Cá com “nossos botões”, quem já não teve um ataque de fúria, braveza, destemperou, desceu do salto? Agora respire, relaxe e, passado o “bafão”, reflita: você já pensou que essas reações podem ter sido mobilizadas por feridas psicológicas? Ok! Então, continue refletindo: e se essas “feridas” forem crenças ou conteúdos que conduziram a interpretações distorcidas sobre o fato? Calma, não julgue, não cometa esse erro. Esta é apenas uma reflexão! Vamos falar da origem de nossos botões vermelhos?
Pois então, pra começar pense, ante de tudo: o problema não é o fato, mas a forma como você o apropria pelo pensamento. Dito isto, você é convidado para uma releitura sobre as reais motivações sobre aquele dia de destempero, gritaria, ofensa e agressão que você protagonizou.
E aqui está uma questão essencial: se colocar no lugar do outro. A tarefa é possível, mas a tornamos, por vezes, inatingível. Por quê? Porque temos o hábito – sem perceber – de julgar, catastrofizar, generalizar, rotular, processar o pensamento sob o ponto de vista de que o mundo funciona como nós acreditamos... etc!
No ato do acontecimento, no instante simultâneo à ação, no momento da recepção do fato ou de reação ao outro, saímos praticando - às escancaras - um dos chamados “erros cognitivos” (veja quadro). E eles são muito comuns. Mas como quase nunca pensamos neles, não “treinamos” nosso cérebro, e por consequência o pensamento, a raciocinar sobre esses erros.
O desafio segundo um dos principais estudiosos sobre o tema, Aron Back, é o “controle do pensamento”. Mas, acredite, é possível sim fazer diagnóstico sobre os padrões de seus comportamentos, identificar questões que estão arraigadas em seu histórico, mapear disfunções cognitivas, exercitar “dribles” ou formas de evitar ou contornar reações inadequadas (metacognição) e, enfim, obter reações ou respostas mais confortáveis ou plausíveis, emocionalmente.
Assim, os “botões vermelhos” são, em essência, conteúdos ou crenças pessoais desadaptativas. São como feridas psicológicas que uma vez ativadas conduzem a interpretações distorcidas e mobilizam fortes emoções. Os botões vermelhos, os sinais de alerta, o “curto-circuito emocional”... eles existem, em maior ou menor dose, em cada indivíduo.
Malavolta Jr. |
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Arnaldo Vicente diz que quem está sob ativação do botão vermelho tem dificuldade em enxergar possibilidades menos dramáticas aos conflitos |
O bom disso tudo, muito mais do que reconhecê-los, é saber que eles podem ser tratados. Do ponto de vista emocional, a terapia cognitivo-comportamental é uma das ferramentas a serviço de cicatrizar essas feridas e, com isso, redimensionar a vida e os comportamentos, o que significa evitar grandes sofrimentos. Portanto, os especialistas ouvidos a seguir enfatizam, não sofra, não se vitimize, não julgue e não se culpe. Busque ajuda! Somos seres humanos e, como tal, imperfeitos.
Atenção à ‘bomba atômica’ mental
Nas relações sociais de comportamento os “botões vermelhos” têm a função de fazer alarde, criar um alarme para que a pessoa possa reagir de forma diferente. Aplicados à terapia, eles estão diretamente ligados às ‘cognições’, que são desenvolvidas durante a vida do indivíduo. Elas, quando aplicadas ao temperamento de cada um, ao modo inato de cada um de reagir, podem se transformar em uma grande bomba atômica.
Nessa relação, a influência do meio é zero. “Ela seria zero no sentido de que você precisa perceber o meio para dar significado a esse meio. Então, nós trabalhamos com o meio no sentido cognitivo, o meio que nós criamos. E muitas vezes esse meio faz parte de uma imaginação, criado pelas experiências ao longo de nossa vida e isso pode ser totalmente diferente do que realmente seja o contexto do meio naquele momento”, diz o terapeuta Arnaldo Vicente.
