Este é o Brasil que o poeta paraibano Orlando Tejo viu, escreveu em versos, e a maioria dos brasileiros está vendo nos dias de hoje:
"Um país que crianças elimina, que não ouve o clamor dos esquecidos, onde nunca os humildes são ouvidos e uma elite sem deus é quem domina, que permite um estupro em cada esquina e a certeza da dúvida infeliz, onde quem tem razão baixa a cerviz e massacram-se o negro e a mulher. Pode ser o país de quem quiser, mas não é com certeza o meu país.
Um país onde as leis são descartáveis, por ausência de códigos corretos, com quarenta milhões de analfabetos e maior multidão de miseráveis; um país onde os homens confiáveis não têm voz, não têm vez nem diretriz, mas corruptos têm voz, vez bis e o respaldo de estímulo incomum. Pode ser o país de qualquer um, mas não é com certeza o meu país. Um país que perdeu a identidade, sepultou o idioma português, aprendeu a falar o pornofonês aderindo à global vulgaridade; um país que não tem capacidade de saber o que pensa e o que diz, que não pode esconder a cicatriz de um povo de bem que vive mal. Pode ser o país do Carnaval, mas não é com certeza o meu país.
Um país que é doente e não se cura, quer ficar sempre no terceiro mundo, que do poço fatal chegou ao fundo sem saber emergir da noite escura; um país que engoliu a compostura, atendendo a políticos sutis que dividem o Brasil em mil brasis para melhor assaltar de ponta a ponta, pode ser o país do faz-de-conta, mas não é com certeza o meu país".
Leônidas Marques