Douglas Reis |
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Além de contar histórias, Dona Efigênia cantou, pulou e interagiu a todo momento com as crianças, que não ficavam longe dela |
Na manhã dessa segunda-feira (18), uma das artistas brincantes mais conceituadas do País, Efigênia Rolim, 83 anos, mostrou fôlego de menina em Bauru. Ela participa do Festival Internacional de Teatro de Bonecos.
Ela conta que, ao chegar no aeroporto, prontamente lhe providenciaram uma cadeira de rodas para que não se cansasse. A reação dela ao ver a cadeira à sua espera foi a mais inusitada para uma octogenária: pirueta seguida de uma cambalhota.
“Todos ficaram impressionados com a elasticidade e a disposição da artista. Ela já trabalhou como boia-fria, foi catadora de recicláveis e se transformou em poeta e artista brincante. Em 2007, foi homenageada por Gilberto Gil, quando foi Ministro da Cultura”, contou o produtor cultural, Kyn Junior, um dos organizadores do festival, que segue com atrações gratuitas de 13 a 24-5.
A artista se apresentou ontem para um grupo de alunos do projeto Obreiros de Curuçá, no bairro Vila Dutra.
As crianças aproveitaram a irreverência da artista, que cantou, dançou, brincou e deu uma lição de cidadania para os pequenos (com vasto repertório e letras de repentes que incitam ações de cidadania).
Inspiradora
Efigênia cria um mundo imaginário por um discurso que flui e hipnotiza as crianças, entretendo-as à mesma medida que as educa. “Já pedi para o vizinho não jogar lixo no chão, bota tudo no saquinho, que o lixo é ganha pão” foi o trecho de um dos seus repentes.
E foi justamente dos recicláveis que ela tirou a inspiração para se transformar na artista brasileira conhecida como Rainha da Bala, tema de dois documentários premiados: “Rainha do Papel”, dos paranaenses Estevan Silveira e Tiomkim (1999) e “O Filme da Rainha” do argentino Sérgio Mercúrio (2006).
A poesia dela ganha facilmente forma de repente e não se limita somente às suas apresentações em sala de aula: também já ganhou páginas de livros de cordel.
Vida transformada
Um papel jogado na rua foi o que mudou o destino de Efigênia Rolim. “Em 1990, logo depois de ficar viúva, encontrei um papel de bala na rua: pensei que era uma joia, uma esmeralda. Agachei, peguei. Minha voz interior disse que eu poderia dar vida àquele mísero papel de bala caído ao chão. E foi o que fiz e passei a criar roupas e bonecos com eles. Se eu salvar um papel de bala por dia, ao longo do ano, serão 365,” contou, emocionada.
Mais do que uma artista popular, ela usa, além de papéis de bala, também lacres de latinhas e outros materiais recicláveis para criar bonecos que utiliza nas apresentações. São cavalos, bonecos, árvores que saem do lixo e ganham vida em suas histórias.
Nascida em Abre Campo, Minas Gerais, atualmente reside em Curitiba. Passou a ser reconhecida como “A Rainha do Papel” por sempre utilizá-los em suas produções.
Efigênia não se envergonha em dizer que a grande professora de todos os seus conhecimento foi a própria vida. Inclusive, o próprio figurino é ela mesma quem faz (e com papéis de bala também, claro).
Mãe de nove filhos, hoje, a artista tem 16 netos e cinco bisnetos. Segredo da disposição? “Não parar de trabalhar. E a felicidade é ter liberdade para voar alto, sempre digo isso para as crianças. Eu sou feliz, estou lúcida e ainda posso levar minha mensagem a alguém.”
Douglas Reis |
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Uma de suas marcas por onde quer que passe são as piruetas, algo inusitado para uma artista octogenária |
Reconhecimento
Artista popular brincante, escultora, poeta, repentista e contadora de história. Após nascer em Abre Campo, em Minas Gerais, desde a década de sessenta reside em Curitiba.
Em 2005, participou de uma exposição no Museu Oscar Niemeyer. Participa assiduamente de encontros de cultura popular em diversas regiões do País. Dois anos depois, em 2007, também recebeu o Prêmio de Culturas Populares do Ministério da Cultura. Com o dinheiro Efigênia reformou a sua casa em um ateliê, no bairro do Cajuru, onde instalou o museu A Vida do Papel de Bala.
Sobre as premiações, a artista afirma que se orgulha por todo o reconhecimento do trabalho, e estimula para que outras pessoas também façam algo de bom, onde vivem. “Tem pessoas que falam não adianta fazer nada no Brasil. Não é assim, eu estou aqui e tenho obrigação de fazer algo pelo meio em que estou inserida. Todo mundo sempre pode fazer algo bom. E todos nós sabemos que criança só aprende pelo exemplo”.

