Nos últimos dois meses a população vem digerindo "um cardápio indigesto", ao receber as notícias do dia-a-dia. Desemprego ascendente, fábricas parando ou reduzindo a produção, inadimplência acentuando-se, volatilidade cambial, aumento brutal de tarifas públicas e impostos, violência crescente, taxas de juros elevando-se, desentendimentos entre os integrantes da Câmara e do Senado, corrupção em larga escala etc. Enfim, desalento de maneira geral. Todos esses acontecimentos elencados, aliados à perseguição implacável aos corruptos, têm uma nuance altamente positiva, pois não há como fazer um saneamento duradoura das finanças públicas sem ao mesmo tempo combater os deslizes morais. Felizmente para uns e infelizmente para outros, o Brasil precisava passar por esse processo purgatório, e foi muito bom que tenha ocorrido em meio a uma das mais graves crises econômicas que o país já passou. Crise que poderia ter sido evitada se nossas autoridades federais não fossem ferrenhas adeptas da chamada "administração por susto", modalidade amplamente praticada por alguns "gestores públicos" e que consiste descaradamente em ir fingindo resolver os problemas atuais que emergem a todo momento e "esquecendo-se" dos pretéritos, ficando os mesmos sempre insolúveis. Incapacidade total de planejar!
Infelizmente, muitos brasileiros ainda não perceberam o imenso potencial de nosso país, não temos tufões, vulcões, maremotos, terremotos, diferenças linguísticas, lutas étnicas, invernos rigorosos, descontinuidade territorial e guerras com países vizinhos. A natureza deu tudo a esse país, porém, falta o principal para rentabilizar tudo isso: políticos de alta estirpe moral e intelectual, bem como uma visão privilegiada do que ocorre aqui e ao redor do mundo. Pessoas com vivência internacional de alto nível e com vocação para "globe trotters", no sentido de, através de um Plano de Desenvolvimento Econômico consistente e convincente, divulgar o nosso país, já que, fora os assuntos relativos a futebol e turismo, continuamos ilustres desconhecidos no estrangeiro. O que temos são governantes incultos, de mente provinciana, que só sabem ir ao exterior para fazer turismo e compras, e nunca para estudar, analisar e trazer subsídios visando melhorar o ambiente político-econômico e social doméstico. Porém, há muitos governantes estrangeiros observando o que se passa no mundo, visando auferir vantagens.
Entre muitos outros países, a China é a que melhor vem aproveitando os momentos de instabilidade econômica mundial, e vai, num movimento rápido e silencioso, "recolonizando" regiões que padecem de permanentes problemas de gestão política e econômica, como ocorre principalmente no Brasil, Argentina, Equador, Venezuela, Bolívia, Cuba e praticamente em todo o território africano, trazendo para esses países grande contingente de mão-de-obra qualificada e montantes expressivos de divisas conversíveis. Vão assumindo posições de destaque nos setores têxtil, petrolífero e derivados, máquinas, mineral, agrícola, automobilístico, portos, construção naval, construção civil pesada, navegação, bancário e recentemente na fabricação de aeronaves comerciais de grande porte.
O atual governo chinês segue à risca o mandamento de Deng Xiaoping: "Esconda sua capacidade, espere a oportunidade". Também o economista Martin Jacques, professor e pesquisador da London School of Economics, no celebrado livro de sua autoria "Quando a China Mandar no Mundo", Ed.Temas e Debates, 2012 (Lisboa), 821 págs, nesse aspecto afirma que: "...O tempo não tornará a China mais ocidental; tornará o Ocidente, e o mundo, mais chineses."
Infelizmente, o Brasil não percebeu esse processo a tempo de reagir. Somos sempre retardatários. Não poderia deixar se ser lembrado que o governo chinês, há muitos anos, financia para seus estudantes, 60% das vagas disponíveis em diversos cursos na Universidade de Harvard e MIT, visando torná-los profissionais globais. O pouco caso que os brasileiros fazem das vantagens do Brasil só aguça o apetite de povos estrangeiros mais bem preparados que nós. Que nas próximas eleições possamos expurgar da vida pública os governantes que emporcalham a imagem do país.
O autor é economista