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Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Uma das teorias do físico britânico Stephen Hawking é a do multiversos. Segundo ela, existe uma série de universos paralelos. Tempo-espaço teria forma plana e, se fosse possível enxergar longe o suficiente, encontraríamos outra versão de nossa própria realidade. Talvez seja uma forma de a física ? conhecida por ser tão exata - ser utilizada para amenizar uma das situações mais subjetivas e incompreensíveis da nossa existência: a tragédia. Na madrugada de ontem, um acidente ceifou a vida de três homens e deixou outros dois gravemente feridos em Bauru.


Em meio a todo ferro retorcido dos carros praticamente irreconhecíveis estilhaçados pela rodovia, restam os detalhes de um destino cruel. Uma das vítimas fatais faria a festa de noivado no dia seguinte. Ele e o outro amigo ? este era só alegria porque tinha casado o filho recentemente -, que também não resistiu, estavam em uma vigília de oração prevista para acabar na tarde de domingo. O pastor passou mal e os fiéis foram embora para casa mais cedo. Infelizmente, não chegaram a suas famílias.

Mas quem sabe como está tudo em outro universo? Quem sabe se caminharmos muito e chegarmos nesta tal outra realidade, não vamos estar ouvindo sobre como a festa de noivado foi caprichada e como aqueles pombinhos nasceram um para o outro? Quem sabe, na terceira realidade, um dos motoristas ficou cinco minutos a mais conversando com um amigo e os veículos nem sequer se cruzaram na pista? Quem sabe, Hawking.

Não acredito que tal teoria sirva, neste momento, para qualquer amigo ou familiar dos envolvidos na tragédia deste fim de semana. De modo tão recente, é difícil ter pernas e caminhar o suficiente para encontrar uma outra realidade menos triste. Contudo, o que entristece é que, enquanto a teoria dos multiversos poderia ser um oásis de reflexão em meio a tanta dor, não é preciso andar tanto para viver em uma outra realidade. Esta nada tem a ver com a do físico britânico. Tem a ver mesmo com a pequenez do ser humano.

Trata-se de uma realidade virtual. Virtual com ecos do real. Com ecos que refletem como o ser humano pode ser impiedoso diante da dor alheia. Impiedoso e imbecil. Tal realidade a parte do universo é fácil de ser encontrada: é só clicar na seção reservada aos comentários tanto dos portais de notícia quanto nas redes sociais. É uma realidade de ódio revestida e protegida ? e talvez estimulada - pela distância entre quem emite e quem recebe a mensagem. Atrás do seu computador, o odioso se sente com uma armadura.

Ontem, arrisquei a ver o que as pessoas comentavam sobre a tragédia deste fim de semana em Bauru. Mesmo sem sequer presenciarem o ocorrido, conhecerem os envolvidos ou mesmo lerem sobre o fato, muitos criticavam a mistura de álcool e direção (em nenhum momento se comprovou isso até agora); outros diziam que uma das vítimas tinha saído de um bordel (a polícia refutou tal informação) e um dos primeiros colocados no ranking da boçalidade chegou a colocar um ?kkkkk? para rir da situação. Chega a dar ânsia tamanha pequenez.

Como jornalista, sempre fui e sempre serei favorável à liberdade de expressão. Contudo, como ser humano, nunca colocarei tal liberdade como linha de defesa para que se possa expressar ódio e crueldade com contornos de desrespeito da dor alheia. Como ser humano, devíamos partilhar mais a dor alheia. Quem sabe em outra realidade, como teoriza Stephen Hawking, a imbecilidade exercitada tão maldosamente e sem motivos aparentes nos chamados comentários não exista mais. Quem sabe.

Por enquanto, na realidade em que este artigo precisou ser escrito, só nos resta o silêncio. Silêncio pelo luto em relação aos que se foram e por nossa da humanidade, que parece também ir aos poucos. Silêncio total. Silêncio... sem comentários.

O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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