Economia & Negócios

Modelo testado dá mais segurança

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Em economia, o cenário desfavorável pode ser justamente a explicação para os bons ares em determinado setor. É o que pensa o economista e consultor Adriano Fabri a respeito dos bons resultados no segmento de franquias.

“Esse crescimento acima do que apresenta a economia tem explicação, em parte no próprio cenário difícil”, lança. Ou seja, uma alternativa para quem precisa achar espaço e se organizar e não tem bagagem comercial é montar algo a partir do que já está experimentado, testado.

“A franquia nesse caso é um caminho porque você compra algo formatado. É uma questão de avaliar outras questões, mas uma alternativa que se apresenta a partir de negócio que já funciona, o que é uma diferença a ser levada em conta na hora de investir”, pondera.

Outra explicação para o bom desempenho do franchising, cita Adriano Fabri, é que, neste ramo, não é possível sentar à sombra e esperar os dividendos. “Para franquear, você necessariamente tem de atuar forte no negócio e na gestão administrativa. Não é um negócio para quem quer investir e esperar resultados contratando gestão de terceiros”, acrescenta.

Outro ponto é que uma franquia, por natureza singular, vem com o plano de negócios montado a partir de padronização já concebida. “Você não tem de ficar testando. Tem de avaliar a escolha, mas, uma vez tendo feito boa escolha, o negócio já vem ajustado, testado, inclusive com procedimentos para serem cumpridos em matéria até de imagem e propaganda. E isso para um mercado que ainda tem muito amador é um grande diferencial”, elabora.

O economista lembra que “é lógico que tem aventureiro em tudo, mas o modelo pronto ajuda no sucesso. E como o dono da franquia também não pode poder sua imagem em risco, ele também tem de se preocupar em avaliar perfil ideal para o investidor em sua marca ou produto”, concebe Fabri.       


 

Empregos

Quanto à geração de empregos diretos, o estudo da ABF aponta que o sistema de franquias aumentou em 6,5% os postos de trabalho gerados, passando de 1.029.681 para 1.096.859, em 2014.

“O franchising é berço do primeiro emprego e celeiro de empreendedorismo, oferecendo ao investidor chances de resultados potencializados pela própria natureza do negócio em rede, testado, com padrões pré-definidos, ganho em escala, treinamento e marcas consolidadas”, afirma Ricardo Camargo, diretor executivo da entidade.

Em termos comparativos, do total de 396.993 empregos formais criados no Brasil em 2014 (segundo o Ministério do Trabalho), o franchising respondeu por 67.178 deles – o equivalente a 16,9% dos empregados registrados no período, enquanto a indústria reduziu as contratações em 3,2%, de acordo com a Pesquisa Industrial Mensal de Empregos e Salários do IBGE.

“A trajetória ascendente do faturamento do setor é uma demonstração clara do virtuoso ciclo de desenvolvimento do sistema de franquias brasileiro, amadurecido - regulamentado pela Lei do Franchising, 8.955/94 - que acaba de completar vinte anos”, avalia a presidente da ABF, Cristina Franco.


Prosperou na dificuldade

1995 foi um ano difícil. Ainda sob a síndrome da inflação a galope, os empresários do País administravam a compreensão de mais um plano econômico. Sob a pressão do fracasso das medidas governamentais anteriores, Emerson Ortolan decidiu empreender.

Ao invés das incertezas, decidiu arriscar na oportunidade da crise. “A concorrência no ramo de alimentação trabalhava muito no informal. Ninguém emitia nota fiscal, ninguém tinha estacionamento para você comer um lanche com a família e muito menos um ambiente com layout e climatização. O pioneirismo foi importantíssimo para a marca”, lembra o “homem do McDonald’s” em Bauru.

Para não deixar de elencar “algo bom” daquele período duro, o Plano Real veio, aos poucos, ganhando a confiança do brasileiro. “E, naquela época, havia pouquíssima oferta de emprego. Eu abri a seleção e uma fila quilométrica se formou na Nações Unidas. Nunca mais esqueço essa imagem. Na época, o jovem de 14 anos podia ser contratado. Hoje, só com 16 anos, e ainda assim com uma série de limitações”, recorda Ortolan.

