Depois de 136 anos, sai de cena a lâmpada de filamento, condenada pelos governos do mundo inteiro por consumir muita energia elétrica. Ao ler a notícia tive a mente povoada de lembranças nostálgicas, desde o tempo em que a garotada da rua se reunia sob a luz bruxuleante do poste, depois do jantar, para contar vantagens. O poste servia de baliza no pique-salvo. Ouvi em algum recanto da memória a canção Lili Marleen. Revi no arquivo, as cenas do filme de Fassbinder, com o soldado alemão despedindo-se da sua amada em frente ao quartel, diante do portão, sob o poste com uma lâmpada de luz mirrada, como a da minha rua. “Nossas duas sombras pareciam uma só”, diz a letra dessa música traduzida em todas as línguas, e que serviu de leit motiv para ambos os lados na Segunda Guerra. Rommel gostou tanto que mandou a rádio oficial tocar todas as noites, às 21h15, nas transmissões para as tropas que lutavam na África. Marlene Dietrich, Edith Piaf, Bing Crosby,se encarregaram de espalhá-la para o resto do mundo. “Aquela lâmpada conhece os teus passos, o teu lindo caminhar. Mas quem vai estar com Lili sobre a luz do poste caso algo ruim me aconteça? Será que voltarei, para o nosso tempo como outrora, Lili Marleen”?
Sei que as gerações “lâmpada incandescente” jamais voltarão a ver suas Marlenes sob a luz débil do poste. Lembrei-me também do Morelli, personagem de Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar. Ele caminha pela casa com uma vela acesa. Leva a mão à frente, para proteger a chama, do vento. Enquanto caminha, imagina quantas vezes esse gesto teria sido repetido pelos seus antepassados. E pensa nas coisas que se perderam, como as valsas e polcas dos anos 20. Desaparece, também, o malabarismo de eu-menino, que procurava recuperar a lâmpada com o filamento de tungstênio, dando pancadinhas no bulbo de vidro para juntar as pontas rompidas. Quando não dava certo, ainda havia outra utilidade: romper o bocal, encher o oco de água e arrolhar a abertura. Virava uma fantástica lente de aumento.
É o progresso. Dizem que uma lâmpada de LED (diodo emissores de luz) gasta 85% menos de energia. Se o mundo todo a utilizasse, algo em torno de R$ 450 bilhões por ano seria economizado. Duram de 20 a 45 mil horas de utilização e, com elas, deixam de ser descarregadas no ambiente 670 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Ninguém usa galochas, camisas de ban-lon e nem mesmo Orkut.Tudo flui, como na filosofia de Heráclito. Mas, existem coisas que persistem no tempo, como a vela que Morelli acendeu só para experimentar as sensações da ancestralidade. Lá em casa, sempre há velas em estoque, porque a CPFL não é mais confiável. Nada a ver com os nossos avós e as conversas em volta do lume, o cheiro de parafina derretida; ou com a memória das noites de tempestade e das rezas para Santa Bárbara. No futuro, o Facebook, smartphone e lâmpadas de LED também serão só lembranças. Mas, alguém, certamente, terá um toco de vela para se proteger da escuridão. Quem sabe algum pai ainda se lembre de projetar sombras de coelhinhos na parede, para divertir as crianças. Platão se utilizou do mesmo princípio para elaborar o Mito da Caverna, que ainda hoje alimenta as teorias semiológicas.
Pensar que, aqui mesmo, em Bauru, ainda existem áreas urbanas sem sequer uma lâmpada. Ruas e praças públicas no tempo das cavernas. O viaduto, depois de 22 anos em obras, não pode ser entregue ao tráfego porque a lâmpadas de LED não chegaram. O perigo é inventarem algo melhor, no interregno. Coitadas das crianças, sem poder sair à rua, obrigadas a se confinarem na sala, diante da luz de um televisor. E olha que a lâmpada incandescente foi inventada por Thomaz Edison em 1879. Até o velho centro de Bauru, na área da antiga ferrovia, padece de iluminação. Tudo em abandono, a estação da Paulista, telhados arrombados e o pátio servindo de prostíbulo a céu aberto para os travestis. Todos deveríamos olhar em alguma direção em busca de algo, para um horizonte mais límpido, guiado por nossa luz interior. Precisamos de luz. Mehr licht! Gritava Goethe antes de morrer.
O autor é jornalista e articulista do JC