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O "crucifixo comunista"

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O presidente boliviano Evo Morales deu de presente ao papa Francisco uma foice e um martelo com a imagem de Cristo crucificado. De pronto, o mimo foi tratado como uma gafe diplomática. O “crucifixo comunista” – como foi imediatamente batizado nas redes sociais – tinha sido feito pelo padre jesuíta Luís Espinal Camps, nascido na Espanha. O missionário foi torturado e executado com 12 tiros em 1980, depois de sequestrado pela ditadura do general Luís Garcia Meza. No dia em que chegou à Bolívia, o papa Francisco parou no local em que o corpo do padre Espinal foi deixado e rezou por ele. O porta-voz do Vaticano amenizou o desconforto de Francisco, justificando que o objetivo não foi promover uma ideologia específica, mas promover o diálogo aberto entre a Igreja e o comunismo.   

Existe desde o século passado uma corrente que prega o “marxismo cristão”, com o aproveitamento dos pontos comuns em defesa dos pobres e oprimidos, desprezando-se a crítica ideológica do comunismo ateu à religião, como “ópio do povo”. Francisco, nos foros públicos tem reiterado a opção da Igreja pelos pobres, “cada vez mais pobres”. As desigualdades são maiores do que nunca e os bens necessários para sustentar a vida humana são cada vez mais inacessíveis. Francisco, que é um crítico da economia global desumanizada e controlada pelas grandes empresas, viu-se obrigado a mudar de roupa e preparar-se num restaurante da cadeia de fast food Burger King, por falta de espaço no local da missa campal, em Santa Cruz de la Sierra.  São incidentes de uma viagem que não deslustram confissões de humildade. O primeiro papa latino americano da história pediu perdão pelos muitos pecados cometidos pela Igreja, em nome de Deus, contra os povos nativos, durante a chamada conquista da América.

A Bolívia foi um dos países mais castigados e explorados pelo colonizador. O país detinha ricas jazidas de prata. A preciosidade foi usada pela Espanha para enriquecer, financiar a expansão do seu império e, também, para encher os cofres do Vaticano. O papa é decididamente político, com viés socialista. Diferente do seu antecessor Bento XVI que considerava, tacitamente, o capitalismo como o sistema mais capaz de produzir o bem-estar geral apesar das suas imperfeições. Francisco chega a navegar na contramão ao atacar o ícone da sociedade de mercado, a propriedade privada que não pode estar acima do bem comum, quando é precisamente ele que o origina. Francisco não se preocupa, nem um pouco, em disfarçar suas abordagens às mazelas globais com linguagem religiosa, como fazia João Paulo II.

Todos nós somos pecadores. Também é preciso ver o lado cheio do copo meio vazio. Está mais do que comprovado, na prática, que a propriedade privada é que estimula as pessoas a produzir e a preservar. O que é do Estado é tido como “terra de ninguém”, habitualmente pasto da negligência e do saque dos que não se sentem envolvidos. As terras devolutas e as empresas estatais são exploradas e roubadas, por serem consideradas do alheio.  É correto dizer-se que a poluição origina mortes prematuras (encíclica Laudatio si). Muitos argumentam que as mudanças climáticas estão por trás dos efeitos nocivos e não o crescimento econômico, como quer o papa. Por outro lado, o cenário subjacente é de incremento substancial da esperança de vida e da saúde como consequência do desenvolvimento da sociedade de mercado.A expectativa de vida aumentou devido à diminuição das doenças cardiovasculares nos países ricos, e à menor mortalidade infantil nos pobres.  O problema ambiental vem sendo equacionado pelos países ricos, e se deteriora ainda mais onde não funciona a livre economia. A China, por exemplo, é um dos países mais poluentes.

Um estudo recente do Banco Mundial indica que o número de pessoas que vivem com menos de 4 reais por dia – o limiar da pobreza – diminuiu em mais de 30% desde 1981. O ONU  - pouco suspeita de ser capitalista – confirma a queda dramática na pobreza e chega a dizer que será completamente erradicada nos próximos 20 anos, se o progresso se mantiver no nível atual.

É preciso compreender o pessimismo do papa Francisco. Não se combate injustiças a base só de reza. Preferível um chefe da Igreja antenado com o mundo, mesmo que este destile um esquerdismo antiquado. Como disse no Brasil o ocupante da cátedra de São Pedro, os jovens têm que ser revolucionários. O papa também.

O autor é jornalista e articulista do JC

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