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A terceirização da nossa vida

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Estamos terceirizando a vida. Não é uma constatação minha. É anúncio de classificados mesmo. Por um determinado valor, o cidadão se propõe a ir ao banco em seu lugar e ficar triste com o seu saldo "no vermelho"; passear com seus cachorros e recolher as fezes deles; fazer compras no mercado e abastecer a sua despensa. Dispensa. Dispensa que você viva. Na correria da vida, viver virou detalhe para ficar em segundo plano.
Aos poucos, fomos terceirizando tudo. O alerta da "terceirização da vida" foi feito pela colega de trabalho Márcia Duran, que viu o dito-cujo anúncio na Internet. Cá entre nós, acredito que ela terceirizou aquela feijoada que postou no Facebook neste fim de semana. Estava de plantão, supervisionou o JCNET e ainda manteve seu constante engajamento nas causas animais. Não é possível que arrumou tempo de ir atrás de feijoada. Tenho certeza: terceirizou...
A terceirização ganhou mais força neste ano. Entre as votações da era Eduardo Cunha (que, dizem as más línguas, foi terceirizado pelo Diabo para trabalhar aqui no plano térreo), a Câmara dos Deputados aprovou, em abril, o Projeto de Lei 4330/2004, que estende a terceirização para as atividades-fim e gerou grande polêmica. O sindicalismo reclamou em peso. Há boatos (dos mesmos que falam da relação trabalhista de Cunha com o Cramulhão) de que alguns sindicatos, os mais furiosos, terceirizaram sindicalistas para irem até Brasília reclamar.
Com o nítido vácuo no Executivo País, parece que até nossa presidente Dilma Rousseff deixou de governar e está terceirizando esse mero "detalhe". A segurança, a saúde e a educação são cada vez mais terceirizadas. Até poda de árvore está ficando terceirizada, amigos. Em reportagem do JC nesta segunda-feira, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente reconhece a pouca quantidade de funcionários da pasta frente à gigante demanda e recomenda que a população vá atrás dos terceirizados que fazem este serviço.
Voltando para nós: o "viva la vida" se torna cada vez mais o "vivo la tu vida"... desde que pague bem. Já prevejo a evolução disso tudo. Em breve, haverá anúncios de "faço sexo com sua esposa enquanto você vai ver o jogo no bar com os amigos"; ou "vou ver o jogo no bar com seus amigos enquanto você fala para sua esposa que foi ao bar com seus amigos, mas, na verdade, está fazendo sexo com a melhor amiga dela"; ou "vou viajar com sua família enquanto você trabalha para pagar o meu serviço terceirizado e também a nossa viagem", etc.

É a moda. É o sinal dos tempos. Não tem como fugir. Eu mesmo nem escreverei mais crônica alguma. Reconhecendo que escrevem bem melhor que eu, terceirizarei o João Jabbour (que, inclusive, já falou sobre a "terceirização dos filhos" por aqui) e o João Pedro Feza nos próximos artigos. Que façam um preço camarada...
Teria muito mais a dizer sobre terceirização, mas me despeço por aqui. Desculpe a quebra de raciocínio brusca, contudo, é por motivos de força maior. O banheiro me chama para fazer uma das poucos coisas que ainda é impossível terceirizar...
Mas, com a tecnologia, quem sabe no futuro, né? Anúncio de classificados: "Faço o número 1 e o número 2 por você. E ainda limpo certinho".

O autor é editor do JC, jornalista responsável
da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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