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Entrevista da semana: professora Cleide Biancardi

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 8 min

João Rosan
A professora Cleide Biancardi passou pelas três fases da atual Unesp, desde Fundação Educacional até a encampação. Cleide - na foto ao lado direito, com o marido, Ismael Biancardi, em frente à casa da família, em Bauru

Conhecida em Bauru por ter sido diretora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp de Bauru, a professora doutora Cleide Santos Costa Biancardi dedicou boa parte da vida ao ensino da arte e ao estudo de importantes vertentes do segmento.

É casada com Ismael Biancardi, que conhece desde os 18 anos - a família do marido é uma das precursoras da indústria local no setor moveleiro, e marcou época na cidade com a loja Móveis Biancardi.

Cleide foi professora durante 26 anos da atual Unesp nas três fases do que hoje é o campus bauruense: na Fundação Educacional de Bauru (FEB), depois Universidade de Bauru (UB) e finalmente na Unesp, quando a UB foi encampada pela universidade estadual, em 1988.

Vice-diretora da Faac entre 1981 e 1984, na gestão que teve à frente Olício Pelosi, ela assumiu a diretoria da faculdade entre 1996 e 2000. Aposentou-se em 2001, e desde então participa da avaliação de qualidade dos cursos superiores junto ao Ministério da Educação (MEC) e do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, além de dedicar mais tempo à família.

Jornal da Cidade - A senhora nasceu e passou a infância em Bauru?
Cleide Biancardi - Na verdade eu nasci em Pirajuí (a 57 km de Bauru), mas vim para cá com apenas 1 ano de idade, então me considero bauruense também. Durante minha infância ainda fui várias vezes a Pirajuí, e na maioria das vezes íamos com o trem da Noroeste. Aliás isso é algo que me marcou muito, eu lembro que quando passávamos na Estação de Nogueira (distrito de Avaí), vinha sempre um vendedor de doce de leite e a gente conseguia comprar, e aquilo era a glória, era muito bom, até porque éramos pobres, não tinha dinheiro para nada. Depois, com a construção da Rodovia Marechal Rondon, ainda em pista simples, começamos a ir de ônibus também. Mas eu adorava viajar de trem, inclusive para São Paulo. Eu tenho muita saudade da ferrovia, e meu marido (Ismael) mais ainda, ele não se conforma com o destino que os trens tiveram no Brasil, porque em país desenvolvido trem é prioridade.

JC - A senhora conheceu seu marido com qual idade?
Cleide - Aos 18 anos. A família dele é tradicional, o meu sogro, Domingos Biancardi, foi um pioneiro no setor industrial moveleiro da cidade. Ele morava na rua 1º de Agosto, e eu na Duque de Caxias, e meu pai tinha uma alfaiataria na rua Batista de Carvalho, e a gente conhecia todos os comerciantes. De vez em quando eu e ele fazemos um exercício de memória para lembrar se a gente até já não tinha se visto antes, porque em Bauru todo mundo se conhecia naquela época.

JC - Aliás, a loja da família do seu marido (Móveis Biancardi) marcou época na cidade.
Cleide - Sim, na época que começamos a namorar eu fazia o curso normal. Nosso primeiro encontro foi no antigo Country Club, e o irmão dele, Irineu Biancardi, era vereador e ajudava muito o clube. Foi num piquenique no Country que conheci o Ismael. Como eu disse, na época eu estava estudando, no Instituto de Educação, e não fui lecionar logo que me formei. Acabei indo trabalhar com eles na loja, e nos casamos em 1964. O casamento seria em maio, mas por conta do golpe militar, em março, a situação do país estava bastante turbulenta e adiamos a data do casamento para setembro. Ano passado completamos 50 anos de casado, é uma história! Depois dessa fase, a loja passou uma fase bem complicada e eu acabei indo dar aulas.

JC - E como foi este começo de carreira no magistério?
Cleide - Eu comecei dando aula para adultos, em 1968, no Sesi, mas não gostei tanto. Depois fui dar aula para as crianças, na época o Sesi tinha algumas salas cedidas pelo Liceu Noroeste no Centro da cidade, e eu dei aula lá. Foi uma boa experiência lecionar para as crianças. Depois fui para o Estado, porém não como efetiva.