Para reflexão, o animal também tem temperamento. Mas ele não tem capacidade de raciocínio. Para entender como se “processa o botão” em nossa cabeça é preciso entender a cognição. “O temperamento vai se oferecer a cada um diante dos significados que cada um dá a ele na vida. Se você dá um significado que você está diante de um perigo e tem um temperamento forte, você não vai de imediato pensar em perigo leve ou moderado ou mínimo. Pelo temperamento forte, o que vai se oferecer pra você é de que aquele perigo é o máximo possível. E, por isso, sua reação, o comportamento de enfrentamento, também tenderá a ser forte, de destruição ou de fugir rapidamente”, explica o psicólogo.
Mas não estamos fadados a repetir essas inadequações. Podemos “reformatar o HD mental”, segundo Vicente. “Cada um tem a forma inata de ser e ela vai ser sua resposta daquilo que você recebe do meio ambiente. Na medida em que você vai oferecendo essa resposta, vai observando os resultados que você tem. Se os resultados são bons, saudáveis, você vai ter um temperamento melhor modulado, mesmo o mais bravo. Ou seja, a reunião de fatores é que vai dar destino à forma de reagir e perceber se está na hora de modular, de uma forma racional, ou se simplesmente ela vai achar que está sendo destruída e vai quebrar tudo”, comenta.
Quem está, portanto, sob a ativação do “botão vermelho” tem maior dificuldade em enxergar possibilidades menos dramáticas ou de ruína para os conflitos do dia a dia, no trabalho, em casa ou no lazer. “Ela tem maior dificuldade porque, principalmente, o nível de percepção, de capacidade metacognitiva – que é nossa capacidade de nosso pensamento, ou ação, ser modificado para alcançar as metas – é muito baixo e, então, essa pessoa vai reagir de forma mais drástica ou mais automática”, elabora.
Um exemplo. Se o indivíduo está em um ambiente mais hostil, como o sistema carcerário, ele vai ser “treinado” a construir botões vermelhos que vão trazer muito mais males à sociedade. “Assim, em um ambiente onde a família é desestruturada – no sentido de serem pessoas que veem a vida de uma forma muito amarga ou agressiva – isso pode se transformar em atitudes de privação à criança. Essa situação, na medida em que ela se repete, vai contribuir para que essa criança acione nela um botão vermelho ou ativar um modo de ser submisso a tudo, caindo em uma depressão”, descreve.
Alguns bafos
Quem já não enfrentou, vivenciou ou foi protagonista de um bafão. Aqui não cabe “julgar” quem estava certo ou errado e muito menos discutir o mérito dos casos. Aqui cabe exemplificar situações comuns e convidar cada um a analisar não o “fato em si”, mas as crenças e inadequações que estão “por trás” dos casos.
Lixo na vaga
O sujeito deu seta e posicionou seu carro para estacionar em uma vaga regulamentada para tal, às 15h. Mas o zelador do prédio em frente veio, aos berros, interpelando o motorista. Motivo: ele, zelador, coloca, indevidamente, os sacos de lixo para a coleta na vaga de estacionamento de rua, para bloquear usuários de carros que costumam utilizar o local, irregularmente, após às 18h, o que não é permitido. O motorista argumentou que a vaga é para estacionamento e que estava dentro do horário legal. Portanto, os sacos de lixo na rua eram “ilegais” naquele horário. Descontrolado, o zelador persistiu em ofensas.
'Incrível' Hulk
Dr. Banner, recentemente interpretado por Mark Ruffalo (Vingadores 1 e 2), embora seja um personagem fictício e fantasioso, pode estar entre os mais marcantes exemplos do que se entende como “botão vermelho ativado”. Banner é um cientista introspectivo com postura contida e semblante gentil. Porém, quando ativado se transforma no Hulk, um imenso monstro verde.
Há também a possibilidade do nosso herói fazer o tipo reprimido. Considerando suas experiências anteriores com figuras autoritárias, em situações limites, sua raiva atinge proporções gigantescas. Nossos heróis da ficção e dos quadrinhos, assim como Hulk, modelam a possibilidade de fins construtivos a partir de meios violentos o que, de fato, é pouco adaptativo na vida real.
