Cultura

Eny inspira noite de dramatização

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 3 min

Os mais pudicos e puritanos  vão dizer que se tratava de uma ode a uma mulher de vida fácil e exploradora de outras mulheres. Sim, esta é uma visão. Mas também há o outro lado, o do “não julgueis, para não serdes julgados”. E não dá para passar em branco à recriação do Eny’s Bar e Restaurante, badalado ícone da prostituição brasileira, o mais famoso bordel que, queiram ou não, ficava mesmo nesta Bauru.

 

Mas foi na capital, São Paulo, na última segunda-feira, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, que houve a sua “recriação”. Belas garotas, com seus “corpos violão” e homens célebres: artistas, empresários, políticos e até religiosos “circularam” como se estivessem pelos salões do lugar famoso.

 

explica-se...

 

Assim ocorreu com a leitura dramática do livro “Eny e o Grande Bordel Brasileiro” com a atriz Vera Holtz personificando a personagem-título. E teve, ainda, as “meninas”  de Eny interpretadas por atrizes do grupo Os Satyros (no total, 15). 

 

Todas tomando “fru fru”, o coquetel preferido das meninas à época. Feito à base de licor de menta, suco de laranja e gelo moído, ficava verdinho na apresentação e era chamado também de “O Absinto da Eny” em referência à famosa bebida de alto teor alcóolico (e, dizem, alucinógena). 

 

A trilha foi escolhida a dedo com interpretação de “Casta Diva” – célebre com a soprano Maria Callas, uma das preferidas de madame Eny – e finalizando com “Love For Sale”, imortalizada por Ella Fitzgerald.

 

Riqueza de Detalhes

 

O coordenador do curso de direção da SP Escola de Teatro (Centro de Formação das Artes do Palco) e diretor da Cia. Os Satyros, Rodolfo García Vázquez, dirigiu a atriz Vera Holtz na leitura dramática do livro de Lucius de Mello.

 

A obra, como se sabe, conta a história real daquela que foi considerada a maior cafetina do país, Eny Cezarino, desde os vinhedos de Salerno, na Itália, até colocar Bauru no cenário nacional, com seu Eny’s Bar, no trevo de acesso à rodovia Marechal Rondon.

 

Contrariando o desejo de seus pais, que a criaram para ser uma respeitada dama e se casar bem, a paulistana Eny tornou-se a proprietária de um dos mais famosos bordéis do Brasil, que teve seu auge entre as décadas de 1960 e 1970. 

 

Esse curioso paradoxo é contado de forma romanceada pelo jornalista Lucius de Mello, que, com uma prosa fundamentada em entrevistas, material iconográfico e em jornais e revistas, apresenta com riqueza de detalhes a trajetória da “Casa da Eny” - como era conhecido o bordel dessa famosa personagem de alcova. 

 

Gente e planos

 

Se não faltava gente famosa no rendez-vous de dona Eny, também nessa noite fria paulistana não faltou, é claro. 

 

Estavam por lá o amigo pessoal do autor e de Vera Holtz, Luís Melo, o estilista Ugo Castellana, o empresário Ciro Batelli, entre outros tantos. 

 

Contemporâneo de várias meninas do círculo de Eny, Ugo Castellana na década de 70 veio de Roma para fazer moda com tecidos brasileiros e vestiu nomes como Elis Regina, Elke Maravilha e Cacilda Becker. Acabou se radicando no Brasil. 

 

Mr. Vegas, como o empresário Ciro Batelli é conhecido, esteve presente não só como convidado, mas palestrou nessa noite e está (ele próprio disso isso em seu Facebook pessoal) empenhado em divulgar a obra para os americanos. 

 

Acompanhado do filho, Fernando Batelli e do cantor Mike Soho, contou histórias divertidíssimas da época.

 

Um grande encontro foi entre a empresária Arlette Siaretta, diretora e dona de uma das maiores (se não a maior) produtoras independentes do Brasil. Já houve quem dissesse que ela acenou que irá convidar Vera Holtz para ser Eny num filme sobre a cafetina.

 

Em tempo: o livro de Lucius foi originalmente lançado em 2002 e relançado agora também como ebook.

 

Lucius de Mello

 

Ficcionista e jornalista, Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo. Também é pesquisador do Leer – Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP – e do ARQSHOAH – Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo da USP, onde também atua como pesquisador do Instituto Shoah de Direitos Humanos. Como repórter, trabalhou por 14 anos na Rede Globo. Atualmente é roteirista e editor de texto no programa “Domingo espetacular” na TV Record.

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