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A crise pela ótica do "copo meio cheio"

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Éder Azevedo

Adriano Fabri (dir.) afirma que “vacas gordas” criam acomodações

Palestrantes têm utilizado um ideagrama japonês em palestras motivacionais e de negócios, associando a expressão “crise” como “oportunidade”, embora, ao pé da letra, os linguísticos façam distinção no significado. Ocorre que, ainda que com objetivo de “sacodir a poeira”, crise pode sim, no mundo dos negócios, servir a oportunidades. De outro lado, o cenário de retração, no mínimo, é ambiente propício a rever procedimentos de gestão, de competência técnica e de panorama, reforçam consultores.

A questão é que, ressalvadas as dificuldades reais enfrentadas por setores da economia em razão da visível retração em negócios e faturamento em curso no País, o movimento de estagnação pressupõe a chance de “virar a mesa” e, em outro campo, de abandonar vícios no negócio e encarar o futuro agora.

Para isso, apontam especialistas, a maneira como cada empresário está enxergando o momento atual é crucial para definir o fim ou o recomeço, o salto ou a queda. Os psicólogos diriam que, também nas empresas, “o problema não é o fato em si, mas a forma como o apropriamos”. É a tal história de ver o contexto pelo copo “meio cheio”.

É evidente que nenhum profissional vai sair por aí propagando a versão “marolinha”, expressão utilizada pelo ex-presidente Lula para dizer que a crise internacional, enfrentada em seu governo, não traria efeitos significativos sobre o Brasil, à época. Agora, como naquele período - mas com muito mais contundência -, não se pode tapar o sol com a peneira. A estagnação está em curso!

Por este motivo, enfrentar o contexto pressupõe, evidentemente, diagnóstico sério e identificação de eventuais saídas e oportunidades com os “pés no chão”. E isso exige informação, equilíbrio, inteligência emocional, discernimento e neutralidade, ingredientes que vão diferenciar o empresário ou empreendedor tipicamente “medroso” daquele que tem vocação para crescer e até gerar novos negócios em meio a dificuldades.

Assim, ao contrário do que muitos possam estar propagando, a tempestade não é razão para fechar portas e janelas. Ao contrário. Ela é o horizonte que pode indicar saídas. Mas para “cair na chuva e se molhar”, é preciso romper paradigmas, enfrentar o espelho em relação ao perfil empresarial se for o caso e lançar os olhos para o otimismo.          

Conforme o economista Reinaldo Cafeo, em artigo no JC na última semana, “a crise econômica e, mais grave que ela, a crise política afetam diretamente o ânimo destes empreendedores, que querem somente uma coisa: tranquilidade para continuar a empreender. Empreendedor, continue teimoso e fazendo a diferença neste País”.


Retração econômica vai passar, mas como fazer o negócio sobreviver até lá?

Para o economista e consultor Adriano Fabri, é preciso não desligar que crise econômica é um fenômeno que existe, mas passa. Portanto, se o cenário é ruim, ele reflete apenas o momento. “Tecnicamente estamos em recessão. As previsões de fora do governo são de que a economia, que não cresceu no ano passado, decresça novamente este ano. Mas a grande questão é que mesmo o número ruim reflete uma média e, por isso, alguns setores estão em maiores dificuldades, mas outros não”.

Ou seja, se a crise afeta alguns, ela é sim oportunidade de crescimento para outros. “Para exemplificar, o setor de construção civil parou porque vinha em crescimento vertiginoso de investimentos. E o segmento perdeu crédito bancário. O setor sucroalcooleiro também sofreu muito nos últimos anos, com a política do governo de segurar os preços para segurar a inflação. Então, se tenho uma empresa de máquinas ligada à construção civil, eu sou afetado. Mas tenho também o setor de refrigeração que tem previsão de crescer 20% neste ano. E setores que não cresceram o ano passado, mas, neste ano, conseguiram gerar outras frentes de negócios e vão crescer 10%”, comenta o economista.

A consultora em gestão de pessoal e comportamento humano Alexandra Fabri acrescenta que, neste cenário, “o empreendedor e o empresário têm de estar atentos aos números reais, os indicadores de mercado e de economia, mas também se atentar para o ciclo do medo, o aspecto psicológico que pode derrubar negócios por receio ou pensamento negativo na origem”.

