Douglas Reis |
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A bióloga e paisagista Teresa Cristina Aragão Domingos Mastrangelli, 43 anos, é uma exceção à regra: o modo do seu consumo é para diminuir a sobrecarga ao meio ambiente |
Amplamente divulgado, o conceito de sustentabilidade se consolidou no inconsciente do brasileiro como um tema importante para a sobrevivência humana e do meio ambiente. Mas a teoria, na prática, parece ser pouco aplicada.
Estudo divulgado na semana passada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pelo portal de educação financeira Meu Bolso Feliz revelou que somente dois em cada dez brasileiros podem ser considerados consumidores conscientes. E quando o são, estão quase sempre motivados pela economia financeira que a mudança de hábitos pode proporcionar.
Do total de pessoas ouvidas na pesquisa “Consumo Consciente e Práticas Sustentáveis do Brasileiro”, 35,5% disseram que a principal vantagem do consumo sustentável é fazer o dinheiro render mais. Em segundo lugar, vem a preocupação com o bem-estar coletivo, uma vez que 30,1% citam a sensação de dever cumprido e de estar fazendo o que é correto para a sociedade.
O cuidado com a preservação do meio ambiente é lembrado por pífios 5,8% dos brasileiros consultados. Para o educador financeiro do portal ‘Meu Bolso Feliz’, José Vignoli, a conduta pode estar sendo, em boa parte, influenciada pelo momento delicado que a economia do País atravessa.
E, neste contexto, ele espera que a crise possa gerar mudanças definitivas no comportamento das pessoas. “A escassez de água, por exemplo, forçou a mudança de hábito de muitos brasileiros, assim como, agora, está ocorrendo com o aumento da conta de luz. Mas esta crise vai acabar em algum momento e o grande desafio será fazer com que esta economia, feita na marra, seja absorvida como ensinamento permanente, no futuro”, pontua.
Ainda de acordo com o estudo, a dimensão financeira é ainda mais importante para os consumidores jovens, do sexo feminino e pertencentes às classes C, D e E. Respectivamente, 45,4%, 39,6% e 38,2% deles responderam que a economia é a principal vantagem do consumo racional.
Quando considerado apenas a economia de água e energia elétrica, o principal motivador, pela ordem, é não desperdiçar um bem finito (32,7%) e pagar a conta mais barata (21,5%). Já em relação a produtos alimentícios, para mais da metade dos entrevistados (52,8%), o principal motivador do consumo consciente é ser, por princípio, contra o desperdício. Mas, para 20,1%, trata-se de economizar nas compras e, com isso, ter alguma folga no orçamento.
Falta de tempo
A pesquisa também procurou entender o que impede as pessoas de tomarem, de maneira sistemática, atitudes responsáveis com relação ao consumo, já que, numa escala de 1 a 10, elas deram nota 8,8 para a relevância do assunto. A justificativa mais citada pelos consumidores entrevistados é a falta de tempo (26,5%), seguida pela distração ou esquecimento (25,4%).
Para a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, as respostas indicam que a população ainda não vê o consumo consciente como algo prioritário em sua vida. “Mudanças simples poderiam fazer grande diferença, como planejar melhor as compras, diminuir o tempo no banho e aprender a utilizar de forma mais adequada aparelhos domésticos, como o ferro de passar e a máquina de lavar. De modo geral, o brasileiro está em fase de transição, uma vez que até adota algumas atitudes positivas, mas ainda precisa evoluir neste sentido”, pondera.
‘Economia é apenas consequência’, defende consumidora consciente
A bióloga e paisagista Teresa Cristina Aragão Domingos Mastrangelli, 43 anos, não se lembra quando começou a adotar uma postura sustentável na sua rotina diária. Mas, hoje, casada e mãe de dois filhos, ela se orgulha de ter transmitido os ensinamentos para a família, que pode ser considerada consciente quanto ao consumo.
