Articulistas

Falando com os botões

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Enquanto o mundo gira ao nosso redor, pense: o problema não é o fato, mas a forma como o apropriamos pelo pensamento (Aron Back). Por essa razão, um montão de reações e julgamentos que fazemos sobre os outros e os comportamentos alheios "nascem" distorcidos. A questão é que o ser humano não está habituado a se colocar no lugar no outro. Então, fica ainda mais difícil compreender as relações e suas implicações na família, no trabalho, no semáforo, na esquina...
Conforme a teoria cognitivo-comportamento, o hábito, mesmo sem perceber, de julgar, catastrofizar, generalizar, rotular, nos impõe uma espécie de armadilha. Afinal, processar o pensamento sob o ponto de vista do outro e não sob o parâmetro de que o mundo funciona como nós acreditamos... não parece uma missão pronta.
E realmente não o é! Mas é possível, sim, mudar esse paradigma mental. Acredite, é possível sim fazer diagnóstico sobre os padrões de comportamentos, identificar questões que estão arraigadas em nosso histórico, mapear ?disfunções cognitivas?, exercitar "dribles" ou formas de evitar ou contornar reações inadequadas (metacognição) e, enfim, obter reações ou respostas mais confortáveis ou plausíveis, emocionalmente.
Este foi o desafio ao abordar o tema "os botões vermelhos" de cada um, em matéria do último domingo no JC. Os terapeutas do segmento abordaram "botões vermelhos", em essência, como conteúdos ou crenças pessoais desadaptativas. São como feridas psicológicas que uma vez ativadas conduzem a interpretações distorcidas e mobilizam fortes emoções.
Os botões vermelhos, os sinais de alerta, o "curto-circuito emocional"... eles existem, em maior ou menor dose, em cada indivíduo. São feridas psicológicas, conteúdos ou crenças pessoais que você ativa em forma de fúria, braveza. Mas é possível mapear essas reações e corrigi-las. Basta você apostar um pouco mais em você!
O bom disso tudo, muito mais do que reconhecê-los, é saber que eles podem ser tratados. Do ponto de vista emocional, a terapia cognitivo-comportamental é uma das ferramentas a serviço de cicatrizar essas feridas e, com isso, redimensionar a vida e os comportamentos, o que significa evitar grandes sofrimentos.
Para tanto, há um caminho a ser perseguido, a começar por um exercício: Não adianta tentar entender a explicação do outro a partir da sua explicação. É preciso analisar outras possibilidades, respirar, respirar e ponderar sobre como você assimilou o que ouviu de alguém.
Sim, nós tendemos a assimilar pensamentos a partir de experiências ao longo de nossa vida. E isso pode ser totalmente diferente do que realmente seja o contexto naquele momento.
Por isso é tão importante mergulhar um pouco na identificação de nossas distorções. Porque, na hora da "confusão, bronca ou discussão", o temperamento vai se oferecer a cada um diante dos significados que cada um dá a ele na vida.
E se você dá um significado de que está diante de um perigo, e tem um temperamento forte, vai receber que aquele perigo é o máximo possível. E, por isso, sua reação é de enfrentamento e, não raras vezes, com componentes fortes, inclusive de destruição ou fuga.
Mas, a inigualável "máquina cerebral que nos alimenta e ?guia? oferece a formidável oportunidade de "reformatar o HD mental". Cada um tem a forma inata de ser e ela vai ser sua resposta daquilo que você recebe do meio ambiente. Mas à medida que você ?mapeia? essas respostas, também observa os resultados, ponderando possibilidades menos catastróficas, colocando na balança que o que parecia terrível na verdade nem tão ruim assim o era.
Então, a sugestão é que cada um comece a observar o mundo não somente a partir de suas próprias referências. A percepção do outro pode ensinar muito, desde que você pergunte o que o outro está pensando.

O autor é compositor e jornalista do Jornal da Cidade de Bauru e TV Câmara

Comentários

Comentários