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Entrevista da semana: Jacir Barbosa Braga

Aline Mendes
| Tempo de leitura: 6 min

Quioshi Goto

"Não tem segredo, apenas faço o lanche bauru com amor e carinho", diz Jacir Braga.

O homem dos 50 mil baurus. O sanduíche bauru (o original) é um patrimônio da cidade, o chapeiro Jacir Barbosa Braga, de 61 anos, é um “patrimônio” do bar e restaurante Skinão, que, desde 1971, tem a fama de fazer o melhor (e verdadeiro) lanche que leva o nome da cidade. “É um lanche conhecido no mundo inteiro; é uma honra ter feito tantos baurus...”, comenta Jacir já saudoso, às vésperas de pedir sua aposentadoria.


E quantos lanches seriam? “Já tentamos fazer as contas, mas é difícil... Dá uns 50 mil. Meu recorde foi em um Carnaval: fiz 1.200 baurus em uma noite só! Vai rapidinho, mais ou menos 30 segundos, porque os ingredientes já ficam cortados”, conta. Mas tanto sucesso não deve ser à toa: há algum segredo no preparo desse sanduíche? “Não tem segredo, apenas faço o lanche bauru com amor e carinho”, diz, com sincera humildade.

Mesmo um pouco envergonhado - “sou meio tímido; meio não, inteiro” -, Jacir compartilha um pouco da sua trajetória, grande parte no comando da chapa do bar em que trabalha há 37 anos com orgulho.


“Eu gosto de fazer os lanches, e gosto de comer também! Mas o que marcou mesmo foram as muitas amizades que fiz aqui”, comemora.

Jornal da Cidade - Como foi sua chegada a Bauru?

Jacir Barbosa Braga - Sou de Marialva, no Paraná, e vim pra cá com 18 anos. Era mascate, vendia roupa e enxoval na rua. Minha mulher estava grávida e eu precisava de um emprego registrado, para ter o INPS. Meu cunhado era garçom no Skinão e me chamou para trabalhar. Achei que ficaria só até minha mulher ter nenê, mas tomei gosto e estou até hoje, já são 37 anos.


JC - Já começou direto na cozinha do restaurante Skinão?

Jacir - Eu não tinha experiência, e nem sonhava trabalhar em cozinha. Comecei fazendo serviços gerais, mas um dia faltou alguém na cozinha e seu Zé (José Francisco Junior, o dono do bar) pediu para eu ser chapeiro dizendo que ia ser bom, pois melhorava o salário. Eu aceitei e fui aprendendo.


JC - Como era sua relação com ele?

Jacir - O seu Zé era um homem bom, muito bacana. Era divertido, contava muitas histórias e piadas. Tenho várias lembranças dele trabalhando do meu lado. Considero que ele foi meu segundo pai. O seu Zé me ensinou tudo e me ajudou muito, me deu uma força com a papelada para conseguir minha casa no Beija-flor. E só fazia um ano que eu trabalhava pra ele, passei a dar mais valor ainda. Eu tinha amizade com seu Zé... Faz 12 anos que ele faleceu, fiquei chocado.


JC - Que “causos” foram mais marcantes nesses 37 anos?

Jacir - Tem tanta coisa... De ruim foi uma vez no Centro quando chegou um rapaz armado para roubar um cliente. O bandido pediu a correntinha que estava no pescoço e o cliente tirou, mas jogou atrás do freezer para o cara não levar... Só que o assaltante fez o moço ir pegar. Eu tremia de medo! De bom é que conheci muita gente e fiz amizades. Toda quinta-feira, antes da Sexta-feira Santa, a gente fechava o bar um pouco mais cedo e fazia uma peixada só com os clientes mais chegados e os funcionários; era uma tradição muito legal.


JC - O Skinão recebe artistas e gente ilustre. O senhor sai da cozinha e vai conhecer essas pessoas?

Jacir - Já passou bastante artista por aqui e alguns foram conhecer a cozinha. Eu não sou de tirar foto. Lembro de ter feito lanche para a dupla Guilherme e Santiago, Elizabeth Savala, Marcos Pontes...


