“A primeira coisa para tomar decisões, do ponto de vista psicológico, é analisar todas as situações, mas sendo uma de cada vez. Porque cada situação requer um tipo de estratégia para alcançar o objetivo que o empresário quer”. A abordagem é do psicólogo bauruense especialista em terapia cognitivo-comportamental Arnaldo Vicente sobre o que o dono do negócio ou gestor deve levar em conta, sobretudo, em ambiente de maior risco, como em períodos de crise.
Segundo Vicente, não adianta olhar para a situação como se tudo estivesse perdido, de uma forma generalizada ou de que no futuro tudo vai piorar. “Com essa avaliação prévia compartimentada da questão, o empresário buscará identificar onde há espaço para resolver questões e o que é da parte dele que precisa ser melhorado como gestor do negócio. Mas o empresário precisa também ter autocrítica e verificar se também não precisa se aprimorar tanto tecnicamente como psicologicamente, identificado suas fragilidades, colocando sob análise seu perfil”, recomenda.
Ou seja, do ponto de vista cognitivo, é comum que a raiz do insucesso de um negócio esteja no empresário e não no projeto em si. “O empresário precisa se aprimorar. Se ele tiver esse olhar, ele terá condições de saber se a empresa ou o segmento passam por uma dificuldade momentânea, de cenário. E é preciso análise realista, de outro lado, para que seja possível compreender, se for o caso, que se trata não de um momento ruim, mas de uma empresa que requer mais cuidados”, prossegue Vicente.
O importante, em qualquer das situações, é o empresário verificar se ele tem clareza de seu comportamento diante do quadro. “Ele tem de verificar se ele está assustado, se ele está com medo, inseguro, ou se ele está demasiadamente otimista. É preciso ter lógica, frieza, nesse diagnóstico”, menciona.
Arnaldo Vicente também reconhece que crise pode ser elo para oportunidade. “E aí entra um aspecto que o empresário deve ter em mente. Todas as conquistas que ele teve até agora devem estar em sua cabeça, qual foi o papel que ele desempenhou nessas fases, como ele conseguiu sair. Ter essa consciência da capacidade de enfrentamento, somada aos recursos externos existentes – conhecer os parceiros e o próprio momento da economia – vai possibilitar uma decisão bem funcional e, nesta opção, sim surgem as possibilidades e, nelas, até as oportunidades”, sustenta.
Ter uma visão imediadista do atual cenário é perigoso, afirma consultora
A consultora em gestão de pessoas e comportamento humano Alexandra Fabri conta, a partir da experiência de contatos com empresários, que a crise inicial interna, na cabeça do patrão, é com o medo de estagnar, de não realizar negócios. “O empresário, em linha geral, tende primeiro a pôr na discussão o medo de que não conseguirá vender. Então é preciso convencê-lo a analisar o cenário, as possibilidades e, diante disso, traçar um panorama do que poderá acontecer para aquele negócio ou setor”.
E mesmo com a perspectiva ruim, é preciso levar em conta de que a crise tem tempo de duração. Sem pensar nisso, os empresários costumam sair com a “receita pronta” de cortar os gastos e demitir colaboradores. “E, em vários casos, cortar significa sufocar o próprio negócio. Cortar, por que, como e onde? É preciso ter objetivo claro até para isso, se for o caso. E o mais importante, em muitos dos casos, a saída é inversa, é investir em um projeto que estava sendo adiado exatamente para abraçar uma oportunidade que não tinha sido enxergada”.
Assim, para as consultorias, não é conversa de “coaching palestrante” a ideia de que é no “momento de crise que se revisam processos de gestão e se aguçam saídas e criatividade para, ao invés de cortar, crescer. “Se ele souber canalizar o esforço em saídas, quando a crise passar, e ela passa, ele não só saiu dela mais cedo como estará bem à frente do concorrente”, enfatiza a consultora.
Portanto, se o empresário olhar para a crise de forma imediatista, vai sair cortando colaboradores e paralisar com o susto sem ter feito planejamento. E há um agravante nessa falta de visão: “Ele sai cortando em treinamento, capacitação, reciclagem, exatamente elementos que podem fazer a diferença na hora de enfrentar a crise. É questão de perfil de negócio que precisa ser resolvida”, afirma.
Na hora de cortar, além do panorama, o empresário ainda tem de pensar em outra questão. “A mão de obra custa 60% dos gastos para cada ano trabalhado. O empresário gastou para contratar, formar e depois terá de consumir outra despesa para buscar outra pessoa no mercado quando precisar”.
No varejo
A maior feira de supermercadistas do mundo, encerrada há poucos dias na Capital, apontou que “o momento certo de investir mais nos negócios é agora”. A questão foi lançada pela Associação Paulista de Supermercados (Apas) durante a 31.ª edição de seu Congresso e Feira de Negócios. O foco foi o de baixar custos operacionais e evitar que o aumento de tributos e insumos, como energia elétrica, por exemplo, seja repassado aos consumidores.
Em Bauru, a Regional da Apas levantou que, em alguns estabelecimentos do ramo, as despesas com insumos e funcionamento chegaram a aumentar 110%. Somente o item energia elétrica é responsável por 40% dessa “explosão de custo” para o supermercado funcionar.
No congresso, os dirigentes da associação elencaram medidas como ampliação do uso de geradores de energia (sobretudo nos horários de pico quando o custo da energia é muito mais caro), programa de substituição de lâmpadas convencionais pelas em LED, troca de equipamentos para itens mais econômicos e eficientes, como em corte, balança e refrigeradores e, ainda, investimento em consultorias para redução de perdas.
Outro ponto: mesmo com a recessão em curso, o setor não fala em demissões em 2015. Sobre as medidas discutidas no congresso, o supermercadista Flávio Fernandes exemplificou, em matéria do JC sobre o congresso, que conseguiu diminuir substancialmente a despesa com energia utilizando o gerador das 18h às 21h. Agora, o caminho é uma consultoria para rever processos internos e outras formas de reduzir despesa operacional.