Falando sério, meu caro Roberto Carlos, nesta altura da gloriosa carreira, já septuagenário, é bem melhor você parar com essas coisas. Nunca vi alguém tão incapaz de compreender. Deu no que deu. O Supremo derrubou a censura prévia de biografias. Declarou inconstitucional a interpretação dos artigos do Código Civil, que diziam proibir a divulgação de obras biográficas sem autorização prévia do biografado ou dos seus herdeiros. Alguém classificou de "histórica" essa decisão em favor da liberdade de expressão, da criação de espírito, da informação e da própria democracia. Histórico, "data vênia" não é o reconhecimento dos ministros do STF, porque esses princípios já estavam na primeira Constituição da República, de 1891, assinada por Deodoro, Ruy Barbosa, Benjamin Constant e outros. "Em qualquer assunto, é livre a manifestação do pensamento (...) sem dependência de censura, respondendo cada um pelos abusos que cometer (art. 72)". Antes disso, o imperador Pedro II já admitia o animus de crítica e do direito de narrar. Nunca mandou prender ninguém por chamá-lo de "Pedro Banana". A surpresa é que desde 2012 venha se discutindo a validade jurídica de cláusulas pétreas, 26 anos após a ratificação promulgada na atual Constituição.
E você, Chico Buarque de Holanda, aonde vai se esconder da enorme euforia? E como vai proibir quando o galo insistir em cantar? Foi difícil para a sociedade brasileira, que viu vários dos seus ídolos serem vítimas da censura em tempo de ditadura, assisti-los a se manifestarem em favor da autorização prévia para terem vida, obra e intimidades expostas, como figuras públicas que são. Gilberto Gil, Caetano, Djavan... Roberto Carlos agora vai ter que aguentar a sua biografia "Em detalhes", do escritor e historiador baiano Paulo César Araujo, pivô de toda a polêmica. Em breve será ampliada e atualizada. O cantor vai ter a oportunidade de se conhecer: "Esse cara sou eu?" Ganha interrogação. Que Roberto usa uma perna mecânica todo mundo já sabe e nem deveria ter sido o motivo para interditar a obra nos tribunais. Também não quero saber se ele teve um caso com a Maysa ou se transou com a Zezé Macedo, com ou sem a prótese. O importante é conhecer até onde foi a parceria com Erasmo Carlos, e quem teve mais participação nas composições geniais, e nas baladinhas medíocres. Quem sabe os fãs, mais uma vez, perdoem o Roberto Carlos sempre apolítico e que nunca quis se comprometer com causas públicas. Mais ainda por abraçar a censura prévia aos 70 anos. Os méritos da sua derrota têm que ser conhecidos e purgados, na próxima biografia. Vai vender mais que pipoca no cinema.
Quero ler, também, biografias de José Maria Marin. De como ele incitou a perseguição do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, que levou a sua morte por "suicídio", nos porões da ditadura. Quero saber como, de jogador de futebol medíocre, conseguiu comprar apartamento em Nova York de US$ 8 milhões. "Pedro Barusco: o laranja" ? belo título para explicar como acumulou fortuna de US$ 97 milhões. Gerente de terceiro escalão na Petrobras, ele já vinha atuando avulso, desde o tempo do PSDB. Há muito a ser contado e o Brasil precisa saber.
Vários autores de biografias célebres, como o jornalista Fernando Morais, autor de Olga, Chatô e O Mago (Paulo Coelho), ou Lira Neto, com sua recente biografia de Getúlio Vargas, aplaudem a decisão unânime. O "óbvio ululante", como dizia Nelson Rodrigues, biografado por Ruy Castro. Advertia o Anjo Pornográfico que "o Brasil precisa de um banho de obviedade". As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender (Paulinho da Viola). Ruy Casto teve que pagar às filhas de Garrincha para que Estrela Solitária fosse liberada, depois de retirada das estantes da livraria por mandado judicial. Agora, teremos o direito de ler Perfis do Rio, de Paulo Pozonoff sobre o poeta Manuel Bandeira, igualmente recolhido por que um sobrinho-neto quer dinheiro. E, para quem ainda não garantiu o seu exemplar, em breve deverá sair a quarta edição da biografia do poeta Paulo Leminski feita por Toninho Vaz, cuja impressão tinha sido suspensa. A lista, na verdade, não tem fim. Vivemos muitos anos sob o obscurantismo. As luzes se reacendem. E digo sim, e digo não ao não. É proibido proibir.
O autor é jornalista e articulista do JC