Na correria em razão da inauguração da quinta loja da marca em Bauru, Ortolan vai ao ponto: “rentabilidade, plano de negócios, tudo isso conta. Mas, se o investidor não tiver paixão, dedicação ao negócio, ele terá dificuldades”.

Sobre a crise econômica deste momento, ele rebate: “Tem de ficar atento, claro. Mas hoje vejo que, apesar dos erros do governo, o mercado brasileiro amadureceu, como eu. Então, vejo crise como perspectiva. Quem fez a lição de casa e soube navegar no mar de brigadeiro não sofre tanto. Em 2002, fiquei em pânico, estava menos maduro e a explosão do câmbio (real-dólar) rendeu algumas insônias”, relembra.

Da loja novinha em plena zona sul, no “point” da baixada da Getúlio Vargas, uma curiosidade para mostrar o faro para o negócio: “batalhei uns seis meses para convencer a direção do McDonald’s de que o melhor ponto não era a área da Praça Portugal. Fui teimoso. Chamei meu pessoal e montamos gráficos de contagem de tráfego no final da Getúlio, com demonstrativo de fluxos e contrafluxos para condomínios e outras regiões, como a saída para a Rondon. E, enfim, eles aceitaram o novo local como ponto. Ufa”, finaliza Ortolan.


Cinco questões que devem ficar claras

Para o consultor em franquias Jorge Fernando Rosa Elias, a decisão por investir em uma franquia deve ser respondida com pelo menos cinco pontos fundamentais.

“O interessado deve se autoconhecer, saber escolher o ponto comercial, conhecer o mercado de sua área, dominar as regras do negócio e ter tempo para dedicação à franquia”, resume.

Sem essas questões detalhadas, Jorge acredita que a chance de algo não ir bem aumenta. “Investimento é risco. Mas, se o empreendedor eliminar as questões essenciais, fundamentais, entra no negócio com muito mais segurança. Não se começa negócio nenhum com desconhecimento. Isso é regra para tudo”, lembra.

Para ele, os casos que não deram certo reúnem, quase sempre, desconhecimento e amadorismo. “Escolha do ponto é algo fundamental e não é de ‘olhometro’. Envolve ciência de análise de mercado. Da mesma forma, o cara é um sucesso fazendo pizza e acha que, por ser boa praça, falador e engraçado, vai ganhar ‘rios de dinheiro’ abrindo uma loja sua. Não é assim. Franquia é padrão de atendimento do imobiliário até o atendente. E é preciso conhecer todas as características do negócio, as regras, obrigações”, opina.

São muitas as “desinformações” que podem afetar o negócio. “A ideia de custo e investimento para a franquia depende do tipo de negócio. Tem espaço para franquias baratas e muita gente não vê isso. Boa parte acha que franquia é investimento alto. Engano”, adverte.

Jorge Fernando acrescenta: “o sucesso em uma cidade de determinado serviço ou produto não significa sucesso em outro mercado, outra cultura. Um sanduíche que vai muito bem em Bauru pode não ir bem no Litoral ou na Capital. Na área de alimentação, os hábitos de cada comunidade valem muito. E isso significa avaliar tudo do ponto de vista daquele mercado, as características de cada local”, amplia.  


Cresceu?

Em 2014, o segmento que mais cresceu sobre ele mesmo foi o de comunicação, informática e eletrônicos, com faturamento 27% maior do que em 2013. O aumento do número de empresas prestadoras de serviço e agências digitais, além da crescente venda de smartphones, computadores e aparelhos de TV favoreceram a expansão desse mercado. O estudo da ABF é liderado por negócios, serviços e outros Varejos, que responde por 21% de participação. Nesse segmento estão agrupadas várias atividades de negócio distintas, o que justifica essa participação no desempenho geral.

Já, sozinho, o segmento de Aaimentação é responsável por 20,1% do faturamento do franchising nacional, ocupando o 2.º lugar. O 3.º segmento mais representativo é o de Esportes, Saúde, Beleza e Lazer, com 18,3%.

 

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