| Quioshi Goto |
| Eduardo Tolentino afirma que, atualmente, procedimento está menos invasivo |
Bauru já faz mais de uma cirurgia bariátrica, em média, a cada dia. A projeção é baseada no desempenho de clínicas de referência e também leva em conta que, hoje, o tempo de internação caiu – e muito – graças à evolução tecnológica constante.
“A cada ano surgem mais estudos comprovando sua eficácia e benefícios. A obesidade é uma pandemia. Estamos fazendo este tipo de cirurgia há 13 anos em Bauru. O número aumenta anualmente, só cresceu em todo este período”, diz Eduardo Curvelo Tolentino, cirurgião e gastroenterologista.
Ele próprio é um dos pioneiros nesse tipo de cirurgia na cidade, destinada (como é sabido) ao emagrecimento. A clínica de Eduardo Tolentino informa realizar uma média de até 30 intervenções cirúrgicas por mês.
Uma outra, que conta agora com o Hélio da Silveira Pires Jr., outro especialista em cirurgia bariátrica, também tem números expressivos e chega a 15 por mês.
As duas são uma espécie de “termômetro” do segmento na cidade e atendem a pacientes operados por meio de convênios e particulares.
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É preciso, ainda, considerar cirurgias realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2014, o Estado de São Paulo realizou, pelo SUS, mais de 1.700 intervenções. A Secretaria Estadual de Saúde, segundo sua assessoria, não sabe precisar quantas são feitas por região - mas sabe-se que Bauru está inserida nesse contexto. Há, ainda, outros cirurgiões em atividade, o que reforça a tese de aquecimento.
‘Nível brasil’
O número de cirurgias bariátricas feitas no Brasil era de 72 mil em 2012, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). De acordo com o Ministério da Saúde, apenas 6.029 foram feitas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Isso em todo o país.
Dois anos depois, só no Estado de São Paulo, foram feitos 1/3 dessas cirurgias.
Em 2014, o Estado de São Paulo realizou, pelo SUS, 1.734 cirurgias bariátricas. E a previsão da SBCBM é a de que o número total no País passe dos 100 mil registros entre 2016/2017.
Visivelmente
A escolha por esse método para emagrecer passa, como citado, por uma evolução tecnológica. “Com certeza muitos avanços da área médica aconteceram: hoje a cirurgia é muito menos invasiva, é feita por laparoscopia, a recuperação mais rápida... No início, o paciente chegava a ficar cinco a sete dias internado, hoje são praticamente dois dias. A cirurgia demorava de 4 a 5 horas 13 anos atrás. Atualmente, 90 minutos em média”, explica Eduardo Tolentino.
Vale lembrar que a laparoscopia é uma intervenção cirúrgica minimamente invasiva (leia abaixo). “Muitos preconceitos foram caindo, até mesmo entre médicos...atualmente uma boa parcela dos pacientes que opero já vem encaminhada pelos endocrinologistas, cardiologistas, ortopedistas”, relata também o cirurgião.
Outro fenômeno importante está no fato de que os resultados desta cirurgia são literalmente visíveis, e despertam o interesse de outros pacientes. “Quando um paciente anda pela rua, todos notam o emagrecimento e perguntam: ‘o que você fez?’ Tem vindo muita gente da nossa região operar aqui”.
Critérios
São bem estabelecidos e regulamentados pelo Conselho federal de Medicina. “São pacientes que se adequem aos critérios como obesidade grau 3 (isto significa IMC-índice de massa corporal maior que 40) ou pacientes com obesidade grau 2 (IMC entre 35-40) associados a outros problemas de saúde (as comorbidades)”, esclarece Tolentino.
Comorbidades mais comuns são hipertensão, diabetes, apneia do sono, dislipidemia (colesterol e triglicérides alto), além de problemas ortopédicos, sobretudo de joelhos e coluna”.
Entenda a laparoscopia
Usada primitivamente quase só para fazer diagnósticos, a videolaparoscopia atual permite colher material para biópsias e praticar intervenções cirúrgicas.