JC - Como se sente trabalhando em um verdadeiro ponto turístico e histórico da cidade?

Jacir - Fico contente! Tem gente que vem de fora e quer tirar foto na cozinha; muitos levam o bauru para outros Estados, como Rio de Janeiro e Minas Gerais, num isopor... Isso já aconteceu muitas vezes. E teve uma pessoa que levou o lanche daqui para os Estados Unidos!


JC - O que acha das várias versões do bauru?

Jacir - Tem muito bauru por aí, mas o pessoal coloca presunto... Será que não conhece a receita? Então, tem que especular para fazer o bauru de verdade, não é?


JC - Como são os bastidores da cozinha aqui?

Jacir - O pessoal brinca, fala bobeira, mas não sou de muita conversa, não, só o necessário. Fico concentrado no lanche, senão confunde, porque tem gente que pede sem o picles, sem o queijo e até sem a carne, outro é completo. Já errei, porque é muito lanche, tenho que concentrar.

Quioshi Goto

Jacir lembra com saudade da época em que trabalhou ao lado de “seu Zé do Skinão”

JC - E o senhor cozinha para amigos e parentes?

Jacir - Pedem em casa, mas eu não faço; lá não tem as coisas certas para o preparo. Nem levo para os vizinhos. Tem que vir comer aqui, isso que é gostoso. Digo assim: ‘Quer comer? Vai lá!’. Em casa não cozinho, minha esposa nem deixa, ela gosta de fazer. Vem parente e eu não ponho a mão em nada, só fico conversando, sou como visita.


JC - O senhor sentiu a mudança do Centro para o Altos da Cidade?

Jacir - Senti porque mudou o ambiente, aqui é mais sofisticado. Mesmo assim, vem todo tipo de cliente, o que é bom. Aumentaram os funcionários, a gente estranha um pouco. Lá embaixo o público conversava mais comigo, o cliente pedia as coisas diferentes no lanche direto pra mim.


JC - E como vai ser quando o senhor se aposentar?

Jacir - Acho que vou sentir saudade... e estranhar porque venho aqui todo dia. Na festa de 15 anos da minha filha, vim trabalhar... eu estava de serviço, a família entende. Vou vir de vez em quando, para matar a saudade. Penso que já trabalhei bastante, agora tenho que deixar para os outros, para os mais novos. Gostei muito de ficar aqui, mas agora tenho que parar. Quando aposentar, vou ficar um mês em casa sem fazer nada! Aí depois eu penso como vai ser.


JC - Mas o senhor tem algum sonho para essa nova fase?

Jacir - Tenho o sonho de montar um carrinho de lanche para mim. Vou trabalhar normalmente, só não terei horário para sair. Se o movimento estiver fraco, fecho e vou pra casa. Só não vou fazer o bauru, dá muito trabalho! Tem que fritar a carne, fazer o picles, derreter o queijo na água...

Receita Original do Bauru

Pão francês sem miolo, mussarela derretida na água quente (banho maria), picles (pepino em conserva), tomate, uma pitada de sal, outra de orégano e o rosbife. E pronto!

Perfil

Nome: Jacir Barbosa Braga

Data de nascimento: 17/01/54 (61 anos).

Local: Marialva, no Paraná.

Signo: Capricórnio.

Hobby: “Tomar uma cervejinha”.

Lanche preferido: “Bauru, mas gosto frio”.

Música: sertaneja.

Leitura: Jornal da Cidade.

TV: Globo Esporte e notícias.

Time: São Paulo Futebol Clube.

Família: Casado com Alice e pai de Viviane, Ana Flávia e Luciana.

Para quem dá nota 10: Ao jornalista Gerson de Souza. “Quando ele vem aqui, sempre me cumprimenta e eu fico muito feliz”.

Para quem dá nota 0: “Não sei responder; tem coisa que a gente não gosta, mas vai se adaptando”.

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