Cinthia Milanez |
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Israel Targino da Silva, anfitrião, conta que já passou fome e hoje faz de tudo para que 1,5 mil pessoas tenham a oportunidade de comer no seu sítio |
Sob o estouro do trabuco, a Irmandade de São João anuncia a chegada do Divino Espírito Santo à casa de Israel Targino da Silva e Teresa Pinto de Oliveira da Silva, no sítio Santo Antônio, em Conchas (150 quilômetros de Bauru). Uma celebração importada de Portugal e que já “criou raízes” no Centro-Oeste paulista toma conta de uma propriedade de pouco mais que cinco alqueires.
Muito já se ouviu falar da Festa do Divino Espírito Santo, que existe em diversos estados brasileiros. Cada local festeja de forma diferente, mas a região do Médio Tietê tem uma história singular. Em meados do século XIX, três irmãos saíram de Minas Gerais para ocupar terras no Centro-Oeste paulista, mais especificamente na cidade hoje chamada de Tietê. Na época, a área sofria com uma epidemia de febre amarela.
Como os irmãos tinham algum conhecimento na área de farmácia, utilizaram o rio Tietê para combater a maleita com ciência e fé no terceiro elemento da Santíssima Trindade, segundo o catolicismo. Deu certo. Para agradecer, o grupo jurou jamais dar fim às visitas e a tradição cresceu. Hoje, há três irmandades na região: a de Anhembi, a de São João, em Conchas, e a da capela de São Sebastião, em Laranjal Paulista.
No período católico de Pentecostes, celebrado durante 50 dias após o domingo de Páscoa, os grupos fazem visitas à população. Em troca, os anfitriões oferecem uma refeição, desde o café da manhã até o jantar, mais conhecido como pouso, já que os irmãos passam a noite em algumas residências. Tanto as refeições quanto as orações, cantadas em forma de cururu, não são restritas aos moradores, que recebem verdadeiras multidões. Tudo é de graça.
Este é o caso dos anfitriões Israel e Teresa, citados no início desta reportagem. Há oito anos, o casal conta com a ajuda da família e dos amigos para organizar a recepção da irmandade. “Meu sogro era devoto do Espírito Santo e sempre fazia o almoço. Por ele, segui a irmandade por cinco anos e, quando saí, decidi fazer o pouso”, narra Israel com os olhos marejados. Ele deixa tudo de lado para se dedicar à organização da celebração.
Emocionado, Israel sente falta da filha caçula, que também ajudava na preparação da cerimônia. Inclusive, a menina, que está nos Estados Unidos, fez aniversário no mesmo dia do último pouso. O anfitrião, que ganha a vida como pedreiro, encara a recepção da irmandade como uma missão. “Já passei fome e hoje faço de tudo para que 1,5 mil pessoas tenham a oportunidade de comer no meu sítio”, desabafa.
Bastidores
Durante o ano inteiro, os anfitriões trabalham pesado para receber a irmandade. Depois de agendar a visita no primeiro domingo de abril, eles começam a arrecadar os mantimentos para oferecer um jantar com receitas típicas da região ao grupo e à população, mas boa parte dos ingredientes é comprada pelo casal. “Já cheguei a demorar um ano para pagar um único pouso”, acrescenta Israel.
Embora o pouso tenha início assim que o sol se põe, a família já começa a se preparar ainda na madrugada anterior e o JC acompanhou passo a passo. Logo que a reportagem chegou, foi recebida com entusiasmo pelos anfitriões, que fizeram questão de apresentar cômodo por cômodo de uma casa simples feita de alvenaria. “Olha como a gente é importante, vai sair em jornal de cidade grande”, cochichou um dos amigos do casal, que ajudava a cozinhar.
Falando em comida, o cardápio era de lamber os beiços: salada, sopa de mandioca com costela, carne moída com batata, carne de porco frita, macarrão com frango, frango frito, arroz e feijão. Ah, o feijão. Este ingrediente em particular chamou a atenção, porque nem mamãe é capaz de preparar algo tão cheiroso e saboroso. “O Espírito Santo abençoa até a comida”, justifica Israel.
A lenha
No pasto, os anfitriões construíram uma cozinha improvisada, aquecida com lenha. Cerca de 30 pessoas, entre amigos e parentes do casal, colocaram as mãos na massa para proporcionar uma refeição caprichada aos visitantes. Para tanto, foram necessários 60 quilos de carne moída, 60 quilos de costela, 50 frangos, dois porcos, 20 quilos de macarrão, 60 quilos de arroz, 20 quilos de feijão, 100 quilos de mandioca e 120 pés de alface, sem contar os temperos.