O médico faz uma pequena incisão na região a ser examinada ou tratada, por onde introduz o laparoscópio (aparelho por meio do qual irá visualizar e tratar a região abordada), que consiste em um fino tubo de fibras óticas através do qual pode visualizar os órgãos internos e fazer intervenções diagnósticas ou terapêuticas.
Outras pequenas incisões podem ser necessárias para introduzir os instrumentos cirúrgicos. Os instrumentos usados na videolaparoscopia são idênticos aos usados nas cirurgias tradicionais, só que mais delicados. Através desses instrumentos, no caso, o médico vai deixar o tamanho do estômago menor, desconectando uma parte dele, de forma que o obeso não consiga comer mais a mesma quantidade de antes.
Eles estão satisfeitos com as transformações
| Arquivo pessoal Aceituno Jr. |
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| Julita Siqueira: memória esportiva |
Julita Helena Siqueira é dessas pessoas que tem consciência de que nunca vai ser magérrima. Além de ter ossatura forte, tem um perfil atlético e foi durante muitos anos técnica de natação da Associação Luso Brasileira. A vida de bancária e sedentária a fez engordar. Mas é justamente esse perfil atlético que permite que ela não precise de cirurgia plástica.
A chamada “memória esportiva” já está em sua genética e, mesmo sem voltar a fazer atividade física - “tenho consciência de que preciso voltar e que a vida da gente é outra com um bom condicionamento” – ela exibe músculos e pernas bem torneadas.
E olha que já passou dos 40 anos. Os 30 quilos que deixou para trás - “Saí dos 118, 120, vim para 83 quilos e agora estabilizei nos 90/91” - a fazem ter outra qualidade de vida. “Não vou dizer que o pós-cirúrgico é fácil, mas agora é só alegria”, diz, lembrando de uma vitória – “hoje já sei a diferença da fome mesmo e da vontade de comer”. Já não consegue comer muito. “Outro dia fui num restaurante cujo prato principal é um filé à parmegiana.
Estou tão acostumada a saladas que na hora em que o filé chegou bateu o arrependimento – meu estômago já estava cheio de rúcula”, conta ela rindo. “Eu tinha que ter guardado lugarzinho para o filé. Me deu uma raiva... mas vale a pena. Sou outra após
a cirurgia”.
Emagrecer psicologicamente é necessário
Aprender a ‘pensar magro’ é uma das necessidades para que o processo todo do paciente seja mais eficaz e menos ‘tumultuado’ no dia a dia
A cirurgia bariátrica precisa ser vista como parte de um tratamento multidisciplinar de reeducação alimentar. “Para ter sucesso, é fundamental o paciente entender que a cirurgia faz parte de um tratamento, reeducação alimentar e atividade física são indispensáveis. Logo na primeira consulta, é importante enfatizar o papel das mudanças dos hábitos e estilo de vida. Para isto, trabalhar em equipe é muito importante: nutricionista, psicólogos, fisioterapeutas, educador físico, endocrinologistas desempenham um papel tão importante quanto o cirurgião” explica o médico Eduardo Tolentino.
Isso sem falar que, após a cirurgia bariátrica e a estabilização da perda de peso, muitos passam por cirurgia plástica, quando o excesso de pele decorrente do emagrecimento precisa ser retirado.
Mas o primeiro passo é, antes de enfrentar a cirurgia, passar por avaliação psicológica. Especialistas afirmam que pessoa obesa precisa estar com o lado psicológico muito bem resolvido.
Vale lembrar que, além do sedentarismo, muitas vezes o excesso de peso é resultado de alimentação inadequada ou decorrente de fatores emocionais que fazem com que, através da comida, a pessoa tente suprir carências, por exemplo.
Quem explica isso é a psicóloga clínica Deborah Celulare, especialista no atendimento de crianças e adolescentes obesos.
“Geralmente, o indivíduo com obesidade mórbida carrega consigo a compulsão alimentar. Normalmente, se inicia na infância, muitas vezes por questões emocionais, tais como ansiedade, cobrança dos pais, carência afetiva, perfeccionismo, entre outras coisas”, diz a médica.
