A reza deu certo. Após dois dias seguidos de tempo chuvoso, os organizadores, apesar de confiante, temiam que as águas atrapalhassem a 64ª edição do Churrasco Vicentino de Bauru. A tradição, no entanto, não foi quebrada e o sol compareceu à festa, levando junto 45 mil pessoas, repetindo o recorde batido no ano passado.
Presidente da Vila Vicentina, José Roberto Pires Machado revelou que, durante a madrugada deste domingo, acordava para conferir as condições do tempo pela janela. “Depois do sufoco, colhemos os frutos”, comeu.
A quantidade de carnes vendidas ao longo do dia superou à da edição anterior. Somando a bovina, de frango, linguiça e sardinha, foram 4,5 mil quilos consumidos.
“A sardinha chegou a acabar. Os sonhos doados pelo Lions Clube também fizeram muito sucesso. Mas uma das maiores filas era para as raspadinhas de gelo. O balanço é extremamente positivo, inclusive porque não tivemos uma intercorrência sequer”, conta José Roberto.
Antes do meio-dia, o movimento já era intenso na Vila Vicentina. Participaram da festa pessoas de todos os cantos da cidade, de outros municípios da região e dos mais diversos credos e classes sociais. As histórias de algumas delas, inclusive, se misturam com a do abrigo de idosos.
É o caso de Rosane Bragaio, 50 anos, e José Azarias de Oliveira, 66. Os dois se conhecem há cinco anos. Durante os três primeiros, foram namorados e, ao longo dos últimos dois, decidiram ser apenas amigos. O tipo de relação mudou, mas o afeto e a tradição de participarem juntos do churrasco, não.
“Eu não abro mão. Moro há 47 anos aqui (na Vila Engler, onde fica a Vila Vicentina). Desde sempre, vinha para o evento com meus pais, que já se foram. E, agora, venho com ele, que é uma companhia muito especial. A gente se conheceu no bairro, então existe um simbolismo importante nisso tudo”, conta a cuidadora.
Rosane comenta que, além de poder ajudar os idosos, faz questão de participar do churrasco por conta da carne saborosa. “É muito diferente das que a gente come por aí. Não dá para passar um ano sem. E eu venho para ficar até o fim da festa. Como é difícil encontrar banquinhos para sentar, já coloco uma roupa mais leve para fazer um piquenique na grama”.
Reencontro
O Churrasco Vicentino de ontem também proporcionou reencontros com o passado. O fotógrafo Luiz Fernando Kamiya, 37, participava da festa quando criança, até seus 10 anos.
“Depois de adulto, nunca mais tinha vindo. É um passeio muito gostoso para se fazer com a família. E o mais legal: tudo é muito parecido com mais de 20 anos atrás”, recorda.
Junto com a esposa Thays Rodrigues Kamiya, 31, Luiz Fernando levou as filhas Nicole Gabriely, 3, e Vitória Emanuely, 1. As pequenas também aproveitaram o programa e se divertiram com as pinturas faciais.
Visitantes de outra cidade
Não são apenas os bauruenses que fazem questão de aproveitar o Churrasco Vicentino. De ônibus, Jane Barduzi, 58 anos, e sua mãe, Diva Barduzi, 80, vieram de Agudos para aproveitar a festa.
“Essa carne é muito boa porque é molinha. Como minha tem um pouco de dificuldade para mastigar, ela adora porque é fácil de mastigar. Sem falar que é oportunidade de passarmos uma tarde de domingo diferente, convivendo e conversado com outras pessoas”, diz Jane.
Mesmo morando em outra cidade, as duas têm o hábito de semanalmente vir à Vila Vicentina participar dos bazares que acontecem às quintas-feiras.
Mãos à obra
Enquanto milhares de pessoas se divertem e ajudam a Vila Vicentina comprando os tradicionais espetos de churrasco, outras centenas são responsáveis por “fazer a coisa acontecer”. Além dos vicentinos, outros voluntários espontâneos e ligados a comunidades e entidades doam seu domingo e às vezes até outros dias que antecedem a festa.
Atuantes na paróquia Santo Antônio, Sávio Gomes, 57, e Amaro Mateus, 67, ajudam há quase uma década. “O espírito de colaboração é o quem me move. O voluntariado é algo que contagia. Não dá vontade de parar”, diz Sávio.
Amaro destaca a união de antigos amigos em prol do bem comum. “Todos os anos, vem a mesma turma. É sempre uma oportunidade de confraternização”.
Todo o dinheiro arrecadado no Churrasco Vicentino é revertido para a manutenção e ampliação do asilo, que existe há 75 anos e abriga, atualmente, 47 idosos.
| Samantha Ciuffa |
![]() |
| Um simpático casal de bonecos recebeu os visitantes na entrada da Vila Vicentina |
