Nós, humanos, possuímos inscrito em nosso DNA o espírito transformador que ao longo de milhares e milhares de anos transformou o mundo naquilo que ele é hoje. Jamais perderemos esta nossa vocação de transformar tudo à nossa volta, mas os recursos naturais da Terra são infinitamente menores do que a nossa capacidade voraz de transformar. Vivenciamos uma era de alta tecnologia, de expansão econômica, de globalização das comunicações, de experiências científicas até então inimagináveis, mas também enfrentamos conflitos éticos, bélicos, sectários, a banalização da morte e sentimentos justiceiros que barbarizam a racionalidade humana, e que nos remetem a uma involução natural que jamais Darwin ou Freud explicariam.
Diante deste mundo transformado e conflituoso, chegamos no início deste novo milênio com as asas prontas para voos maiores, mas as penas que outrora foram coladas com cera e o sonho transformador de Ícaro, hoje são feitas às custas de ouro, madeira, água, petróleo, seladas com muita ambição e arrogância, e misturadas ao consumo inconsequente daqueles que nunca plantam sementes, mas colhem à exaustão os frutos desta terra e sufocam com veneno o ar que respiramos, sem a preocupação do amanhã. Como dizia um antigo provérbio grego, "uma sociedade só se torna admirável quando seus velhos começam a semear sementes cujas as sombras das árvores eles sabem que não vão descansar".
Nesta semana em que se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente, em que o tema da sustentabilidade está mais presente na agenda cotidiana das mídias, temos que lembrar que se pudéssemos resumir em uma frase a complexa interpretação do que é sustentável, poderíamos dizer que a sustentabilidade é a grande arte de semear boas sementes, pois as árvores e flores do futuro serão os frutos das sementes que plantamos hoje.
As sementes de hoje são as ideias, ações e atitudes capazes de transformar o mundo de forma mais responsável, mais limpa, mais ética, promovendo a gentileza, a sensibilidade e a coexistência da vida em todas as suas formas. As sementes de hoje devem buscar o desenvolvimento humano como engrenagem principal do crescimento econômico; devem investir numa produção agrícola eficiente e na geração de energias mais limpas e renováveis; devem melhorar as cidades e a qualidade de vida das pessoas, devem reciclar conceitos para que tenhamos um uso racional e consciente dos recursos naturais; devem promover a proteção e a conservação das florestas, das águas, da biodiversidade, devem assegurar sobre tudo o direito à evolução natural da vida.
As sementes do nosso futuro comum estão hoje em nossas mãos, que elas propaguem, germinem, frutifiquem e que continuem transformando e sustentando a nossa Terra por muitas e muitas gerações.
O autor é biólogo e ambientalista