Bullying e frustrações
| Alex Mita |
| Deborah Celulare diz que é preciso atenção com adolescentes |
Como grande parte da obesidade começa na infância ou na puberdade, ela lembra que as crianças acabam descontando na comida suas frustrações diárias.
“Daí a necessidade de mastigar, colocar para dentro o conforto de que elas necessitam, uma saciedade emocional, a ânsia de querer mais, sempre mais. Seria importante, nestes casos, que a criança ou o adolescente seja encaminhado para uma avaliação psicológica e acompanhamento também, uma investigação sobre a sua compulsão, para que assim sejam tratados os sintomas, trabalhando suas faltas ou excessos emocionais”. O mesmo, segundo especialistas, vale para adultos.
“É possível afirmar que os indivíduos que procuram pela cirurgia bariátrica foram crianças que sofreram bullying na infância e sofrem na adolescência, indivíduos que cresceram sendo hostilizados por estarem acima do peso, trazendo mais carga emocional negativa. Que não sabem conter ou controlar seus sentimentos, a baixa estima e distorção de sua imagem corporal”, diz a psicóloga Deborah Celulare.
Segurança
| Malavolta Jr. |
| Fabrício Gimenes: paciente precisa de avaliação psiquiátrica |
Já o psiquiatra Fabrício Bértoli Gimenes vai além. “Algumas faculdades de medicina e hospitais-escola de grande importância adotam como rotina para a prescrição de cirurgias bariátricas a avaliação psiquiátrica no pré e pós-operatório, a fim de proporcionar maior segurança ao paciente e a toda equipe multidisciplinar”.
Ele defende um diagnóstico psiquiátrico como fator preponderante para quem pensa em passar por esse tipo de intervenção.
Os diagnósticos psiquiátricos mais frequentes são aqueles relacionados aos transtornos de comportamento, como transtornos alimentares, compras compulsivas, abuso de substâncias, principalmente o álcool, sintomas depressivos. E, em casos assim, ao acompanhamento é mais do que essencial.
Pré e pós
“Havendo intervenção, farmacológica ou não, por parte do psiquiatra, o paciente deve ter acompanhamento antes e depois da cirurgia, de acordo com o planejamento terapêutico”, diz o psiquiatra Fabrício Gimenes. E ele diz que o antes é mais significativo. Isso porque não é frequente o aparecimento de sintomatologia psiquiátrica no pós-operatório. Ele também lembra que é uma intervenção de longo prazo, ou seja, o paciente não fica magro da noite para o dia.
“Para uma boa evolução cirúrgica, o paciente deve estar habilitado a participar do tratamento e do seguimento de longo prazo. O bom senso clínico nos conduz, entretanto, a uma conduta cautelosa em relação ao possível diagnóstico psiquiátrico e a prescrição da cirurgia bariátrica. Por isso, a avaliação psiquiátrica pré e pós-operatória é tão importante e deve ser realizada por um profissional qualificado”, sentencia.
Passo final: cirurgia plástica
| Douglas Reis |
| Marlon Alexies: procedimento está ligado ao incômodo do paciente |
Depois da cirurgia bariátrica, muitos pacientes precisam de cirurgia plástica para, após o emagrecimento, remover quantidade excessiva de pele. Marlon Alexies Azevedo Barbosa, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, é, entre outras especialidades um expert em reconstituir os corpos e diz que cada caso precisa ser avaliado entre médico e paciente.
Jornal da Cidade - Quando a cirurgia plástica reparadora é recomendada?
Marlon Barbosa - Após a estabilização da perda de peso naquelas (ou naqueles) pacientes que estiverem incomodadas com os eventuais excessos de pele resultantes do emagrecimento. Geralmente, aguardamos mais 6 meses após a estabilização das perdas. Em pacientes com uma boa indicação para a cirurgia bariátrica, a perda ponderal chega a atingir valores próximos a 40% do peso inicial. Invariavelmente, estes pacientes apresentarão excessos de pele, porém, a indicação desta e de outras cirurgias plásticas deve vir do incômodo que elas causam nos próprios pacientes. Um paciente pode apresentar perda ponderal de 40%, ficar com excessos de pele, mas isso não lhe incomodar e, portanto, ele não se submeter às cirurgias plásticas complementares.