Hora da 'ceia'
A mesa foi posta no quintal da casa e tinha capacidade para receber 300 pessoas por vez. Já os talheres foram doados pela comunidade. Depois do jantar, o trabalho dos voluntários esteve longe de chegar ao fim. Eles tiveram de lavar a louça para aguardar a próxima “leva de gente”. “É desgastante, mas a celebração já faz parte de nós”, declara a aposentada Maria Aparecida de Oliveira, a dona Maria, responsável por cozinhar o feijão.
Tradição já ‘cria raízes’ na região
José Gomes de Moraes é um homem de meia idade e com uma fala mansa “sô”. Desde criança, Moraes acompanha a Irmandade de São João, em Conchas, e não pensa em desistir enquanto tiver forças para suportar o desgaste das viagens. Por influência da família, o irmão decidiu dedicar boa parte da vida a uma tradição de quase dois séculos e com regras extremamente rígidas, que já “criou raízes” no Interior do Estado.
Na infância, Moraes passou por cinco cirurgias nos olhos, porque foi diagnosticado com “catarata de nascença”, como ele explica. Portanto, a tendência era de que o irmão perdesse a visão. “Fiz um pedido para o Divino, que ajudasse, que eu ficasse enxergando pelo menos um tico. Em troca, eu acompanharia a irmandade”, narra. Embora tenha de utilizar óculos para enxergar com clareza, Moraes não ficou cego.
Sobre as viagens, o veterano revela algumas dificuldades. “Já cheguei a dormir em ‘paió’ de milho”, pontua. No período católico de Pentecostes, os irmãos dão início a uma caminhada desgastante. De casa em casa, seja na área rural ou urbana, os integrantes do movimento levam a bênção do Espírito Santo aos moradores. Em troca, os anfitriões oferecem uma refeição, mas depois do jantar é que o “bicho pega”.
Após a última refeição do dia, os irmãos se aconchegam em algum canto da propriedade para descansar os olhos e seguir viagem antes do cantar do galo. Na Irmandade de São João, a rotina se repete por quase um mês, uma vez por ano. “Lá no bairro dos Poli, em Conchas, a gente dormiu embaixo de um caminhão e caiu uma chuva forte. Só vi a enxurrada correndo, mas desviou de onde a gente estava. O Espírito Santo ilumina a caminhada”, narra.
De ônibus
Ao contrário do que ocorre em Anhembi, onde os irmãos seguem uma parte das viagens de barco pelo rio Tietê e a outra, a pé, a Irmandade de São João utiliza um ônibus doado pela comunidade, porque o rio do Peixe, que passa pelo município, não é navegável. Neste ano, o movimento participa de 27 pousos, ou seja, viaja durante 27 dias, conforme explica o diretor da entidade, Nilvo Camalionte.
Na Irmandade de São João, há aproximadamente 40 homens, entre crianças, adultos e idosos. Não há mulheres por conta das dificuldades da caminhada e para não desviar a atenção do sexo oposto, segundo Camalionte. Do conforto de casa a um trajeto incerto, os irmãos sequer imaginam as condições que enfrentarão para dormir ou tomar banho. “Quando temos chance, damos prioridade àqueles que estão com um cheiro mais forte”, brinca o diretor.
Além disso, durante as viagens, nada de paquerar, namorar ou ingerir bebidas alcoólicas. Se um deles for flagrado conversando com uma moça, ele será deixado na propriedade e terá de se virar para voltar para casa. Já as crianças têm algumas regalias. Os pequenos comem mais cedo e, quando há possibilidade, os anfitriões concedem um quarto para que eles possam passar a noite. “Para os pequenos e os grandes, o Espírito Santo é nossa vida”, finaliza.
Promessas
Faça sol, frio ou chuva, a Irmandade de São João não deixa de cumprir a missão. Sob o estouro do trabuco, uma espécie de espingarda utilizada como meio de comunicação na época dos bandeirantes, o grupo anuncia a chegada. Para pagar promessas, alguns devotos se enrolam em lençóis, deitam no chão e os irmãos passam com a bênção do Espírito Santo, como era feito na época da epidemia de febre amarela. Depois do ritual, que começa na entrada da propriedade, povo e irmandade seguem em procissão até a casa.
