A influente publicação inglesa “Financial Times” comenta que o “Brasil parece um filme de terror”. O analista referia-se aos personagens do mundo político e econômico que mais parecem saídos do cinema fantástico. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, está marcado como uma espécie de Mãos de Tesoura, que não deu certo. Eduardo Cunha, presidente da Câmara, seria o vingador munido de uma moto-serra e disposto a não deixar nada de pé; Renan Calheiros, o Frankenstein, é produto de remendos, transposições de acertos políticos e de distribuição de benefícios para manter o poder. Lula parece fugido de um sarcófago para convencer o povo de que “a múmia está certa”. Dilma, catalisadora de todas as dores e desgraças é a versão feminina de “Nosferato”, de F.W. Murnau (1929). Revive o mito da morta-viva, profundamente rejeitada pelos brasileiros e considerada culpada pela corrupção na Petrobras, por 69% dos entrevistados em recente pesquisa. Como no expressionismo alemão, as formas arcaicas de condução da sociedade se sedimentam desde o Brasil Colônia, e numa suposta “escuridão cultural”.
Um dos desafios da atual política é recuperar a credibilidade em um ambiente tornado difícil pelo próprio desgaste político da presidente. Os ministros da área econômica engendraram aumentar impostos para aumentar a arrecadação e cortar gastos, estratégias que nos levariam a um superávit nas contas públicas de R$ 66 bilhões e 300 milhões, em 2015. Decorridos sete meses do ajuste fiscal, conseguiram economizar um décimo do que era preciso. Agora, com o ajuste do ajuste, os condutores da economia fazem cara de paisagem e confessam “com toda honestidade”, que algo mais factível deveria ser apresentado. O mercado respondeu de imediato com a queda das cotações na Bolsa e nova superdesvalorização do real diante do dólar. Reconheceu o ministro da Fazenda Joaquim Levy as deficiências de sua tesoura, cega de corte. Existe um nítido desequilíbrio estrutural entre as receitas e as despesas obrigatórias do setor público.
O superávit primário, capaz de estabilizar a dívida pública, ficou para o último ano do governo petista (2018). Ninguém acredita no ânimo de o governo cortar na própria carne. Se houvesse boas intenções o governo Dilma começaria por extinguir pelo menos metade dos 39 ministérios e dos 22 mil cargos de confiança. Como em “Nosferato”, que desenterra a cultura arcaica do fantástico, as velhas crenças do “é dando que se recebe” influenciam, ainda, a temporalidade brasileira.
A partir desse paradigma é que se desenvolve a “teoria da bosta seca”: quanto mais mexe, mais fede. Melhor deixar como está. Rompida a crosta seca ainda é merda úmida. Não se pode falar em impeachment para colocar no lugar Michel Temer, Aécio Neves ou qualquer outras das representações carcomidas que aí estão. Em democracia sequer importa muito que sejam todos de boa qualidade, mas que sejam, pelo menos, diversos e concorrentes e não tão iguais. “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os mesmos caminhos, que nos levam aos mesmos lugares” (Fernando Teixeira de Andrade). Quem sabe um dia chegue o tempo da travessia, sonhado pelo poeta. O dia de ousar, para não permanecermos às margens de nós mesmos.
A única contribuição nova para acabar com a impunidade no Brasil foi trazida pelo judiciário, com a delação premiada. Nos Estados Unidos, as leis anticorrupção há quase um século preveem a figura do “whistle blower” – o “tocador de apito”. O cidadão trabalha numa empresa que rouba o governo ou os consumidores, denuncia e pode habilitar-se a um prêmio de 10% a 30% do produto do roubo ou da multa aplicada. Ainda não chegamos a esta perfeição. Por enquanto, o benefício é o da diminuição de pena dos bagrinhos que se decidam em entregar os peixes grandes. Eles desvendaram os intricados caminhos da lavagem do dinheiro e do “como funciona” o propinoduto. No dia em que a Justiça reconhecer a função utilitarista do tocador de apito como benéfica para acabar com a roubalheira, em todos os setores da atividade econômica, as pessoas vão ter que pensar muito antes de enriquecer às custas do povo.
O autor é jornalista e articulista do JC