Numa visita com um grupo de estudantes da Universidad de Salamanca do qual eu fazia parte, em julho de 1996, na entrada do Konnzentrationslager (Campo de concentração) de Dachau, perto de Munique, pude ler ‘Arbeit Macht Frei’ - o trabalho faz livre. A princípio não entendi o verbo macht e perguntei a uma senhora simpática que estava ao meu lado, ela era professora de um colégio em Munique e me explicou, metade em inglês e metade em alemão, que o verbo era machen e estava no imperativo, para segunda pessoa do plural, vós.
Seguindo a visita, me carimbaram um número com seis dígitos no antebraço, que era o número real de um indivíduo que ingressou em Dachau em 1942. A partir daí se instalou uma dor de cabeça monumental em mim que só piorou quando comprovei ‘meu’ destino. Ao chegar ao hotel esfreguei meu braço até ficar vermelho, tirei somente os sapatos e dormi uma noite cheia de pesadelos. Vinte anos se passaram e até hoje me lembro de cada instante desta visita não planejada e jamais desejada. A partir deste dia me interessei em estudar este desvio social e moral.
Nos cursos que ministro na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação tenho sempre trabalhado, pelo menos nos últimos cinco anos, o livro fundamental para qualquer jornalista que é Eichmann em Jerusalém, de Hannad Arendt. A filósofa judia cobriu para a Revista New Yorker o julgamento de Adolf Eichmann, ocorrido em Israel em 1961, e nele ela mostrou o perigo das ideologias raciais e, o que é pior, a conivência interessada de todos os envolvidos, alemães ou não, na sua implantação. Ser judeu, cigano, homossexual, deficiente, ou simplesmente opositor e não colaborador, era condição para ser tratado como inimigo e ser exterminado. Hannah Arendt foi proibida de defender seu segundo doutorado e de poder ser professora universitária e exilou-se nos Estados Unidos. Toda a sua vida criticou a Gleichschaltung, adaptação ou subserviência de seus colegas, que passou a classificar como ‘eruditos de manada’. No caso atual não aplico a palavra ‘erudito’.
Como professor com 23 anos de carreira e quase oito de Unesp, fico surpreso e envergonhado com a falência moral e ética que tenho presenciado no meu ambiente de trabalho. Infelizmente, sempre associo o fenômeno ao sistema político acima citado, através dos escritores e filmes que conheci, resenhei, entrevistei ou critique nas quase três décadas da minha vivência universitária. A atual agressão a um grupo de pessoas e a um colega professor, por serem negros, escrita num lugar que já vem sendo eleito pelos agressores como um ‘portal’ de ofensas, o banheiro do Departamento de Comunicação Social, é só mais uma das ações que já vem ocorrendo no nosso câmpus de Bauru.
Vários professores já foram ofendidos com cartazes e pseudo-veículos de comunicação como jornal-mural, informativos, entre outros. Um colega foi chamado de ‘coxeira’, pois seu sobrenome é Teixeira, um primor de metáfora, outro de Pink por sua militância, além de opção de vida, dentro da comunidade LGBT de Bauru. Eu recebi o codinome de Fidalgo - tenho muito orgulho de meu sobrenome, que me foi dado pelos meus lutadores familiares que abandonaram a Espanha Franquista e a Itália Fascista para procurar uma vida melhor, que efetivamente alcançaram pela força de seu trabalho e de seu caráter.
Na época em que as ofensas aconteceram, os colegas atingidos ficaram tristes, deprimidos e a maioria não se interessou em tomar qualquer providência, não foi o meu caso. Descontente com a falta de ação, busquei e obtive a tutela do Judiciário, como merece qualquer profissional. Nesta semana, vejo pelos e-mails institucionais que a direção, os colegas, os funcionários, todos da comunidade universitária estão pedindo apuração para os aviltantes fatos. Eu acho muito pouco e pergunto: quando vamos realmente criar uma comissão para julgar os atos antiéticos de colegas, funcionários e alunos. Existe gradação dentro das ofensas? Colar um cartaz ofendendo um professor com um codinome engraçado, denegrir a formação e a pesquisa de outro é menos grave do que ofender o seu grupo étnico, sexual ou religioso?
Devemos neste ano de 2015, que marca o final da Segunda Guerra Mundial, da derrota de um dos mais perversos regimes e ideologias que a humanidade já conheceu, pensar nas nossas atitudes e nas regras que regem a convivência em sociedade, que parecem que estão sendo novamente reescritas de acordo com a conveniência dos grupos que se colocam oportunamente no poder. Não temos o direito de errar repetidas vezes, a característica da humanidade é a sua tacionalidade que lhe concede um dom e um desafio: o livre arbítrio.
O autor é doutor em Comunicação (Audiovisual) pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid e atualmente professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp Bauru