O fim de um relacionamento relâmpago teria motivado um pedreiro de 53 anos a matar a ex-namorada, de 69, com pelo menos cinco tiros, sendo três na região da cabeça. Conforme levantamento feito pelo JC, Antonia Fernandes da Silva foi a primeira vítima de feminicídio em Bauru. O crime ocorreu anteontem, por volta das 22h, na residência de Severino de Souza Pimentel, vulgo Gago, no Jardim Petrópolis. O acusado fugiu após atirar contra a aposentada e está sendo procurado pela polícia.
De acordo com o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja, Antonia era viúva e se envolveu com Severino por poucos dias. Após o término do relacionamento, o pedreiro a teria ameaçado de morte, mas a aposentada não registrou queixa. Na noite de anteontem, Antonia foi a uma festa de aposentados, na região do Jardim Bela Vista, acompanhada de uma vizinha e encontrou o ex-namorado.
Na ocasião, Severino a tirou para dançar, mas Antonia recusou. Embora não demonstrasse interesse algum em reatar o relacionamento, a aposentada deu uma carona ao pedreiro quando a festa acabou, por volta das 21h30. Contudo, a viúva não ficou sozinha com o ex-namorado no carro, já que também deu carona à vizinha. Quando os três chegaram até a casa do pedreiro, que fica na quadra 2 da rua Mauro Campos Brito, ele as convidou para entrar.
Enquanto as vizinhas esperavam no corredor, Severino entrou e pegou um revólver, provavelmente de calibre 32. Sem dar qualquer chance de defesa à vítima, o pedreiro efetuou pelo menos cinco disparos contra Antonia, sendo que três deles a atingiram no pescoço e na base da orelha esquerda, transfixaram o corpo da mulher. Após o primeiro tiro, a vizinha correu e ligou para a Polícia Militar (PM). Assim que os militares chegaram, o acusado já teria fugido com a arma.
Em seguida, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado e um médico constatou que a mulher estava morta. Uma equipe da Polícia Científica esteve no local para realizar o trabalho de perícia técnica. O carro de Antonia, um VW/Gol, foi levado pela polícia e ficou no pátio da Central de Polícia Judiciária (CPJ) à disposição da família. Na tarde de ontem, o corpo da aposentada foi sepultado no Cemitério do Jardim Redentor. Ela deixa dois filhos.
Menosprezo
O delegado responsável pelo caso aponta que Severino cometeu um homicídio triplamente qualificado, porque o motivo é fútil - provocado, em uma primeira análise, pelo fato de a aposentada não ter aceitado dançar com o pedreiro e, em um segundo momento, por não se interessar em reatar com ele -, o autor não deu chance de defesa à vítima e pelo enquadramento em feminicídio, já que o pedreiro teria menosprezado a condição da mulher.
“Um dos próximos passos será provar o menosprezo à condição de mulher em função de o homem ter disparado contra a vítima, que não quis se submeter a ele”, explica Kleber Granja. Diante disso, a pena, de 6 a 20 anos de reclusão, pode ser prolongada de 12 a 30 anos, já que o feminicídio é causa o aumento da punição (leia mais ao lado). Além disso, conforme a nova lei, quando o crime é praticado contra pessoas acima de 60 anos, a pena pode ter acréscimo de um terço à metade.
A polícia já pediu a prisão preventiva de Severino Pimentel, que tem passagem por lesão corporal leve após briga de bar entre os anos de 2008 e 2009. Todavia, a maior preocupação do delegado é que o homem não tem família nem amigos na cidade, fato que torna a busca mais difícil. Portanto, a polícia conta com a ajuda da população.
Serviço
Quem tiver informações sobre o paradeiro de Severino, basta entrar em contato com a PM pelo 190 ou com a Polícia Civil através do 197.
Feminicídio
O feminicídio passou a ser considerado hediondo após a presidente Dilma Rousseff sancionar a lei 8.305/14, que modifica o Código Penal e inclui o crime entre os tipos de homicídio qualificado. O texto prevê aumento da pena de um terço à metade, se o assassinato ocorrer durante a gestação ou nos três meses posteriores ao parto, se for contra adolescente menor de 14 anos, adulto acima de 60 anos ou pessoa com deficiência. A pena é agravada quando o crime for cometido na presença de descendente ou ascendente da vítima.
Conforme o JC já noticiou, o primeiro caso de feminicídio na área do Departamento de Polícia Judiciária do Interior 4 (Deinter-4), que abrange 89 cidades da região de Bauru, ocorreu no dia 12 de março deste ano, em Macatuba (46 quilômetros de Bauru). Três dias depois, mais uma ocorrência, desta vez, em Bariri (56 quilômetros de Bauru). Em Bauru, até anteontem, conforme a reportagem apurou, havia apenas uma tentativa de feminicídio, no dia 18 de abril, na Vila Santa Clara.
Vítima já havia sido ameaçada pelo ex
Com as mãos ainda trêmulas de nervoso, uma amiga de 66 anos, que presenciou o crime, lembra das vezes que ouviu a vítima reclamar do ex-namorado.
“Ela reclamava que ele vivia a perseguindo, seja na ginástica, na igreja e nas caminhadas. Ele tinha muito ciúme, era uma pessoa pegajosa e não aceitava o fim do relacionamento. Sempre a ameaçava, mas ela tinha um coração muito bom, não acreditava que ele fosse matá-la”, lamenta a mulher, que pediu para não ser identificada.
Na noite do crime, o pedreiro, inclusive, teria manifestado sua vontade de matar Antônia ao longo do baile.
“Ela não quis dançar com ele. E ele ficou bravo, frustrado, chegou até a falar que iria acabar com ela”, comenta a amiga. “Mas não achávamos que ele realmente teria coragem de fazer algum mal. Tanto que ela ficou com dó e até deu carona para ele”, detalha.
No caminho de casa, o pedreiro teria gritado algumas vezes com Antônia por não tê-lo deixado seguir no banco da frente do veículo. “Quando chegamos, ele a convidou para entrar dizendo que iria devolver algumas fotos da época que namoravam. Nós entramos e ele trancou o portão. Enquanto esperávamos num corredor, ele saiu do quarto com a arma e já disparou no peito dela”, narra a amiga, que conta ter saído correndo pedindo por socorro e se trancado na casa de uma vizinha. “Achei que ele também fosse me matar. Enquanto corria, ouvia os outros disparos e ele falando que agora nós poderíamos chamar a polícia”, lamenta a mulher.
Antônia é descrita como uma pessoa reservada, alegre e humilde. Viúva há anos, adorava frequentar bailes da “melhor idade”. “Era como uma irmã, conversávamos todos os dias. E ela sempre me ajudava com o que eu precisava, era uma pessoa muito bondosa. Vou sentir saudades”, finaliza.