu a habilidade de tomar um banho mais curto ou de reutilizar água da chuva para lavar os carros, além de ajudar o planeta e as gerações futuras, também vai ganhar em qualidade de vida no futuro, porque essas pessoas vão gastar menos na conta de água e vão poder, em breve, ter recursos para fazer uma viagem ou um curso, algo que não iriam fazer caso continuassem desperdiçando água.
JC - De fato, é uma diferença.
Cadu Moura - A forma como você encara a realidade faz toda a diferença no jeito como você será afetado por ela. O tamanho do dragão da inflação reflete apenas a visão que cada um tem dele.
Congelou: preços são mantidos e tem festa quase todo dia
Malavolta Jr. |
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Rodrigo Rueda diz que tem a margem de lucro enxuta como diferencial em seu bufê infantil |
O empresário Rodrigo Rueda investiu em um bufê de festas infantis no Jardim Bela Vista há dois anos ao ver a expansão do mercado, especialmente para atender a chamada “nova classe média em ascensão” e tendo um “preço justo, bem atrativo, com margem enxuta de lucro” como diferencial.
Deu certo. E a fama já se espalhou tanto que ele consegue também atender a uma clientela dos Altos da Cidade e de condomínios mais nobres. “Vem gente de todo lugar, para moradores do Lago Sul, por exemplo, temos feito muitos eventos”, diz.
Mas, temendo uma queda grande da clientela, Rodrigo resolveu ser prudente e não repassar o aumento de custos. E olha que especialmente na área de energia elétrica foi muito grande. No ano passado ele pagava R$ 0,44 centavos o kwh e este ano cada quilowatt/hora passou para R$ 0,68. Resultado: ainda teve que investir em nova iluminação de led, muito mais econômica, para manter o preço. Afinal, “a iluminação é essencial em festas, tanto na decoração quanto para o funcionamento de equipamentos e brinquedos, se eu não fizesse essa conta na ponta do lápis, não dava para bancar esse aumento todo mês.”
A família de Rodrigo ainda tem anexo ao seu empreendimento uma empresa culinária, responsável pelo fornecimento dos doces e salgadinhos da festa. Com isso, também consegue absorver o aumento do mercado. “Cada vez que a gente precisa comprar uma verdura, um tomate que seja, acaba tendo um susto”. Mas este ano ainda não mexeu na tabela.
Com isso, o empresário comemora o fato de ter fechado o mês de abril com “festa praticamente todo dia”. Clientela não tem faltado. Mas ele tem notado uma diferença de comportamento. “Antes o pessoal vinha, pesquisava, faturava a prazo, dividia, já se antecipava. Agora vemos que os interessados estão mais retraídos. Pesquisam e voltam às vésperas do evento já com o dinheiro na mão. Vejo que o consumidor está com medo de fazer dívidas”.
Aumentou: boleira que trabalha com ingredientes importados não consegue segurar valores
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Requinte é a especialidade de Maria Cristina Queiroz |
Na outra ponta está a confeiteira Maria Cristina Queiroz. Famosa por seus bolos requintados, que são considerados verdadeiras obras de arte, ela não conseguiu segurar o valor. Afinal, além de absorver o impacto do aumento dos preços de farinha de trigo, ovos, leite, também tem a alta do dólar, já que trabalha com muitas especiarias e ingredientes importados que fazem de cada bolo exclusivo, verdadeiras obras de arte. E teve que aumentar em 25%. “Nos supermercados os preços estão cada dia mais altos, muita gente tem medo de repassar essa alta e perder a freguesia, né? Mas não teve jeito, tive que aumentar”.
Por ter uma clientela fiel ela não pode se queixar. Especialmente para o Dias das Mães, estava com encomenda de 14 bolos. Cristina trabalha sozinha, a empresa é doméstica e seu círculo de clientes aumenta através do boca a boca. Uma história que começou há dez anos, quando do casamento do próprio filho, e ela se assustou com os preços praticados na praça - além de não gostar muito do que o mercado oferecia. Resolveu ela mesma fazer o bolo do filho, e deu tão certo que hoje é essa a sua profissão.
“E olha que antes eu só sabia fazer bolo de caixinha”, diz, com a certeza de que venceu um dos muitos desafios da sua vida.



