O conto de Lewis Carroll continua atual, depois de 150 anos da sua primeira publicação. "Alice, no País das Maravilhas", de tantas versões e releituras ainda nos ensina a entender o mundo. É um convite a nos reinventar quando perdemos as referências morais e éticas. As aventuras da menina Alice, que ao perseguir um coelho cai na toca e se vê em um mundo "diferente", perpassa o surrealismo, a psicanálise, a filosofia, a física quântica, a semiótica, a psicodelia. Percebe-se logo que esse mundo criado pelo escritor inglês, na verdade nada mais é que a sociedade victoriana do seu tempo. Ao leitor cumpre o desafio de interpretar, explicar e enquadrar o mundo em categorias e conceitos.
Esse mundo percebido, na verdade nada tem de "diferente" do mundo real. Ele apenas está de ponta-cabeça, como observou Virginia Wolff. Jorge Luís Borges se inspirou em Alice, em muitos dos seus contos fantásticos e Vladimir Nabokov confessou ter criado a sua Lolita, depois de ler Carroll. Fico pensando no que motiva esses cidadãos envolvidos no "maior escândalo do futebol" a querer tanto dinheiro.
São todos eles septuagenários, octogenários, com filhos, netos e bisnetos, cada um com o seu pé-de-meia que nem Alice ousaria supor. Mansões em Miami, com iate na porta. Milhões guardados em paraísos fiscais. E ainda querem mais... Somente J. Hawila, concordou com um confisco de US$ 151 milhões depois de um acordo com a Justiça norte-americana. É mais que o Pedro Barusco, um dos operadores do escândalo da Petrobras comprometeu-se a devolver.
Nesta altura do campeonato da vida, esses senhores do futebol deveriam se dar por contentes por ter casa própria, automóvel e o suficiente para pagar a conta da farmácia. Refiro-me a bens e conforto que 95% dos brasileiros da mesma faixa etária nunca chegarão a alcançar, nem com empréstimos consignados. Assemelham-se, de certa forma, com o Chapeleiro Maluco que brigou com o tempo e o seu relógio parou nas 6 horas, para que ele possa estar sempre se locupletando do chá da tarde.
A Rainha de Copas, a quem caberia pôr ordem na casa, ao menor sinal de deslize manda cortar a cabeça, mas isto dificilmente acontece. Sempre há um evento ou outro, e tudo termina na impunidade. Sepp Blatter, presidente da Fifa, foi eleito para o quinto mandato. O presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, ao ver o companheiro em desgraça, preso na Suíça, mandou passar a borracha no nome de José Maria Marin do frontispício da sede da entidade.
O prédio custou inexplicável R$ 100 milhões gastos pelo cartola agora preso. Ele ainda se julgou no direito de batizar o palácio com o próprio nome. Somente no país das maravilhas, um ex-jogador apenas medíocre, nos anos 1950, poderia se tornar presidente da entidade máxima do futebol brasileiro. Foi vice de Maluf e assumiu o governo de São Paulo sem ter disputado um único voto, nomeado pela ditadura. Por causa das suas denúncias na Câmara, o jornalista Wladimir Herzog foi preso, em 1975, torturado e morto no calabouço da Rua Tutoia. Numa de suas últimas performances, foi fotografado surrupiando a medalha de um atleta campeão da Copa S. Paulo de Juniores.
A exemplo de Alice, que de tanto ver as coisas acontecerem a sua volta passou a duvidar de si mesma, o comum do povo repete a pergunta da menina: "Será que o mundo mudou ou fui eu?"
O curioso é que os Estados Unidos, onde o soccer tem importância relativa, é o país que escancara para o mundo as mazelas do futebol e põe na cadeia os primeiros da lista de corruptos. Foi utilizado o sistema financeiro de lá para remessa de dinheiro sujo; os cartolas mafiosos realizaram reuniões em território americano; têm propriedade no território ou qualquer outra atividade. Portanto, violaram a lei americana. Não importa a origem do fato. Cadeia por até 20 anos, mesmo que pela idade nem cheguem a cumprir toda a pena.
Até os ambientalistas estão preocupados com a "Copa do Mundo da fraude". Um deles resume assim a moral da história: "Se não pudermos reformar a Fifa, meu Deus, como poderemos lidar com a proliferação nuclear, com as emissões de carbono e com o equilíbrio do comércio mundial?" Tal qual o mundo de Alice, pior que a corrupção é o sistema de poder. É o terreno das maravilhas, em que negócios e poder são partilhados por membros de uma casta, com lógicas estranhas às regras que governam a normal atividade econômica e política de todos nós, Alices.
O autor é jornalista e articulista do JC