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Faça você a sua trilha

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 3 min

Muito se falou sobre exagero da mídia na cobertura da morte do cantor Cristiano Araújo. De fato, e especialmente na TV aberta, havia ali ingredientes de sobra para captar e prender a atenção da audiência por horas a fio: artista jovem, vítima de acidente, com a namorada ainda mais jovem... Rapidamente, o excesso de entradas ao vivo sobre o assunto virou discussão e desabafo nas redes sociais. Muitos reconheceram jamais ter ouvido falar do "sertanejo". Outros passaram a lamentar o pouco espaço dedicado a outros artistas recentemente falecidos.

Arrisco algumas distinções e proposituras, como diriam os parlamentares. Primeiro que, dessa safra de sucesso de massa, Cristiano não só era dos mais completos como também o mais divertido. Segundo: já há gerações inteiras que cresceram ouvindo isso e, portanto, é natural que Cristiano seja, como alguém escreveu, o artista mais desconhecido do Brasil, exceto para milhões. Terceiro, como já havia identificado Dinho Ouro Preto há dez anos, a indústria cria ou se apropria de certas ondas ? e tenta nelas surfar o maior tempo possível. Foi o que ocorreu com o rock dos anos 80. Se a bola da vez passa a ser o pagode ou forró ou axé, tchau rock!

O sertanejo universitário (que eu chamaria de pop de balada) é o topo do monte fonográfico. Pode pesquisar em qualquer lista: das dez mais tocadas no Brasil em 2015 e em 2014, só para ficar nesse recorte, 100% são de sertanejo universitário. E isso tem a ver, inclusive, com mudança de comportamento dos jovens de classes emergentes à luz da realidade econômica mais favorável dos últimos anos (hoje, nem tanto). Na música nova de Cristiano, que vazou quarta-feira, o cara rejeitado é que se vinga da moça ("Balada Prime"). A música, e não só essa, traduz uma geração confiante, cheia de si (às vezes, cheia de si até demais). No meio desse sucesso todo, ficamos nós: quarentões, trintões, cinquentões, sem entender quase nada. E vivendo da audição de clássicos incríveis como Chico e Caetano.

São, sim, clássicos eternos da MPB, mas (e aí vem a propositura) podemos fazer mais do que ficarmos abismados com o imenso público de Luan Santana ? ou queixosos com o "berê berê berê / bará bará bará" de Cristiano. Há, por aí, uma legião de novos talentos em outras frequências da MPB, do rock, do samba...

Exemplo: Simone Lial. Nascida em Ramos e calejada na Lapa, como diz João Cavalcanti, do grupo carioca Casuarina, "promove o retorno da elegância do samba suburbano" no álbum "E Toda Dor que Sofri Será Canção" (selo Alujá). Ouvi ontem e é dos bons. Aqui mesmo em Bauru, também só para citar uma, a jovem cantora Lu Nóbrega segue em plena divulgação do CD "Bossainjazzado". Coisa fina.

O chavão "todo mundo tem seu espaço" é real, apesar de a indústria da música insistir em se agarrar desesperadamente apenas nos mesmos nomes do momento ? aqueles que lotam arenas, como ocorria com o talentoso (sim) e irreverente Cristiano Araújo. Se a gente quer ouvir outra coisa (eu, inclusive, quero), é preciso pesquisar, apoiar e difundir. Trabalho de formiguinha. Sem rancores. Com tranquila persistência.

O autor é editor executivo do JC

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