Bairros

Caso Drielly: 3 anos depois, resta só o espaço vazio no sofá

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Malavolta Jr.
Renata Brito e Luís Carlos lamentam: “nada apagará nossa dor ou compensará a falta dela”

Se estivesse viva, Drielly Carla Alves de Brito completaria 26 anos de vida nesta terça-feira (28). Mas, neste 28 de julho, resta à família Brito lembrar dos momentos felizes com a garota e torcer para que a Justiça seja feita. E logo. No último domingo, mais uma data triste, a morte de Drielly – que desnudou o caos da saúde pública em Bauru - completou  três anos. E o que mudou de lá para cá? As apurações do caso, que, hoje, se resumem a um processo de sete volumes com milhares de páginas na 4.ª Vara Criminal de Bauru, quase nada parecem ter caminhado desde a conclusão do inquérito.

Com vários quilos a menos e tomando 12 remédios por dia - cinco somente para dormir - após a morte da filha, Renata Cristina Fragoso Alves de Brito chora ao ver a imagem da garota. “Tanto tempo passou e ninguém foi punido. Nossa vida acabou e o descaso parece continuar. Eu não durmo, não tenho fome”, comenta a mulher, que, desde a morte faz acompanhamento psicológico.

Desempregado, o pai de Drielly também critica a morosidade. “Participamos de três audiências e até agora nada. Minha esposa vive em depressão. Nesse tempo, tive que trocar de emprego várias vezes. Queremos mudar de Bauru para tentar paz, mas, enquanto esse processo não terminar, não teremos como”, diz Luís Carlos de Brito, 48 anos.

“Temos outros três filhos, mas um não substitui o lugar do outro. O espaço da Drielly vai continuar vazio, nada apagará nossa dor ou compensará a falta dela”, lamenta Luís.

Andamento

Na esfera cível, os pais da garota aguardam a decisão de uma ação por danos morais e materiais no valor de R$ 800 mil, protocolizada na Vara da Fazenda Pública contra o Estado e o município.

Conforme o JC apurou, no dia 21 de julho deste ano, a fase de instrução da ação de indenização foi encerrada, mas a sentença ainda não foi proferida, já que ainda há prazo para alegações finais entre as partes.

Já na esfera penal, o juiz da 4.ª Vara Criminal de Bauru, Fábio Bonini, responsável pelo caso, informou que ainda aguarda o Ministério Público se posicionar para proceder ou não com a ação criminal. “Por enquanto, a Justiça está em stand by [a espera]. O MP [Ministério Público] entendeu a necessidade de colher novos elementos”, comenta Bonini. “Precisamos receber a denúncia formal para que o caso vire um processo, por enquanto o que temos é um inquérito”, afirma o juiz. “Se a denúncia for feita e o processo tramitar em condições normais, sem atraso para ouvir as testemunhas, em um ano, poderíamos finalizá-lo”, acrescenta Bonini.

Esta, inclusive, teria sido uma das últimas ações da promotoria criminal, que solicitou o posicionamento do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) em relação à ação disciplinar que apura a postura dos médicos que trabalhavam no Pronto-Socorro Central (PSC) na ocasião. Na época em que o fato ocorreu, o Conselho instaurou uma sindicância.

O processo em questão estaria em fase de instrução, aguardando oitiva dos denunciados, que seriam quatro médicos. O JC contatou o Cremesp para saber o resultado das apurações, mas o órgão não respondeu até o fechamento desta edição.

A reportagem também tentou falar ontem com o promotor criminal Júlio César Palhares, responsável pelo caso, mas ele está em férias, e o promotor que o substituía, ontem, não forneceu mais detalhes sobre o andamento do caso até o fechamento desta edição.

O caso

Divulgação
Drielly de Brito morreu em 26 de julho de 2012

Aos 22 anos, a universitária Drielly de Brito começou a sentir dores abdominais no dia 19 de julho de 2012 e procurou o PSC. Lá, ela recebeu medicação e foi liberada. Dois dias depois, realizou exames na UPA do Mary Dota e, com necessidade de internação, voltou ao PS para aguardar vaga no Hospital Estadual (HE).
A solicitação para internação clínica cirúrgica teria sido feita na madrugada do dia 25.

Na madrugada do dia 26, o estado da paciente foi agravado e ela precisou ser entubada. Nova vaga foi solicitada ao Estado, desta vez para internação em UTI. O leito foi liberado duas horas depois em Promissão, a 122 quilômetros de Bauru, mas o estado da paciente não comportava o transporte.

Às 6h do mesmo dia, o PSC voltou a fazer o pedido para internação no HE, que foi atendido pelo Estado às 7h, quando Drielly sucumbiu a uma pancreatite necro-hemorrágica.

Monti: ‘não tenho nada a comemorar’

O caso Drielly escancarou crise na Saúde do munícipio na época. Nos meses subsequentes à morte, algumas coisas mudaram na rede de saúde. “Lamento essa morte. Não tenho nada a comemorar, mas, do ponto de vista do funcionamento da rede, hoje temos uma Central de Regulação de Vagas regulada pelo Estado, e isso fez com que o sistema melhorasse. As esperas por internações diminuíram bastante”, avalia o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti. “Antes, tínhamos mais de 50 pessoas diariamente na espera. Hoje, essa média caiu para 20. Mas também depende do dia”, completa.

O secretário diz ainda que o tempo médio de espera até que a vaga para internação seja liberada “não passa de um dia”.  Nessa segunda (27), 24 pessoas aguardavam, na rede de urgência e emergência do município, vagas. “Os hospitais melhoraram e estão funcionando bem próximos a sua plena capacidade”, finaliza Fernando Monti.

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