JC - E essa passagem pelo Estado, como foi?
Cleide - Parei de dar aula para crianças em 1971. Na época, eu já fazia o curso de Design Plástico na Fundação Educacional (FEB), na verdade já estava terminando, pois fiz parte da primeira turma, de 1969. Do meu tempo de Fundação, o Olício Pelosi e o João Bidu (que cursou Biologia) eram contemporâneos meus, participaram da mesma cerimônia de formatura, no BTC. E eu já terminando o curso, fui dar aula no Estado, na escola Xavier de Mendonça. O Nuno Cobra, que depois se destacou na preparação do Ayrton Senna, trabalhou comigo lá, como professor de educação física. Outros grandes nomes também estavam juntos, e fizemos muito pela escola, que em menos de quatro anos já era bastante conhecida em Bauru. O mais marcante foi o desfile do 7 de setembro de 1972, nas comemorações dos 150 anos da Independência do Brasil, foi um grande desfile que mobilizou toda a escola, em todas as áreas. Mas nunca fomos bem vistos por vários professores efetivos, e isso encerrou nosso ciclo.

JC - Depois acabou vindo o mestrado, doutorado e a carreira como professora universitária.
Cleide - Entrei no Mestrado em 1974, na ECA-USP, em São Paulo. Tive como orientador o professor Wolfang Pfeiffer. Foi uma fase excelente da pós da USP, hoje vejo que aprendi muito no mestrado. Nessa altura eu dava aula na Fundação, ingressei em 1976, e pouquíssimos professores tinham mestrado ou doutorado. Eu defendi a tese em 1981, o prazo era mais amplo do que hoje, e o Pfeiffer acabou ficando doente também. Ele queria que minha pesquisa fosse sobre o barroco, e para mim era complicado... Em São Paulo poucos pesquisam isso, e a gente aqui em Bauru era mais difícil ainda, aqui não tem absolutamente nada de barroco. Aí acabei indo para o mobiliário das igrejas, hoje já tem mais coisa sobre isso, na época não tinha nada. Ele me apresentou uma pessoa que tinha móveis da época colonial em São Paulo. Mas depois, a dona do apartamento teve problemas pessoais e foi para o Rio de Janeiro. Eu fiquei sem lugar pra pesquisar e sem saber o que faria àquela altura. Acabei indo pesquisar no Nordeste, para poder concluir o mestrado. No doutorado, dei sequência ao estudo e conheci praticamente todo o Brasil. E nos anos 80, ainda tive uma experiência como professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), primeiro como substituta, depois como titular, de forma paralela ao trabalho na FEB em Bauru. Eu ia para Vitória a cada 15 dias, fiz isso por quatro anos. Depois, quando a Unesp encampou a UB, optei por ficar só aqui.

JC - A senhora participou das três etapas do campus, desde a FEB até a Unesp. Como avalia a evolução dos cursos?
Cleide - A Fundação começou de maneira bem estruturada, em 1967, com a engenharia. Depois foram abrindo outros cursos e o prédio na Vila Falcão ficou pequeno, principalmente para os laboratórios. O então deputado federal Alcides Franciscato foi importante no processo de ampliação, conquistando recursos federais para a construção dos primeiros blocos do atual campus. A Fundação, sozinha, não conseguiria construir tudo. Houve depois a transformação em Universidade de Bauru (UB) e a encampação pela Unesp, e acho que foi a melhor situação, pois como Fundação dificilmente teríamos chegado ao patamar atual.

JC - A senhora foi diretora também da Faac, outro desafio dentro da universidade.
Cleide - Fui escolhida diretora em 1996. Era uma época difícil, com menos recursos ainda do que tem hoje. Conseguimos construir os principais laboratórios da Faac (que os alunos chamam de ‘Mundo Perdido’), era uma necessidade urgente. Na medida do possível, fizemos bastante. E isso sem deixar de dar aula, e acumulando a presidência do campus. Saí do cargo em 2000, e no ano seguinte achei que era o momento de aposentar.

JC - A partir de 2001, quando se aposentou, a senhora também fez avaliações de cursos para o MEC e o Conselho Estadual de Educação. Como vê o atual momento da educação superior no País?
Cleide - Houve uma abertura intensa de cursos privados, e mesmo que alguns não tenham a qualidade que se espera, em muitas localidades é aquilo que os estudantes podem ter, é a única chance de um jovem fazer uma faculdade. Um curso superior sempre muda a vida de uma pessoa, abre horizontes. Quanto à educação pública, as universidades estaduais e federais ainda têm um bom nível de ensino. O único aspecto complicado hoje é a seleção. A introdução dos diversos sistemas de cotas criou distorções, nem sempre entra o mais bem preparado, e não sei como isso será resolvido.

Perfil

Data de Nascimento: 09/08/1942 (72 anos)
Local: Pirajuí
Marido: Ismael Biancardi
Filhos: Fábio e André, e netos Mariel e Rafael
Time de coração: Corinthians
Música: Clássica e MPB
Filme: Sonhos, do cineasta Akira Kurosawa
Livro: “A Bíblia Viva”
Hobby: Leitura
Prato preferido: Risoto
Para quem dá nota 10: Para os professores
Para quem dá nota 0: Para a corrupção brasileira
Contato: cs-biancardi@uol.com.br

 

 

 

 

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