Tive um sonho longo. Sonhei que consegui, não sei como, o celular de todos os operadores de telemarketing em atividade no Brasil. Assim que chegou o primeiro domingo, passei a ligar. Ligava e já ia perguntando: "Com quem estou falando?". Independentemente do nome respondido, era com a tal pessoa mesmo que eu queria falar. Falar, não. Desabafar. Descarregar.
E como eu desabafava: "Sei que vocês cumprem ordens, mas ligam demais!", dizia no sonho, com calma de CVV. Do outro lado, silêncio de tensa atenção. E eu seguia, resoluto: "Também sou um trabalhador, mas não fico ligando para a casa dos outros todo santo dia. Todo santo dia. Todo santo dia".
E eu continuava: "Parece que vocês têm um radar em cima da gente. Um satélite, um chip, sei lá. A gente entra em casa, toca o telefone. Por vezes, estamos naquela fase dramática do fim da produção do almoço, tudo em fogo borbulhando, e toca o telefone. Ou então: banho, e toca o telefone. E toca, e toca o telefone. Se não atendemos, fica a dúvida. Se atendemos, resta o estresse".
Do outro lado, ainda no sonho, a voz, enfim, ensaiava uma reação. "Entenda meu senhor que...". Entendemos, mas é difícil entender. Difícil entender. Ainda mais quando, na vida real, o contrário não se dá. Ou seja: somos bombardeados por telemarketing a semana inteira. E, quando precisamos acionar uma empresa por telefone em busca de algum direito a ser cumprido, ganhamos mensagem eletrônica e espera.
Voltando ao sonho, acabou assim: foram vários dias de "vingança". De ligações a operadores para mostrar que, sim, eu também sei ligar ? e azucrinar. Operadores e recuperadores, logicamente, são os menos culpados nessa história. Estão exercendo seu ofício em nome de um salário. Contratantes, sim, deveriam repensar suas estratégias invasivas. Porque a casa da gente não é casa de ninguém. E telefone é, por si só, algo um tanto quanto angustiante quando toca, toca e toca.
Ah, e quando pedimos para tirar nosso nome do cadastro é para tirar mesmo. Não para fingir que tira e continuar ligando, ligando e ligando. Inclusive no celular. Conheço quem passou os últimos 15 dias dizendo não ter interesse na banda larga oferecida. Mas sempre ligam de novo com a mesma oferta. A cliente pede para ter o nome/número retirado do cadastro. Mas ligam de novo, de novo e de novo. De minha parte, bem sei também que voltarei a ouvir: "Tenha um bom dia, senhor". Se não ligarem, terei.
O autor é editor executivo do JC