Articulistas

O grande arrastão

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

No paraíso chamado Brasil, diuturnamente se ouve falar sobre roubalheiras, escândalos e desvios de milhões, bilhões e trilhões, quantias que escapuliram pelos descaminhos das vergonhosas negociatas articuladas por quadrilheiros, diplomados e laureados com indecoroso medalhão da corrupção. Dinheiro jorrando para o Exterior, ostentação exibida por ignóbil minoria desqualificada, enquanto a miserabilidade induzida acampa nos lares de milhares de trabalhadores brasileiros. Há décadas se ouvia falar em inversão de valores para explicar as injustiças sociais, hoje pode-se declarar, sem medo de errar, que o Brasil sofreu um dantesco, vergonhoso e imperdoável arrastão! Um arrastão onde os meliantes envergam terno de grife, gravata italiana, indumentária que valem mais que o orçamento mensal da classe média.
Quando se opta por assistir uma reunião no Congresso Nacional, onde deveria ser decidido o destino da nação, uma sensação de vergonha tinge de carmim a face dos cidadãos de bem, pois a película é descaradamente reprisada, desde o ruído das falas, que se confundem com o burburinho da plateia, onde ninguém presta atenção no orador, até às educadíssimas excelências que sorridentes deambulam alinhavando corredores a tergiversar sobre coisas prosaicas, ignoram o colega que no parlatório discursa para as moscas.
Oportuno indagar: para que serve o uso da palavra? Para que um local público, requintado e oneroso, resta funcionando apesar dos custos exorbitantes, onde um cafezinho escandalosamente vale mais que uma cesta básica? Para que desperdiçar energia, papelada, mão de obra ultrajante, tudo pago pela população laboriosa? Na verdade, o que temos, sem sombra de dúvidas, nada mais é que um requintado circo de pantomimas onde o povo brasileiro, míseros marionetes, vive a saltitar de acordo com a música tocada pelas excelências!
E enquanto a Pátria afunda no lamaçal da imoralidade, surge o infame milagre do arrocho a conclamar o povo: apertem os cintos, brasileiros! Paguem a dívida gerada pelo arrastão! Necessário se faz cortar gastos supérfluos! Vamos cerrar as portas dos hospitais e das escolas! Urge sacrificar os idosos com suas polpudas aposentadorias e exterminar os professores! Afinal, para que serve a educação? Para que serve a saúde? E os idosos, servem para quê?
Oportuno questionar: por onde anda o dinheiro surrupiado? Em que algibeira resta enfurnado? Criminosos serão punidos? Porém, o silêncio do pecado da omissão, contumaz, cala a nação!

A autora é escritora, pedagoga, psicopedagoga e advogada. Autora de Trama e Urdidura.
valdemello@gmail.com

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