Em um livro que acerta no centro do alvo, Eugênio Bucci desmonta o conceito de "comunicação pública" e revela que os governos gastam nosso dinheiro é com propaganda. Há uma frase logo no primeiro parágrafo do livro O Estado de Narciso: A comunicação pública a Serviço da Vaidade Particular. Vale por um curso inteiro de ciência política tal como ela é aplicada na vida real do Brasil dos nossos tempos. "A comunicação pública no Brasil virou um palanque partidário, um negócio lucrativo, uma passarela para a vaidade particular e, sem exagero algum, uma arma a serviço da guerra eleitoral".
Esqueça, o que você tem ouvido sobre "comunicação pública" neste País, como mostra o livro, é tudo mentira. Não é comunicação. É propaganda. Não é pública. É privada. Não presta serviço algum ao cidadão brasileiro. Serve apenas para promover os interesses pessoais de quem manda nos governos e de quem recebe as verbas de "comunicação" - dinheiro dos contribuintes que nossas autoridades gastam não para lhes comunicar alguma coisa útil, mas para falar bem de si próprias. Não atende ao direito à informação da sociedade, é um outro bicho.
O brasileiro que não for cego ou surdo sabe muito bem o que é "comunicação pública" - parece que ele vive no país que tem os melhores governantes do mundo. Por conta desta lorota, paga 100% com dinheiro público, formou-se um monstro, consome bilhões de reais, a cada ano e serve unicamente como um "usina de propaganda ideológica". Seu objetivo real, perseguido sem o menor disfarce, é ajudar os políticos que tem a chave dos cofres do Erário a ganhar eleições - essa ofensiva permanente para comprar votos é feita por todos os poderes existentes.
A seguir, vêm as joias da coroa: as verbas pagas aos orgãos de comunicação privados para publicarem anúncios sobre as virtudes dos governos e comunicados oficiais descritos como de caráter "social". Há também os sinistros "patrocínios", em geral pagos por empresas estatais e similares, vale rigorosamente tudo (o leitor talvez se lembre de como podem acabar essas histórias de "patrocínio": um ex-diretor do Banco do Brasil esteve no centro de uma delas e hoje tem domicílio num xadrez da Itália, seu nome é Henrique Pizzolato). O bicho cresceu tanto que hoje existe no governo federal um ministério inteirinho, a Secom, só para cuidar da "comunicação social". Em suma, todos ganham, menos o público pagante.
Quanto está pagando ? Mistério: o governo não informa ao público quanto gasta para cumprir seu "dever de informar" o público. Os números sumiram na poeira do tempo, tudo o que se tem são amostras. Por exemplo, o governo federal, em 2014, gastou perto de R$ 4 bilhões - cerca de 2,3 bilhões com publicidade e mais 1,4 bilhão em patrocínios. O principal argumento é uma piada: a necessidade de informar o público sobre campanhas de vacinação, etc. Mas então por os governos não limitam estritamente a esses casos as suas despesas com comunicação? O problema ficaria lindamente resolvido.
A justificativa seguinte é outro monumento à hipocrisia. Fala-se que é preciso anunciar obras e outros feitos do poder público para "prestar contas à população" a respeito de como os impostos estão sendo aplicados - a este pretexto os governos desinformam. Além disso, tudo que anunciam é essencialmente falso, olhando os anúncios-padrão de novos hospitais, dá vontade de ficar doente e sair correndo para se internar num deles.
A verdade, é que os governos fazem exatamente o contrário daquilo que anunciam na mídia. Não querem informar. Querem esconder informações. Comunicação "pública"? Esta opção não está disponível no momento.
Antonio Carlos Azevedo dos Santos