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Epidemia de dengue alerta ao risco de zika vírus em Bauru

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, mesmo vetor da dengue, o zika vírus chegou ao País e já há relatos extraoficiais de casos no Estado vizinho do Rio de Janeiro. A Secretaria Municipal de Saúde informou que não há registros em Bauru, mas alerta que a cidade não está livre da doença – que pode chegar até mesmo neste ano.


O secretário Fernando Monti explica que o risco existe porque, mesmo com as temperaturas amenas e a redução no volume de chuvas, não há perspectivas para reduzir drasticamente, neste momento, a proliferação do Aedes aegypti. “A infestação deve chegar a um grau menor entre junho e julho, quando as temperaturas caem mais e os períodos de estiagem se prolongam”, assinala.


Com o mosquito em circulação, a transmissão poderá ter início se uma pessoa de outro Estado, contaminada com o zika, vier até Bauru – ou então um morador viajar para uma região infectada, contrair o vírus e retornar à cidade. Em qualquer uma das situações, o doente teria de ser picado por um mosquito saudável que, contaminado, passaria a transmitir a doença para outras pessoas.


“E isso é algo que não podemos prever, nem mesmo evitar. Uma vez estabelecido o ciclo de transmissão, fica difícil conter a progressão dos casos, assim como tem sido com a dengue”, alerta.


Até o momento, o Ministério da Saúde confirmou apenas 16 casos do zika vírus, sendo oito deles na Bahia e os demais no Rio Grande do Norte. Há, contudo, relatos extraoficiais de casos em outros estados. A reportagem conversou, ontem, com uma ex-moradora de Lins (102 quilômetros de Bauru) que foi contaminada no Ceará, onde mora atualmente (leia mais abaixo).


Nesta semana, pacientes também teriam sido diagnosticados com a doença no Rio de Janeiro. Não há registro, mesmo que informais, no Estado de São Paulo, mas a possibilidade de o vírus chegar a Bauru preocupa, já que a cidade vive uma epidemia de dengue e registrou, no final do ano passado, índice de infestação de Aedes aegypti de 1,9, quase o dobro do limite máximo preconizado pelo Ministério da Saúde, que é de 1%.


Sem confusão

Quioshi Goto/Arquivo

Secretário Fernando Monti confirma que o risco do zika em Bauru existe

As taxas se referem ao Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti (Liraa), pesquisa de âmbito nacional que identifica o percentual de imóveis de cada município onde há focos de reprodução do mosquito.


Até a semana passada, Bauru contabilizava 3.230 casos de dengue e três mortes. No ano passado, foram 432 casos, sem óbitos. Apesar de considerar o risco da chegada do zika vírus em Bauru e da facilidade com que teria para se proliferar nas atuais condições, o secretário Fernando Monti garante que não houve, ainda, necessidade de reforçar orientações aos profissionais de saúde da rede municipal para o diagnóstico da doença. “Iremos tomar medidas quando e se o vírus chegar ao Estado. Por enquanto, nossa principal preocupação é com a dengue e, como as duas doenças tem sintomas semelhantes, não queremos causar confusão”, frisa.


Ao contrário da dengue, o zika vem sendo tratado como uma doença benigna, já que não são conhecidos casos de morte entre pessoas que foram contaminadas.  Outra distinção é que, apesar das manchas vermelhas que provoca no corpo, ele não causa hemorragia e o paciente fica curado em um tempo mais rápido, cerca de sete dias (veja mais no quadro acima).


Uma das desvantagens, contudo, é que o zika pode ser transmitido por outros mosquitos, a exemplo do aedes albopictus.

‘Foi horrível. Não conseguia nem fechar as mãos’, relata mulher diagnosticada com o vírus no Ceará

Arquivo Pessoal

Vanessa Baldi teve muitas manchas pelo corpo

Vanessa Baldi tem 35 anos, quase 25 deles vividos em Lins, cidade da região de Bauru localizada a 102 quilômetros de distância. Desde dezembro de 2014, por conta do trabalho do marido, ela passou a viver em Juazeiro do Norte, no Interior do Ceará.


Na semana passada, de um dia para outro, Vanessa acordou com manchas vermelhas pelo corpo e, depois de procurar ajuda médica, descobriu que estava com o zika vírus. Leia, abaixo, o relato de como ela lidou com a doença em entrevista concedida por telefone ao Jornal da Cidade.


JC - Quando você desconfiou que estava doente?

Vanessa - Do dia para a noite, começaram a aparecer manchas vermelhas e coceira por todo o corpo. Acordei e parecia que eu estava com sarampo.


JC - E como foi realizado o diagnóstico?

Vanessa - Devido às manchas, o médico já trata como sendo zika. Na verdade, o tratamento é o mesmo dado à dengue, que é da mesma “família” do zika: paracetamol, com muito líquido e repouso.


JC - Por quanto tempo os sintomas da doença permaneceram?

Vanessa - Por cinco dias. Mas eles (médicos) dizem que varia de pessoa para pessoa. Eu, por exemplo, não tive febre. E tem gente que, diferentemente de mim, não sente dor nas articulações. Tive muita coceira, dor no fundo dos olhos e, nos últimos dias, bastante dor nas articulações das mãos, pés e joelhos. Foi horrível. Não conseguia nem fechar as mãos, de tão inchadas que ficaram.


JC - Você precisou fazer repouso absoluto?

Vanessa - A doença não chegou a me incapacitar, mas doía, era complicado fazer qualquer coisa. Fiz o que era inevitável, como cuidar da minha filha, que ainda vai fazer três anos em julho e precisa da minha atenção.


JC - Por enquanto, não houve casos confirmados no Ceará pelo Ministério da Saúde. Você acredita que mais pessoas tenham ficado doentes em Juazeiro do Norte?

Vanessa - É que não estão fazendo testes para confirmação, apenas exame de sangue para detectar queda de plaquetas - a mesma coisa que acontece com a dengue. Mas todas as unidades de saúde estão cheias de casos. Quando fiquei doente, vi muitas pessoas nas mesmas condições do que eu, todas manchadas, inclusive crianças. Está um caos. Os médicos falam que Juazeiro está doente.


JC - E o que você acredita que favoreceu a proliferação da doença, desta forma, na cidade?

Vanessa - A falta de educação da população, não importa de qual classe social seja. O motorista pode estar em um carro importado, mas joga o copo de suco pela janela, na rua. A cidade é muito suja. Além de lixo, tem muito mato e, por consequência, muito pernilongo.

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