Tribuna do Leitor

Na poeira do tempo

Maria da Glória De Rosa - Professora aposentada da Unesp, pedagoga, advogad
| Tempo de leitura: 3 min

Dia 27 de julho, minha cidade (Agudos) comemorou 117 anos. Meu pai veio da Itália para nela morar com apenas quatro anos de idade. Minha mãe, aos 10 anos, numa mudança predestinada de ares, parece ter vindo também para conhecer aquele que seria seu futuro esposo e constituir família, ter filhos e nela ficar fincar raízes. Éramos cinco irmãos, todos diplomados professores pela antiga Escola Normal Livre, dirigida pelas queridas irmãs alemães franciscanas de Siessen.


Formávamos uma família feliz, com pais laboriosos, que nos ensinaram a honestidade e pregaram valores que, com o correr do tempo, se não caíram em desuso, pelo menos foram banalizados e tidos como pieguice. Quem, nos dias atuais, valoriza a justiça, combate o preconceito, defende o desprotegido, respeita o professor, acredita no poder da fé?


Vivi numa época em que pouco se falava de violência, de iniquidade, de abuso aos mais fracos. A única história que ouvíamos a propósito de ladrão era sobre certo Meneghetti (acho que é assim que se escreve), que agia em São Paulo, capital, assaltando casas, pulando de um telhado para outro e aterrorizando pessoas. Referência para gatuno era só Meneghetti. Virou sinônimo. Na minha terra podia se sair na rua, brincar à vontade, a qualquer hora do dia ou da noite. Não havia meneghetti.


Que ninguém trouxesse para casa alguma queixa de professor. Para meus pais, o aluno sempre estava errado e a obrigação era acatar as ordens trazidas da escola. Desrespeitar professor era heresia. Desrespeitar os pais?! Nem pensar... Aos menorzinhos, era contado um caso meio cabeludo (desculpe o trocadilho) em que, um dia, um filho xingou os pais e – pobrezinho – nasceram-lhe pelos no seu corpo, o que lhe deu aparência de bicho. Hoje, os psicólogos de botequim diriam que isso é maldade e que criança que ouve esse tipo de conversa pode crescer traumatizada... Lorota de quem entende pouco de psicanálise. Nada como uma educação disciplinadora a apontar caminhos que fortalecem.


Hoje se fala num tal de feminicídio que é o abuso, a canalhice contra a mulher. A propósito, havia um fato, repetido por minha mãe até a exaustão, de uma moça que morava na região central da cidade e que foi vítima de uma calúnia. Prestimosa, trabalhadora, um dia foi vista trocando uma palavra da janela de sua casa com um rapaz que passara pela calçada. Algum mexeriqueiro deu com a língua nos dentes e encheu a cabeça do marido, que acabou com a vida da jovem, a facadas.


As histórias que escutávamos em casa, como lições de moral, eram sempre as mesmas, invariáveis e, de tão repetitivas, passaram a fazer parte de nosso imaginário.


Minha infância foi diferente da infância das crianças de agora. Os tempos hoje são outros, sim senhor! Como dizia Cecília Meirelles, “minha dor é só comigo”. Com propriedade versejou: “Ai, se ouvísseis o que digo, entre essas quatro paredes... Mas o tempo é vosso amigo, que não me ouvis nem me vedes”. Saudosos anos que não mais retornam. Eram bons, eram ruins? Clarice Lispector responde: “O tempo tenta sequestrar meu sorriso, mas resisto como uma criança com medo da mãe ao ralar o joelho. Engulo o choro para não doer mais.”

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