“Minha filha, por exemplo, faz bazar de garagem para troca de roupas com as amigas e é adepta dos brechós. E eu também sempre tento avaliar com os filhos quais compras são realmente necessárias, para afastar essa cultura de consumo desenfreado”, pontua.
Além das medidas básicas como separar o lixo reciclável, poupar energia elétrica e água, Teresa também racionaliza as compras de supermercado, adquirindo produtos com o tamanho mais adequado para o volume de consumo da casa. O objetivo é evitar, ao máximo, qualquer margem de desperdício.
“O que usamos pouco, compro em embalagens menores. O que usamos mais, compro por atacado. São medidas simples, que não demandam tanto esforço e que podem ser facilmente adotadas não somente por questões econômicas. A economia é apenas consequência quando você muda sua postura e estabelece prioridades para diminuir a sobrecarga sobre o meio ambiente”, ensina.
Jovens são os menos responsáveis
Divulgação |
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Segundo o educador financeiro José Vignoli, crise força consumo racional, que pode se tornar hábito |
Jovens que cresceram sob o discurso da sustentabilidade, surpreendentemente, são os que menos adotam práticas adequadas de consumo, conforme apontou o estudo. O percentual de atitudes corretas, cuja média da população em geral é de 69,3%, sobe para 74,2% entre os entrevistados com idade acima dos 56 anos e cai para 64,5% entre o universo de consumidores com idade entre 18 a 29 anos.
E também é nesta última faixa etária que está a maior concentração de entrevistados na categoria dos ‘nada ou pouco conscientes’. Entre os jovens, eles são 46,3%, ante somente 31,2% do total da população.
“Embora tenham crescido neste ambiente de maior conscientização, ao mesmo tempo eles também vivenciaram, nos últimos anos, uma realidade de consumo acelerado e inconsciente, de crédito fácil”, pontua José Vignoli.
Ainda de acordo com o estudo, também é provável que os jovens, por vivenciarem uma fase marcada pela necessidade de pertencimento a determinados grupos, acabem expressando por meio do consumo o desejo de alcançarem status. A necessidade de pertencer e diferenciar-se, portanto, toma forma a partir do consumo de produtos repletos de significados, que têm o poder de demarcar a identidade, promovendo o consumo exagerado, contínuo e imediatista.
Metodologia
O indicador de Consumo Consciente (ICC), calculado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), tem como objetivo acompanhar as mudanças nos hábitos de compra e outras ações cotidianas dos brasileiros em três esferas: financeira, ambiental e social.
Para isso, foram entrevistados 605 consumidores nas 27 capitais do Brasil, de ambos os sexos e de todas as classes sociais.
A margem de erro é de no máximo 4,00 pontos percentuais. E, segundo os realizadores, a margem de confiança de 95%.
Nível de consciência de consumo
O consumo consciente é compreendido como o ato de considerar, durante o processo de compra de um produto, o equilíbrio entre a satisfação pessoal, as possibilidades ambientais, os impactos de longo prazo e os efeitos sociais e financeiros de sua decisão.
O estudo segmenta os consumidores em três categorias, de acordo com a intensidade da prática dos comportamentos considerados adequados: “consumidores conscientes”, que apresentam frequência de atitudes corretas acima de 80%; “consumidores em transição”, cuja frequência varia entre 60% e 80% de atitudes adequadas; e “consumidores nada ou pouco conscientes”, quando a incidência de comportamentos apropriados não atinge 60%.
O resultado apontou que apenas dois em cada dez entrevistados se enquadravam na primeira categoria. Na média, o percentual de atitudes corretas foi de 69,3%, o que classificou o brasileiro médio como “consumidor em transição”.
Entre os “conscientes”, a maioria possui entre 30 e 55 anos e segundo grau completo, pertence às classes A e B e a famílias financeiramente equilibradas. Também são, em boa parte, oriundos de um ambiente familiar que sempre incentivou o combate ao desperdício e o uso racional dos recursos.

