Importante jornal da Capital publicou em destaque notícia de que os professores do Estado de São Paulo, após 89 dias de greve - por sinal a mais longa registrada na história -, retornaram aos seus postos sem nada terem conseguido quando reivindicavam 75,33% como reposição salarial. Além de São Paulo, também no Paraná a greve dos professores ultrapassou dois meses marcada por violência nunca vista; em estados do norte e nordeste também explodiram semelhantes movimentos e neste momento universidades federais decidem a paralisação reivindicando melhoria salarial.
É importante e necessário ressaltar que esta desvalorização salarial do profissional da educação, seja em qualquer nível, mas principalmente no fundamental e médio, não é de agora, sempre houve com raízes no início de nosso país, tem origem cultural; pois nunca foi dado o devido valor ao professor, profissão que qualquer pessoa poderia exercer, sem necessidade de qualificação, bastasse gostar e querer. E hoje em dia muitos gostariam, mas não querem devido à desvalorização e ao ambiente difícil de trabalho em que se tornou a escola. O professor escasseia cada vez mais, sendo ameaçado pela tecnologia que, segundo alguns, poderá substituí-lo.
Em verdade, essa "derrota" dos professores se fosse vitória pouco significaria, pois a defasagem salarial foi muito grande ao longo do tempo através dos governos, realidade que se tornou impossível de ser compensada; se tiverem 150% de aumento, ainda será pouco. Em especial no meu caso, como inspetor escolar aposentado, 300% não mudariam muito o meu status. Em meu entendimento, greve, o único meio disponível ao professor na atualidade, está se tornando um processo ineficaz por não conseguir os objetivos e pelos problemas que acarreta aos alunos, famílias e, principalmente, aos próprios professores. Quantos e marcantes problemas de relacionamentos dentro da escola; do grevista com o não grevista; para o diretor e funcionários; enfim, para o sistema e à sociedade. Que desgaste físico e emocional! Só quem passou e trabalha em um ambiente de greve é que pode testemunhar. É viva ainda em minha memória, assim como deve estar em milhares de colegas, a greve de l963. O que se conseguiu com a mesma diluiu-se ao longo do tempo. A meu ver, a real valorização do professor, que demandará longo tempo, dependerá de dois fatores: vontade política e mudança de sistema.
Com a municipalização total do ensino, isto é, passando à responsabilidade total e direta do município no país; obviamente podendo não haver interesse político. Segundo a Folha de São Paulo (30/5), em nosso Estado há 5.300 escolas que abrigam 4 milhões de alunos com 230.000 professores. Constitui-se em um macrosistema, difícil de ser administrado, valorizado devida e merecidamente. Impossível para qualquer governo conceder o merecido aumento ao professor, fazendo com que esse impasse continue indefinidamente. Um universo menor igual ao do município, com uma estrutura menos complexa, possibilitará maior eficácia de controle, uma melhor qualidade do ensino e uma real valorização do profissional da educação.
No entanto, como em nosso país as mudanças são muito difíceis, devemos ficar esperando por muito tempo. Muito embora os colegas grevistas sintam-se frustrados, revoltados e com muita razão, o mais triste é a derrota da educação, que sofre uma após outra. Desculpem-me, mas em nosso desalentado Brasil há realidades mais importantes do que educação e saúde.
O autor é professor, membro da Academia Bauruense de Letras (ABLetras)