Otema dominante no cotidiano das pessoas é a crise instalada no país, ou melhor, as consequências da crise. Expressões e palavras como "fundo do poço", "recessão", "desemprego", "inflação" são uma constante. Do mais simples cidadão ao ministro da Fazenda, passando pelos congressistas, trabalhadores e empresários, a pergunta que não quer calar: afinal quando se dará o início da recuperação econômica brasileira? Para alicerçar a resposta a esta pergunta é preciso revisitar os chamados fundamentos econômicos. Algumas variáveis dão o tom da dimensão do problema enfrentado pelo país.
Uma destas variáveis é a estabilidade de preços. A conhecida inflação, mesmo em patamares infinitamente menores do que o país conviveu até 1994, ainda ronda nosso meio econômico. Em determinado momento são os problemas sazonais, como seca, falta de pastagem; em outro momento é a pressão vinda das importações, mas o certo mesmo é que o país não conseguiu investir na ampliação da oferta de produtos e serviços que fossem capazes de manter o equilíbrio de mercado. Variável que enfraquece os fundamentos econômicos.
O governo do PT (mais de 12 anos) alicerçou o crescimento econômico interno, notadamente em momentos de crises externas, no aumento do consumo das famílias. O crédito abundante deu o tom nesta variável. É evidente que apostar no longo prazo que as famílias poderão contrair crédito infinitamente é ser no mínimo inconsequente. Esta variável foi utilizada inadequadamente e agora o espaço para qualquer movimento nesta direção é muito pequeno. Mais uma variável que enfraquece os fundamentos da economia.
Os investimentos no Brasil estão abaixo do necessário para ampliar a oferta de bens e serviços e sustentar o crescimento. O patamar atual de investimentos sobre o PIB, que é de 18%, está distante do mínimo aceitável para países como o nosso, que seria na ordem de 25%. Este ano as empresas patinam, estão sem margem de lucro, portanto, sem excedentes para garantir na eventual recuperação econômica, que tais investimentos serão retomados na dimensão que o país requer, isso sem contar o falta de recursos públicos, cujas contas sequer fecham. Sem excedentes financeiros, fundamento comprometido.
Outras variáveis que afetam diretamente a vida das pessoas estão em níveis abaixo do desejado. A geração de emprego, por exemplo, enfraquece mês a mês. A renda do trabalhador está em queda. O desemprego em alta. Mesmo aqueles que ascenderam à classe média, e não foram poucos (estima-se mais de 34 milhões de brasileiros), veem a melhora no padrão de vida ser comprometido. Estão diminuindo o consumo de inúmeros bens e serviços e observam dificuldade financeira para garantir o mínimo conquistado. Emprego, renda e a própria distribuição de renda estão comprometidas.
Voltando à questão da recuperação econômica, na análise do desempenho do Produto Interno Bruto está também evidenciado que o país patina. Quedas sucessivas na geração de riqueza tem gerado um passivo importante. Empresas, organizações, trabalhadores, enfim, a maior parte dos agentes econômicos está fazendo "tripas, coração" para enfrentar a desaceleração econômica. Empresas e pessoas que nunca experimentaram contrair crédito estão sendo obrigadas a conviver com esta realidade. O passivo por esta mudança de status virá e a dúvida atual é quem efetivamente sobreviverá diante de toda turbulência, em outras palavras, quem sairá ileso deste momento da economia nacional.
Observem que responder ao questionamento de quando a economia irá se recuperar não é tarefa fácil. Há muito a ser feito até lá. O ajuste fiscal é um início, e não um fim em si. Outras frentes deverão ser abertas visando abreviar este horizonte sombrio. Resta-nos continuar fazendo a lição de casa, ou seja, fazer mais com menos e continuar atento aos movimentos da economia no sentido de fortalecer seus fundamentos. É o momento de firmeza de propósitos e adequada leitura do ambiente econômico.
O autor é economista e articulista do JC