Com as novas tecnologias, profissões desaparecem da noite para o dia. Milhares de outras atividades são criadas. Comecei no jornalismo como revisor do jornal da minha cidade. A função foi extinta porque o próprio programa do computador já corrige os erros de ortografia e concordância gramatical. Toda vez que escrevo "o Lula" o computador corrige para "a Lula". "Sois homem, não sois máquina", advertia Carlitos no seu discurso de "Tempos Modernos". McLuhan alertava, nos anos 1960, para as mudanças que qualquer meio de comunicação pode provocar, quer seja de escala, cadência ou padrão nas coisas humanas. A internet possibilitou a democratização do conhecimento, tornando os usuários menos vulneráveis e criou cidadãos mais críticos e participantes. Com a internet nasceu o "jornalismo cidadão". Antes, só o jornalista opinava, ou noticiava. Hoje, qualquer um pode ser jornalista e produzir expressões do pensamento.
Semanas atrás houve uma carreata que parou o centro de São Paulo. Cerca de 400 taxistas protestavam contra o aplicativo mais onipresente e polêmico dos últimos tempos, chamado Uber. Uma empresa de tecnologia criou uma plataforma que conecta motoristas parceiros particulares a usuários que querem chegar ao seu destino de forma eficiente, rápida, pagando tarifas muito mais baixas que as praticadas pelos taxistas. Os carros são limpos, sempre de bancos de couro, os motoristas abrem a porta para o usuário, ajudam a carregar a mala e nunca se esquecem de dizer bom dia, obrigado, até logo. Além disso, você não toca em dinheiro. Seu cartão de crédito já foi cadastrado. O recibo e o mapa mostrando o valor do percurso vêm via e-mail e é perfeito para você controlar as suas despesas. Além disso, o freguês avalia o motorista, e vice-versa. Motoristas que recebem pontuação baixa mais de três vezes perdem a licença e, os maus passageiros também.
O Uber já é utilizado em 311 cidades em mais de 58 países, com 1 milhão de motoristas cadastrados. Eram taxistas na maioria, mas estavam cansados de pagar taxas de licença e serem mal remunerados com horários fixos. Agora, cada um é patrão de si e as jornadas, flexíveis. A previsão de crescimento é de 400% neste ano. A "coisa" está se espalhando para outros serviços sob demanda, seja limpeza de casa ou entrega de pizza. Nestes tempos bicudos, todos têm oportunidade de faturamento extra, ou como principal fonte de renda. O Uber não tem relação contratual com eles. É claro que as autoridades locais, quase sempre são as inimigas a derrotar. Nas comunidades onde o Uber foi introduzido, a geração de empregos foi tão grande que as leis do passado estão ficando para trás. Para diminuir o fator corporativo, o Google está testando o veículo sem motorista, guiado por informações computadorizadas sobre trânsito, itinerário, mapeados até os buracos de cada via pública. É o transporte do século 21, no tom messiânico dos criadores do Uber. Seria inacreditável se a propriedade mais valiosa de quase toda a humanidade fosse desperdiçada. Há quase 1 bilhão de carros no mundo que não são usados durante 96% do tempo. Se duas pessoas estão indo para o mesmo lugar, porque não dar acesso a mais passageiros, de um modo mais barato e usando menos carros? Segundo os cálculos do Uber, fica mais barato usar esse sistema do que ter um carro próprio. "Se forem somados estacionamento, manutenção, gasolina, seguro e o tempo gasto procurando onde deixar o carro, é muito mais barato confiar em nossos serviços" ? dizem os proprietários do aplicativo que já vale 50 bilhões de dólares. E eles já tem a concorrência do Lyft, o segundo do ranking, que acaba de receber uma alavancagem de 100 milhões de dólares junto a investidores americanos.
Um dos problemas do Uber é a segurança. Já houve várias denúncias de tentativa de estupro. Nada há que a tecnologia deixe de dar solução: os computadores não só acompanham a rota do motorista como, a qualquer momento, pode compartilhá-la com amigos e a família do passageiro.
As tecnologias são criadas para o bem ou para o mal. Dependendo das revoluções que produzem podem causar estragos, compensados com benefícios excepcionais. Elas fazem a diferença e precisamos estar preparados para nos desprender de velhos modelos defendidos por discursos corporativistas desgastados. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachussets afirmam que 60% das profissões e das marcas que conheceremos em 2020 ainda não existem. Acorde. Reinvente-se.
O autor é jornalista e articulista do JC