| Fotos: Malavolta Jr. |
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| Para Juarez, Unesp precisa intensificar a presença da temática negra em ensino, pesquisa e extensão |
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| Em pé, as 100 pessoas que participaram da reunião aplaudiram discurso do professor Juarez |
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| Diretor da Faac, Nilson Ghirardello detalhou ‘reação’ da diretoria |
De maneira inédita, a Congregação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru realizou uma reunião aberta, nessa quinta-feira (30), para debater a presença do racismo dentro da instituição. Cerca de 100 pessoas, entre professores, estudantes, diretores e representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), participaram das discussões, que duraram cerca de três horas.
Em síntese, o pedido é pela mudança de postura da universidade diante da comunidade negra – e, em especial, em relação aos alunos que, após a implementação da política de cotas sociais e raciais, em meados de 2013, vêm se tornando cada vez mais numerosos dentro do câmpus.
“A universidade não pode ser espaço apenas de reprodução de um conhecimento velho, apodrecido, conservador. Ela precisa ser reinventada. Não podemos aceitar que a universidade continue a ser branca, reproduzindo um conhecimento branco. Ela precisa atender às necessidades da sociedade brasileira que, lamentavelmente para os racistas, não é branca”, pontua o coordenador do Núcleo Negro da Unesp para a Pesquisa e Extensão (Nupe) e chefe do departamento de Comunicação Social da Faac, professor Juarez Tadeu de Paula Xavier.
O encontro de ontem foi provocado pelas inscrições de conteúdo racista, conforme o JC noticiou, encontradas em dois banheiros do câmpus, na semana passada, tendo como um dos alvos, inclusive, o próprio professor. Em paredes e portas, havia frases como “Unesp cheia de macacos fedidos”, “Negras fedem” e “Juarez macaco”.
Para Xavier, além de encontrar os responsáveis pelas inscrições de ódio, a universidade precisa abrigar, de maneira sistemática, os temas de interesse das minorias em suas atividades de ensino, pesquisa e extensão. “Não é possível pensar na produção do pensamento, na inovação tecnológica e da ciência se não encararmos o desafio histórico de superar as contradições envolvendo gênero, classe, raça e orientação sexual. Uma universidade que não se propõe a fazer isso é tecnicamente imprestável”, opina.
Sem representatividade
Alunos que participaram da reunião também foram enfáticos ao destacar que o debate precisa chegar às salas de aula como forma de conscientização, já que os participantes de encontros como o de ontem já são sensíveis à causa. Estudante de psicologia e membro do Coletivo Negro Kimpa, grupo formado por alunos da Unesp para discutir questões pertinentes aos afrodescendentes, Júlia Conceição, 20 anos, destaca que o preconceito existe também entre professores e que a inexistência de discussões em sala sobre o protagonismo negro reflete o quanto este grupo racial segue excluído da universidade, mesmo estando dentro dela.
“Tenho amigas do quinto ano do curso que relatam nunca terem tido a oportunidade de debater, na aula, questões raciais na psicologia. E nem mesmo o movimento estudantil é representativo para os alunos negros. Machismo e racismo foram pouquíssimas vezes discutidos”, lamenta.
Apesar da política de cotas, hoje a universidade conta com apenas 3% de alunos afrodescendentes, o que faz com que estudantes como Letícia de Maceno, 21 anos, do curso de jornalismo, não se sintam representados. “E isso se agrava porque quase não temos referências, quase nenhum professor negro. Na Faac inteira, o Juarez é o único. A gente luta para estar na universidade, mas não se sente acolhido. A sensação de que não deveríamos estar aqui é permanente”, lamenta.
Diretoria lista 10 ações
Após a reunião de ontem, a diretoria da Faac listou dez medidas a serem discutidas e possivelmente adotadas para combater o racismo dentro do câmpus da Unesp. Entre eles, está uma manifestação de repúdio a ser elaborada pela Congregação e encaminhada à Assembleia Legislativa e ao Conselho Universitário, bem como a realização de um novo evento, maior, para voltar a debater o rema.
O Nupe, coordenado pelo professor Juarez Xavier, também informou que irá encaminhar o caso mais recente de racismo dentro da Unesp ao Ministério Público, para que o órgão pressione a universidade a firmar Termos de Ajuste de Conduta (TAC) com o objetivo de inserir conteúdo pedagógico com a temática afrodescendente em suas atividades de ensino, pesquisa e extensão.
OAB na comissão
Também ficou definido que um representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – possivelmente o coordenador da Comissão do Negro e de Assuntos Discriminatórios, Antonio Carlos da Silva Barros, que participou da reunião, nessa quinta – irá acompanhar a comissão de apuração, composta por um funcionário e dois professores, formada no último dia 27 para investigar a autoria das inscrições racistas. “Acreditamos na possibilidade de identificar quem fez as inscrições, embora existam algumas dificuldades, como o fato de não termos câmeras no local. Mas a universidade oferecerá todos os meios possíveis para rastrear a autoria do crime”, observa o diretor da Faac, Nilson Ghirardello, destacando que o prazo inicial para a conclusão dos trabalhos é de 30 dias.
De antemão, a OAB ofereceu uma urna de sua Ouvidoria, que poderá ser instalada no câmpus para que alunos depositem denúncias anônimas que possam dar pistas sobre a identidade do responsável pelas pichações. A Ouvidoria da Faac e da Unesp também estão abertas a atenderem estudantes que tenham quaisquer informações que possam contribuir para as investigações.


