Impensável uma reunião entre petistas sem discussões políticas acaloradas. Ontem, durante reunião do diretório municipal da legenda, realizada na Câmara Municipal de Bauru, os debates foram inflamados pela possibilidade do PT se aproximar de partidos tradicionalmente de oposição, como PSDB e DEM, além do PPS, para discutir as eleições de 2016.
Embora diálogo não signifique alianças, o tema foi capaz de provocar nova polarização entre o presidente do diretório local, Claudinho da Construção, e a vice-prefeita Estela Almagro. “É preciso dialogar com todo mundo, mas sem perder de vista com quem é possível fazer alianças. É impossível o PT fazer alianças com o PSDB e, em alguns momentos, com o PPS e o DEM. Nós somos extremamente antagônicos, mas nas relações pessoais, para discutir política, não podemos discriminar ninguém”, diz Claudinho.
Na opinião dele, está na essência do PT fazer o debate. Mas para Estela, essa posição não é só contraditória como também desrespeita as deliberações do Congresso do PT. “Ele é o fórum máximo. Não existe aliança com o PSDB, DEM e PPS porque eles já têm projeto nacional claro. São ideologicamente antagônicos e estão no projeto Alckmin 2018. Nosso projeto é Lula 2018. Se não pode cada, por que namorar?”, questiona.
Embora não tenha se manifestado durante o momento de estresse entre os dois colegas de partido, o vereador Sandro Bussola também é protagonista do embate. No final do mês passado, junto com o próprio Claudinho, se reuniu com Sérgio Murillo, assessor do deputado federal licenciado e secretário estadual de Agricultura, Arnaldo Jardim (PPS), Arnaldo Ribeiro, chefe de gabinete do prefeito e presidente do PPS de Bauru, o vereador Lima Júnior (PSDB), e Renato Purini, secretário do Desenvolvimento Econômico e presidente do municipal do PMDB.
Debate
“O cenário nacional é uma coisa e nós vivemos outra. Temos de pensar a cidade de Bauru neste momento. O Brasil atravessa uma crise. Não é o momento de praticar ideologias, mas de pensar no futuro da cidade. E pensar no futuro da cidade é pensar em uma política de alianças. Se o governo de Rodrigo Agostinho (PMDB) está dando certo é porque o PT teve maturidade lá atrás para praticar uma política de alianças”, afirma Bussola, ao defender flexibilidade partidária para o processo de 2016.
O assunto voltará a ser discutido na próxima quinta-feira, quando a Executiva se reunirá. Na oportunidade, também indicará nomes para formarem a comissão eleitoral, que terá como objetivo construir a estratégia da sigla para as eleições do próximo ano. Definirá questões como eventuais alianças e estratégias para candidatura própria.
Entre os quadros do PT para a sucessão de Rodrigo Agostinho estão a própria Estela Almagro, o titular da Secretaria de Agricultura, Chico Maia, Claudinho da Construção, o vereador Sandro Bussola, o titular da Secretaria de Esportes, Roger Barude e até o ex-vereador José Carlos de Souza Batata. A reunião da executiva será na próxima quinta-feira, às 19h, na Associação dos Aposentados.
Claudinho faz ‘mea culpa’ e prega união
Depois de não reconhecer como legítima a iniciativa de cerca de 40 militantes que se reuniram há 10 dias para discutir os rumos da sigla, ontem o presidente do diretório local do PT, Claudinho da Construção, admitiu que a legenda deveria estar mais ativa, em Bauru. Também pregou a união da militância.
Alegando abandono, militantes convocaram encontro, no final do mês passado, com base em instrumento previsto no estatuto do PT, pelo qual o diretório é convocado a partir da assinatura de um terço de seus membros. “Eu mesmo gostaria que tivesse mais vida orgânica. Mas uma série de fatores atrapalhou”, comenta Claudinho.
Ele citou seus compromissos como dirigente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), turbulências no cenário nacional que demandavam observações e análises anteriores a uma reunião e dificuldades com o secretário-geral do PT, o ex-vereador José Carlos de Souza Batata.
“A gente se estruturou de uma forma, mas não aconteceu como o planejado. Foi extremamente positivo o que aconteceu. A partir do momento que a militância toma esse posicionamento proativo, fica mais fácil para a Executiva fazer a condução política”, disse Claudinho.
Sua posição, inclusive, foi elogiada pelo vereador Sandro Bussola, que ressaltou o quanto Claudinho é democrático. “O partido anda sem necessidade de ter caciques. Todas as reuniões são legítimas”, garante.
A de ontem foi elogiada também pela vice-prefeita Estela Almagro, que a considerou muito participativa. “É o partido inteiro de novo e isso é muito importante”, afirma. De acordo com ela, agora a militância precisa estar pronta para sair às ruas e, assim, fazer debates políticos.
Macrorregião
Também foi realizada ontem reunião da macrorregião, responsável por 54 municípios próximos de Bauru. Ao todo, representantes de 17 deles estiveram presentes, oriundos por exemplo de Jaú, Botucatu, Duartina, Pirajuí, Presidente Alves e Pederneiras.
“Aproveitamos para fazer uma análise da conjuntura nacional e regional e nos preparar para as eleições do próximo ano”, explica Everton Rodrigues de Matos, coordenador da macrorregional. Ele e os presentes acreditam que o PT tem sido alvo de vazamento seletivo de informações com a Operação Lava Jato.
A vice-prefeita Estela Almagro, inclusive, enxerga tensionamento para golpe, além de tentativa de manipulação de massas. No entanto, acreditam que o partido se fortalecerá e “reviverá como Fênix”.
Executiva
O futuro do vereador Roque Ferreira que, ligado à corrente Esquerda Marxista, anunciou que deixará o partido, será discutido na quinta, na reunião da Executiva. “Contrariando as posições que sempre adotou, dessa vez Roque ficou em cima do muro”, afirma Claudinho da Construção. Já Estela Almagro defende que Roque vá ao encontro justificar sua conduta.
Procurado, o vereador reiterou que a posição foi tirada em um congresso nacional da Esquerda Marxista. “Tomamos a decisão de natureza política. O processo de desfiliação do partido vamos tomar quando acharmos que é o melhor momento para fazê-lo. Se os dirigentes do PT aqui em Bauru quiserem fazer a discussão política, nós o faremos. Não tem nenhuma posição de indivíduo”, afirma.