Pela direita
A senhora, à esquerda na avenida, deu seta para mudar de faixa, para a direita, mas levou susto com a passagem em velocidade, inesperada, de um motoqueiro, pela direita. O motociclista conseguiu controlar a moto, derrapou e quase foi ao chão.
No semáforo à frente, porém, o usuário da moto despencou xingamentos contra a senhora, mesmo tendo ele vindo em velocidade e realizado ultrapassagem pela direita, o que é proibido.
A saída
O terapeuta Arnaldo Vicente sugere que as pessoas passem a avaliar se as reações que tiveram diante de conflitos ou situações adversas no dia a dia forma compatíveis com a situação real.
Aliado a isso, que comecem a observar o mundo não somente a partir de suas próprias referências. “As pessoas devem exercitar pensar essas situações não só a partir de suas próprias explicações, mas que se abram para interagir com outras pessoas. Que procurem pensar porque outras pessoas respondem a situações parecidas de modo diferente. Que percebam que as pessoas não respondem todas da mesma forma”, opina Arnaldo Vicente.
E mesmo quando a resposta comportamental é a mesma existem algumas diferenças em razão ao modo particular, de interpretar e dar significado para o mundo. “A percepção do outro pode ensinar muito, desde que a pessoa pergunte o que o outro está pensando. Porque não adianta tentar entender a explicação do outro a partir da sua explicação. Esse erro cognitivo é chamado de auto referência. Uma distorção cognitiva que as pessoas fazem sem perceber que estão fazendo. Você tem de perguntar e entender a explicação do outro”, adverte.
Feridas nutrem pensamento e emoção
Em terapia, alguns psicólogos apresentam os botões vermelhos ativados como forma do paciente explicar como crenças ou esquemas desadaptativos atuam sobre nossas emoções e pensamento.
A psicóloga Maurícéia Quinhoneiro menciona que Aaron Beck usa o termo ‘crenças básicas’ para explicar os padrões rígidos e arraigados de entendimentos sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre o futuro. Já Jeffrey Young trabalha com o conceito de esquema, mais precisamente os esquemas iniciais desadaptativos.
Mas, de forma geral, tanto as ‘crenças’ quanto os ‘esquemas’ podem ser entendidos como a raiz que nutre os galhos, folhas e frutos, ou seja, nossos pensamentos, emoções e comportamentos. “A forma como cada um interpreta os eventos do dia-a-dia não é aleatória e sim condicionada por esta estrutura mais profunda conhecida como esquema e crenças básicas”.
Esquemas e crenças parecem ser o resultado do temperamento inato da criança interagindo com experiências de interação familiar e social durante os primeiros anos de vida, prossegue a psicóloga. “Esquemas disfuncionais normalmente são causados por padrões continuados de experiências nocivas com as pessoas mais importantes do universo da criança”, identifica.
E a reação adversa, a explosão, aparece como um “botão de alerta” capaz de mobilizar grande intensidade emocional. “Por exemplo, uma pessoa com um esquema inicial desadaptativo de rejeição pode vivenciar intenso sofrimento emocional ao receber qualquer crítica e pode reagir de forma desproporcional. Neste caso o maior problema não foi a crítica em si, mas o “botão vermelho” que esta critica acionou”, exemplifica.
Mauricéia Quinhoneiro acha difícil que a pessoa consiga reconhecer e trabalhar sozinha com seus botões vermelhos. “Em muitos casos a terapia é fundamental. De forma geral, circunstâncias que envolvam desequilíbrio em termos de vivência e expressão emocional podem ser indicativos de esquemas ativados”, opina.
Ela acrescente que, desequilíbrio envolve transbordar ou então reprimir emoções através de atitudes evitativas.
“Medo, raiva ou tristeza vivenciados de forma intensa ou ainda a própria apatia podem servir de termômetro para reconhecer possíveis esquemas ativados. Contrariedades e desconfortos emocionais fazem parte da vida, porém a persistência por reações desadaptativas (agressividade, confronto, vitimização, submissão, isolamento, etc) podem indicar a ação dos botões vermelhos”, aprofunda.
