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Meu avô é um X-Men, mas, infelizmente, depende do SUS

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Quando criança, era fissurado naqueles álbuns de figurinhas vendidos em botecos. Aqueles álbuns temáticos nos quais, se você tirasse a figurinha premiada, era agraciado com "grandiosos" brindes (eu nunca ganhei o maldito videogame!).
Foi aí que começou um mistério que permearia minha vida inteira. Meu avô sempre ia ao Bar do Zagato, na saudosa Pirajuí, comigo e com meus primos. Ele olhava diretamente para o pacotinho de figurinhas e dizia: "Escolhe este!". Era batata. Lá estava a figurinha premiada e eu levava para casa um liquidificador ou aquela bicicleta novinha (ambos inúteis para mim, uma vez que, acreditem, eu não sei me equilibrar sobre as temidas duas rodas até hoje... mas isso é assunto para outra crônica).
O fato é que, assim como nunca soube andar de bicicleta, nunca descobri como meu avô, o seo Vavá, fazia aquilo. Era paranormal? Era mágico? Era sorte? Era um mutante? Achava, na ocasião, que ele era meio X-Men com visão de raio-X. Teoria que ganhava força pelo fato de ele ter um "olho azul". Azul opaco. Azul opaco de quem perdeu uma vista no trabalho.
Não sei se aquele olho mágico, chamado pela família de "vista perdida", servia para que ele descobrisse o que havia no interior dos pacotinhos de figurinha. O que sei é que, atualmente, meu avô corre o risco de não enxergar nem dentro do pacotinho de cromos e nem o próprio pacotinho.
Acometido por uma doença no olho, o Vavá, assim como tantos e tantos brasileiros, não tem plano de saúde. Recentemente, ele precisou passar por um procedimento a laser (Laser? quer coisa mais de X-Men que isso?) para não correr o risco de perder a única vista que resta.
Se fosse pelo SUS, a informação é de que o tratamento viria em cerca de um ano. Não dava para esperar. A família resolveu fazer uma "vaquinha" e pagar pelo procedimento em uma clínica particular. O "um ano" de espera virou sete dias. A data está marcada já para esta próxima semana.
Integrante dos X-Men ou não, meu avô sempre pagou os seus impostos. Eu também (por sinal, ainda estou pagando o Selvagem Leão deste ano). E milhões de outros brasileiros também. Segundo dados do Impostômetro, já tínhamos pagado até ontem mais de R$ 874 bilhões de impostos somente neste ano. Algo em torno de R$ 62 mil por segundo. Você tem noção do que é isso? Enquanto leu o começo deste artigo até agora, alguns milhões (isso mesmo: milhões) de reais foram aos cofres públicos.
E já que estou falando da saúde, com o valor arrecadado de impostos neste ano no Brasil, seria possível comprar cerca de 11 milhões de ambulâncias equipadas ou construir mais de 3 milhões de postos também com todos os equipamentos.
Mesmo assim, para ter um direito (Em seu artigo 196, a Constituição prometeu que seria um direito de meu avô e de todos e um dever do Estado) dele e que já foi pago por ele, o seo Vavá teve que recorrer à ajuda familiar para custear uma rede privada. Assim como eu faço com meu plano de saúde. Assim como você faz pagando escola particular para seu filho. Assim como meu vizinho faz ao andar de carro porque o transporte público não é de qualidade. A conta não fecha.
Vou ficando por aqui, na torcida para que meu avô fique bem. Certamente, assim que ele se recuperar, vou pedir para enxergar, com seus poderes de X-Men, para onde vai toda essa dinheirama. Com certeza, ele dirá que é mais fácil achar aquela figurinha premiada. E bem mais fácil.

O autor é editor do JC, jornalista responsável
da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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