Assim, sentimentos como o medo e a insegurança costumam paralisar por conta própria. “Tem muito empresário e muito consumidor no dia a dia que está deixando de comprar algo ou investir baseado apenas no medo de que a situação pode piorar. E aqui ele comete um erro inicial básico e muito perigoso de desistir antes mesmo de avaliar, ponderar. Pior é a crise psicológica”, pondera. Neste caso, o empresário perde, pelo medo, a criticidade e, sem isso, vão para o ralo também oportunidades que sequer foram colocadas à mesa no mundo dos negócios.

Do ponto de vista do funcionamento das empresas, o economista Adriano Fabri lembra que quando a economia vai bem o empresário tende a não se preocupar com o ciclo do mercado. “Ele está vendendo bem, os volumes de negócios estão em expansão e ele não se preocupa, ou deixa de se atentar para outros processos internos. É a cultura de não saber conviver também com o chamado período de vacas gordas, que também não dura para sempre”, elenca.

O “céu de brigadeiro” leva consumidores à euforia em momentos de crescimento. “E isso acontece também acontece na cabeça do empresário, que gasta em processos internos ou acréscimos de estrutura que nem eram necessários, ou sequer foram planejados. A maré está boa, vamos gastando que não tem problema. E não é assim. Ou seja, o erro da falta de planejamento e de meta do negócio tem consequência para a fase de crise, mas também para o período de crescimento. Afeta os dois períodos. Quem corrige isso, sofre menos solavancos na crise”, sustenta.

Alexandra Fabri chama a atenção para outra reação na euforia. “Ele está vendendo bem que não tem nem tempo para olhar seus processos de produção, logística, custos. Relaxa ou deixa isso de lado. E isso faz diferença. E vai de um extremo ao outro. Na euforia, aprova tudo. E na crise, corta tudo. Erros que não devem ser seguidos”, anuncia a consultora.

 

É hora de avaliar cenários

E o que fazer, tanto na euforia quanto na recessão? “Checar, avaliar cenários e pensar: ‘será que meu mix de produtos está adequado? Será que preciso mudar algum processo de produção? Investir em treinamento em um setor específico? Será que a concorrência está fazendo algo que eu não faço? Quais as projeções para meu negócio daqui há alguns anos?’”, orienta o economista Adriano Fabri.

Nessa questão, os consultores lembram das regras básicas que formam o tripé do sucesso do negócio: revisar competência técnica, gestão e de atitude. Muitas não são nem revisitadas. Outro erro que pode “custar caro” para o negócio “é o momento de ‘afiar o machado’. “Rever os processos produtivos e administrativos. Sempre pensar no tripé do sucessos empresarial. E no momento de crise isso é essencial: como está minha competência técnica em relação à concorrência? Tem loja de varejo neste 2015 projetando crescer? E o que ela está fazendo? Ela está avançando sobre a concorrência. A competência dela é melhor e ela está tirando cliente de alguém. E como o número de clientes está menor, ela cresce e ainda derruba o concorrente”, elenca Fabri.

Outras duas regras são essenciais para o tripé do sucesso empresarial. “São a competência em gestão e atitudes empreendedoras. No mínimo, o empresário tem de revisar como está este tripé para avaliar o negócio. E isso, na crise, faz a diferença”, conclui.

Na prática, para o Brasil, o economista exemplifica que o setor automobilístico, que cresceu muito, contudo, amarga dificuldades em limite de expansão desde 2004, anunciou investimentos de R$ 40 bilhões para os próximos anos. “E as montadoras não cortaram esse planejamento. Eles não vão jogar dinheiro fora. Eles evidentemente planejaram que o mercado está passando pela crise, mas ela terá seu ciclo e que, em seguida, a economia vai voltar a outro patamar. Por isso a manutenção dos investimentos anunciados mesmo na crise”, enfatiza Adriano Fabri.

VOCÊ PRECISA RESPONDER

- O quanto dessa crise afeta seu setor ou negócio?

- Nesse cenário difícil é possível crescer? Como?

- O que deixou de fazer ou precisa para ‘virar a mesa’?

- A hora é de cortar gastos ou investir em oportunidade?

- O que está fazendo para discutir saídas com a equipe?

 

- Você é medroso ou sabe enfrentar dificuldades?

- Que ações de gestão de pessoas podem ajudar?

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