A cultura caipira pode ser perpetuada através de vários segmentos. A música é um deles. Em Botucatu e Pardinho o regente das duas orquestras de violeiros é nada mais nada menos que João Tavares ou Mestre Tavares. Em Torrinha (90 quilômetros), a Associação Amigos de Torrinha mantém um trabalho de fabricação e ensino da viola. Na cidade de Itapuí, a Orquestra de Viola tem sede e está em seu terceiro CD.
A viola caipira é um instrumento musical, pelo que se sabe, criado no Brasil. Sua origem é portuguesa, foi trazida pelos colonizadores e modificada pelos colonos que fizeram o instrumento musical a partir de madeira da terra. Atualmente ela usa corda de aço, mas a corda já foi confeccionadas com tripa de animais, comenta o instrutor e fabricante de violas Wilson César Hubener, de Torrinha.
Segundo ele, a diferença da viola para o violão está na estrutura do instrumento musical e em seu som. “O violão tem som mais suave enquanto a viola tem som mais agudo, estridente. Tocar viola, pelo que se nota, é uma paixão que exige uma ‘farda’ para completar o cenário. As orquestras têm uniforme diferenciado, formado por chapéu, botina, calça jeans e camisa”.
A vice-presidente da Associação dos Amigos de Torrinha, Maria Lúcia Baltieri, uma entusiasta da causa, há cinco anos fez um projeto para resgatar a tradição caipira no município de Torrinha. O trabalho foi contemplado pelo Ministério da Cultura e a cidade ganhou um ponto de cultura focado na fabricação e formação de orquestra de viola caipira.
O recurso proporcionou a implantação do projeto que já ensinou 60 alunos a fabricar suas próprias violas. Um dos alunos da primeira turma, Wilson Hubener, é hoje o instrutor. Ele que era marceneiro fabrica violas e ensina a terceira turma a fazer o mesmo. “Eu aprendi com João Mira.”
O projeto, segundo a vice-presidente, visa a difusão da cultura local. “É de fundamental importância que seja contemplada a diversidade. Dessa forma, por meio dele, promove-se a socialização e troca de vivências entre os participantes. Na manutenção na Luthieria e na escola de viola, alunos passam pela escola, aprendem e depois vão para a orquestra. O curso de fabricação (luthieria) tem duração de 10 meses.”
A orquestra de viola de Itapuí é uma das pioneiras da região. Começou pequena e hoje tem 22 alunos. O grupo faz shows em toda a região e construiu sua sede em terreno doado pela prefeitura da cidade. O maestro Gilson Sebastião é quem comanda o grupo. Ele também é regente da orquestra de Mineiros do Tietê e de Dourado, região de São Carlos que está sendo implantada.
Em Botucatu, o ex-administrador de empresas fabrica violas e violões em sua oficina nos fundos de sua casa. Ele é um autodidata apaixonado por violas. Foi aprender a tocar o instrumento e movido pela paixão resolveu fabricar a sua própria viola.
Madeiras diferenciadas
Para trazer um diferencial em relação aos instrumentos fabricados por marcas famosas, o artesão procura madeiras raras. “Tenho fornecedores em Americana e Minas. Trabalho com Jacarandá da Bahia que ainda acho em madeira de demolição, marcenarias que fecharam ou de pessoas que compraram na época,” diz João Paulo Omodei.
As violas mais baratas são confeccionadas em marfim e Jacarandá Paulista. As mais caras são feitas com Jacarandá da Bahia, abeto - que é uma madeira alemã. O ébano, madeira africana que compro de importadores ou mogno que é brasileira.”
A qualidade do instrumento é primordial para definição do som que se quer. “Faço um a um com a regulagem que eu acho que é boa, com timbre bem definido. A qualidade de acabamento de madeira faz a diferença, os instrumentos vendidos em lojas não são de madeira maciça. A maioria é de laminado ou compensado. A viola caipira com 10 cordas é a mais vendida. Tenho bastante violão clássico vendido para alunos do Conservatório de Tatuí e para adoradores de instrumentos,” diz Omodei
Sala climatizada
A oficina do luthier, após sete anos, está completa. “Fui comprando com o tempo e necessidade. Hoje, a oficina está completa. Fiz uma sala climatizada para estabilizar a madeira antes de começar a trabalhar com ela, a fim de que não ocorra futuros problemas, trincas e umidade.”