No mês passado, li um artigo interessante de Sérgio Augusto, no Estadão, onde ele sondava vários escritores, a fim de saber em que romance, conto ou poesia eles gostariam de entrar. A resposta implicou sempre uma viagem no tempo e a espaços fora do nosso alcance. Adormeci sobre minhas reflexões e, aproveitando a ideia do articulista, comecei a peneirar as obras que me causaram impressões vívidas e provocativas. E foram tantas! Autores estrangeiros vieram-me à mente misturados com nacionais e foi uma dificuldade segurar a imaginação --- essa "louca da casa" --- para que eu não me perdesse nesse labirinto de personagens e enredos. Como escreveu Sérgio Augusto, há dois tipos de invasores literários. Um acompanha tudo de perto, mas como um fantasma, não interfere em nada --- é o passivo. Outro incorpora um protagonista ou inventa um mais ousado capaz de interferir no curso dos acontecimentos. Foi assim que entrei em muitas obras, ora como invisível, passiva, ora como atrevida, atiçando os personagens.
À medida que as leituras iam povoando minha mente, sem considerar a ordem de importância, pois todas foram significativas e marcantes, vi-me entrando em Otelo, de Shakespeare, e dizendo ao mouro ciumento que Iago estava fazendo uma maldade diabólica com ele: o lencinho no quarto de Cássio tinha sido plantado lá e, portanto, Desdêmona era inocente. Pronto, transformei a tragédia num drama e salvei a mocinha e o mocinho de mortes cruéis! Depois, voltei-me para Virginia Woolf e uma enxurrada de obras pedia licença para entrar na roda. Quem chegou primeiro, empurrando as outras, foi Orlando e, então, lembrei-me do artigo de Sérgio Augusto ao contar que Inês Pedrosa, escritora portuguesa, gostaria de experimentar ser o imortal ambissexual de Virginia Woolf. Não seria má ideia, só para ver como é a cabeça de um cara como Orlando, nestes tempos em que os direitos humanos esbravejam em defesa de predileções sexuais não convencionais. Atrás dele veio outro personagem tão complicado ou talvez mais: O homem duplicado de Saramago. Que absurdo! Por que tanto interesse por personagens de imensa complexidade? Por que a gente sente tanta atração por tipos que fogem da padronização? Fato é que me apaixonei por esses dois tipos exóticos, mas não interferi em nada, só olhei até cansar.
Veio-me à memória Machado de Assis com seus protagonistas mais serenos. Se me decidisse por ele, pularia para dentro das páginas de Dom Casmurro e tiraria a paciência de Capitu, até ela me contar quem era o verdadeiro pai de Ezequiel: Bentinho ou Escobar? Iria arreliar tanto, mas tanto, com ela que, sem dúvida, acabaria tomando um pé no traseiro. E já que essa interferência teria irritado Capitu, ficaria satisfeita se pudesse perambular pelo bar do Nacib só para observar o jeito puro, descontraído, livre e descompromissado de Gabriela, personagem sedutora de Jorge Amado em Gabriela, cravo e canela. Mas, juro que não me intrometeria. Só queria mesmo era observar a leveza, a ingenuidade e a inocência de Gabriela. Outro autor que não passaria em branco seria Proust. Também aqui me imiscuiria como uma invasora passiva. Esconder-me-ia atrás de algum frequentador dos salões da duquesa de Guermantes e, invisível, só analisaria. Deus me livre ser percebida pelo olhar perigoso de Proust! Poderia cair em desgraça e aí, então, adeus ao sossego. Ficaria contente só em prospectar as reuniões comandadas pela duquesa. Anotaria detalhes pitorescos, mais interessantes sem dúvida que os ocorridos nas festas de madame Verdurin. Mudemos de assunto. Há duas figuras que saíram das páginas de O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez, e tornaram-se tão reais como todos esses protagonistas citados: Florentino Ariza e Firmina Dasa. Ah! Amaria cumprimentá-los por esse amor tão bonito, que venceu obstáculos e floresceu numa fase de maturidade, porém, com todos os encantos e leveza da juventude... Ah! se a juventude soubesse!
Meu tempo está acabando e nem falei sobre O triste fim de Policarpo Quaresma. Lima Barreto foi genial ao promover o embate entre a utopia e a realidade, que acaba levando o pobre Policarpo a um trágico fim. Nesse livro eu arrombaria a porta, esbaforida, e faria um salseiro. Ah! se faria... Diria ao personagem para deixar de ser tolo, que de nada adiantaria maltratar-se querendo consertar o que não tem conserto; que melhor seria ele ir plantar batata, cenoura, couve que se deixar ridicularizar por todo mundo em nome da política nauseabunda e inclemente. Terminaria o romance transformando Policarpo num cara menos ingênuo e de olhos mais abertos para a realidade, nem que tivesse de forçar Lima Barreto a mudar o título do livro.
Perdão! Falei demais e deixei obras espetaculares de fora... Não há mais espaço. Arrancaram-me a página seguinte.
A autora é professora aposentada da Unesp, pedagoga e advogada