Assim, observar tipos, conteúdo e frequência das distorções de interpretação da realidade pode ser um bom fator de proteção. “Durante o processo terapêutico, mapeamos todos os possíveis botões vermelhos. A pessoa aprende a identificar suas vulnerabilidades. Embora muitos pacientes entendam racionalmente que os esquemas são distorcidos e/ou disfuncionais a compreensão emocional tende a ser mais demorada e difícil. Então, utilizamos vários recursos de apoio para ajudar o paciente a se auto avaliar”, explica.
Para a psicóloga, consciente dos erros cognitivos típicos, o paciente poderá reconhecer e evitar armadilhas através da metacognição. “Ou seja, conversando consigo mesmo ou então com os próprios botões. Por exemplo: uma pessoa com um esquema de fracasso ao ter o pensamento: Eu faço tudo errado, poderá lançar um novo pensamento sobre o anterior: Isso é um erro cognitivo do tipo: tudo ou nada, é impossível que eu realmente faça tudo errado. Ou ainda: Olha só o meu esquema de fracasso distorcendo novamente minha percepção das coisas. Desta vez não vou cair na armadilha”, associa Quinhoneiro.
Entrevista de RH busca identificar perfis com características emocionais
É crescente o número de empresas que recorrem a análises psicológicas mais aprofundadas com o objetivo de traçar perfis para a admissão que se pretende, levando-se em conta as características emocionais e de comportamento de candidatos diante dos atributos necessários à contratação.
A psicóloga Edinéia Morilha, especialista em análise na área para RH, ressalta que a antiga premissa de escolher a pessoa certa para o cargo certo merece ser repensada, dando à seleção uma orientação macro e não apenas focada na visão tecnicista, mas pondera sobre a busca de “elementos de percepção” sobre o perfil do candidato.
“Qualquer estratégia de captação de talentos deve, primeiramente, privilegiar o capital humano da organização, identificando pessoas com perfil para assumir novos cargos, desafios, projetos entre outros. E para que isso seja possível no futuro, a atenção com a atração de talentos é vista por empresas “inteligentes e inovadoras” com base no desenvolvimento e não na especialidade e visa levantar o perfil ideal sob o ponto de vista de competências técnicas (saber fazer, fazer) e comportamentais (querer fazer)”, comenta.
Mas, nesse contexto, mudar atitudes em um funcionário é mais difícil do que propiciar conhecimento – porque isso pode vir através de treinamentos, orientação e supervisão. “Isso faz com que as organizações valorizem mais o componente comportamental do que o cognitivo nas seleções, sendo até, em alguns casos, desnecessário experiência anterior e conhecimento, dando-se foco ao desenvolvimento. Em se tratando de pessoas inflexíveis, ou impacientes do tipo “bruta” ou dotadas do “complexo de Gabriela” (eu nasci assim, vou ser sempre assim...), estas estão perdendo espaço nesse novo campo de pensamento organizacional, principalmente nas grandes empresas”, alerta.
Morilha comenta que essas empresas são dotadas de recursos e técnicas (entrevistas situacionais e por competência, aliadas à testes psicológicos, dinâmicas de grupo, provas situacionais, entre outras as habilidades do profissional responsável pela processo seletivo) capazes de medir comportamento e analisar situações que envolvam atitudes e ações que estejam em desacordo com o perfil desejado e da cultura organizacional.
“Infelizmente na nossa realidade ainda não há totalidade na adoção dessas estratégias em todas as empresas. Porém, já temos profissionais e empresários preocupados quando da contratação de um novo colaborador, de pesar os detalhes de personalidade. Conheço empresas que, no processo seletivo, já procuram identificar valores pessoais e organizacionais, pois não querem correr o risco de perder um excelente profissional porque os valores pessoais não estão alinhados à cultura da empresa. Outras organizações que não tem esse hábito ou essa preocupação vão acabar conhecendo outro lado do funcionário no dia a dia do trabalho e isso implica em custo e tempo”, finaliza.