JC - Em quanto tempo pode ser feita? Depois de um ano? Dois? Seis meses?
Marlon Barbosa - O tratamento do paciente com obesidade é sempre multidisciplinar e cada caso evolui de uma forma muito particular. Não há uma data pré-fixada para o paciente submeter-se à uma cirurgia plástica, porém, devemos respeitar a estabilização da perda de peso, para só assim indicar as cirurgias.
JC - As plásticas são cobertas pelo SUS ou pelos convênios?
Marlon Barbosa - A princípio, as cirurgias plásticas são cobertas pelo SUS e pelos convênios, mas o histórico recente é de que os pacientes têm enfrentado dificuldades para conseguir o acompanhamento da cirurgia plástica.
JC - Quais são as amais comuns? De abdômen? De mamas? Coxas?
Marlon Barbosa - Geralmente, as cirurgias mais procuradas são a abdominoplastia e a mamoplastia. Porém, na abordagem global do paciente com grandes perdas ponderais, ainda podem ser abordados o lifting de coxas, dos braços, a torsoplastia (cirurgia para retirada de pele das costas) e o lifting facial.
Lydiane Oliveira
| Arquivo pessoal Quioshi Goto |
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| Lydiane Oliveira: boas escolhas |
Em menos de um ano, a agente de saúde Lydiane Oliveira Moura viu desaparecerem 35 dos seus quase 100 quilos. Ela bateu na trave dos três dígitos no ponteiro. Chegou a 98 quilos. E é das que vai, sim, enfrentar nova cirurgia: a plástica. O “start” para enfrentar a cirurgia se deu com o apoio do marido, que num determinado momento até fez bullying contra ela, confessa.
É que ele comprou uma moto há dois anos e disse que ela não tinha corpo para andar de moto. Ela se sentiu desafiada.
E hoje é orgulho dele e do filho de 7 anos. Mas Lydiane ainda não está 100% satisfeita com a perda. Como tem 1m56 de altura, quer ainda chegar pelo menos aos 55kg para “enfrentar a faca de novo” e fazer as plásticas necessárias para poder usar um biquíni. E está consciente de que esta é
uma reprogramação mental, não apenas física. “Embora eu coma pouco agora, também aprendi, primeiro, a fazer atividade física, e a fazer escolhas.
Prefiro uma barra de cereal, frutas, suco natural em vez de chocolate, para nunca mais voltar a engordar”.
Adolfo Mola
| Arquivo pessoal Aceituno Jr. |
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| Adolfo Mola: outra pessoa |
Quem vê as fotos de Adolfo Mola, que aos 45 anos de vida deixou 54 quilos para trás, não acredita ser a mesma pessoa. O vendedor teve medo de não conseguir ver o filho crescer. Fumante compulsivo, com colesterol alto, aos 140 quilos ele se definia como “uma bomba relógio ambulante”.
“Eu ia explodir a qualquer momento. Todos os meus exames estavam comprometidos. Hoje não tenho mais nada”. Adolfo sabe que era gordinho desde os 2 anos de idade. Nunca na vida se vira magro. “Hoje, às vezes passo pelo espelho e não me reconheço”, conta, bem-humorado. Mesmo na adolescência, quando foi jogar basquete por causa da altura, ele não era magro. Hoje, Mola é adepto de corridas. Se orgulha de ter completado duas corridas, em trajetos de 5 e 6 km. Pratica pelo menos 6 horas por semana. Academia, para ele, é uma diversão. “E como de tudo, embora pouco. Tenho consciência de que posso malhar e vou queimar, e malho mesmo”.
Adolfo diz que deu sorte porque não teve nenhuma complicação da cirurgia. “Nem uma dor. Fiz há um ano e meio e deu tudo muito certo”. Sorte? Na verdade, ele é muito disciplinado. Seguiu à risca as prescrições médicas, e viu na atividade física a oportunidade para se manter bem.