Rituais
Na procissão, os irmãos carregam um mastro com uma bandeira em forma de pomba, um dos símbolos do Espírito Santo, que é enterrado na propriedade com o intuito de dizer que o terceiro elemento da Santíssima Trindade, segundo o catolicismo, passou por lá. Em comemoração, os anfitriões soltam rojões assim que o objeto é fincado na terra. Depois, sob o som do cururu, as orações duram mais de uma hora. Por fim, a refeição é servida.
‘Irmandade leva Deus até o povo’
Muito já se ouviu falar da Festa do Divino Espírito Santo, que existe em diversos estados brasileiros. Na região do Médio Tietê, contudo, a devoção histórica pelo terceiro elemento da Santíssima Trindade, segundo o catolicismo, se sobressai à recreação. Portanto, levar Deus até a casa do povo torna-se mais importante do que simplesmente homenageá-lo.
É o que garante o antropólogo cultural e autor do livro “Rio Tietê: estrada líquida do Divino Espírito Santo”, Luiz Nunes de Almeida. Para ele, a Festa do Divino teve início no final do século XIII, em Portugal, que era governado pela rainha Isabel, muito devota do catolicismo. Tanto que acreditava que o reinado era uma bênção do Espírito Santo.
Quando os portugueses vieram ao Brasil, trouxeram o costume na bagagem. De início, a festa teria sido incorporada pela Bahia, mas depois que o Rio de Janeiro tornou-se capital da colônia, a iniciativa passou por lá e se espalhou pelos quatro cantos do País. Até hoje, cada local festeja de forma diferente, mas a região do Médio Tietê tem uma história singular.
Em meados do século XIX, três irmãos saíram de Minas Gerais para ocupar terras no Centro-Oeste paulista, mais especificamente na cidade hoje chamada de Tietê. “Eles trouxeram o símbolo e a bandeira do Espírito Santo à província de São Paulo”, narra Almeida. Na época, a região do Médio Tietê sofria com uma epidemia de febre amarela.
Como os irmãos tinham algum conhecimento na área de farmácia, resolveram combater a maleita com as próprias mãos. Eles utilizaram o rio Tietê, denominado estrada líquida do Espírito Santo pelo antropólogo, para chegar até os vizinhos e atender os doentes, enterrar os mortos, além de levar um pouco de fé através de orações.
O trabalho filantrópico dos irmãos deu tão certo que a epidemia estagnou. Diante disso, eles decidiram parar com as viagens. Todavia, pouco tempo depois, mais especificamente no final do século XIX, a febre amarela voltou a atacar e a irmandade decidiu agir mais uma vez. Ao Espírito Santo, o grupo prometeu jamais dar fim às visitas.
Por coincidência, durante a República, Oswaldo Cruz desenvolveu uma vacina que combatia a maleita e a doença foi erradicada na região. “Os irmãos acreditam que foi um milagre”, conta Almeida. Para agradecer, surgiu a festa. Já nas demais localidades do País houve apenas uma incorporação, com acréscimo dos costumes regionais, dos festejos de Portugal.
Irmandades
O antropólogo Luiz Nunes de Almeida aponta que há três irmandades na região: a de Anhembi, a de São João, em Conchas, e a da capela de São Sebastião, em Laranjal Paulista. No período católico de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos de Cristo, os grupos fazem visitas à população. Em troca, uma refeição é servida, desde o café da manhã até o jantar, mais conhecido como pouso, porque os irmãos passam a noite em algumas casas.
Tanto as refeições quanto as orações, cantadas em forma de cururu, não são restritas aos moradores, que entram em contato com a irmandade mais próxima para agendar uma visita. “Os devotos convidam quem eles quiserem”, acrescenta o antropólogo. Inclusive, preparam receitas típicas do sertão para receber os grupos e a população. Tudo é de graça. Quanto ao futuro da iniciativa, Almeida acredita que ela perdurará enquanto houver fé.
Inspiração
Os rituais da Irmandade de São João estão tão consolidados em Conchas, que um grupo de jovens trouxe a tradição ao baile à fantasia do município há alguns anos. Na ocasião, os amigos utilizaram o uniforme da irmandade, uma camisa azul com listras vermelhas, e chegaram até a alugar um ônibus para passear pela praça principal da cidade. Tal iniciativa gerou polêmica, porque alguns conchenses consideraram uma afronta ao movimento.