| Fotos: Douglas Reis |
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| Família da vítima, que já havia comprado material para subir muro da casa, está revoltada com a morte do idoso |
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| Crime premeditado: Robson “Robinho” Ribeiro de Matos e Marcelo Barbareli, o Zé Loko, que já trabalharam para Dirceu, sabiam que a vítima andava com dinheiro na camisa |
Morreu nessa sexta-feira (31) de manhã, exatamente uma semana após ter sido brutalmente agredido por dois assaltantes em sua própria casa, o barbeiro Dirceu Bento, 78 anos. O idoso foi encontrado desacordado na cama pelo filho, na Vila Independência, em Bauru. No fim da tarde, o laudo necroscópico do IML confirmou nexo causal entre as agressões e a morte.
Acusados do crime covarde, Robson “Robinho” Ribeiro de Matos e Marcelo Barbareli, o Zé Loko, ambos de 33 anos, detidos na última terça-feira, tiveram prisão preventiva decretada ontem. Com a morte da vítima, a Polícia Civil instaurou inquérito suplementar e o apresentou ao Ministério Público (MP) como latrocínio (roubo seguido de morte).
A tese foi confirmada no fim da tarde, por meio de exame necroscópico, solicitado pelo titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja. O episódio causou revolta na família e amigos do idoso, que também associam a morte dele ao espancamento.
Conforme o JC noticiou, desde que foi covardemente agredido e teve o rosto deformado pelos bandidos, Bento entrou em forte depressão. O barbeiro passou os últimos dias sentado no sofá da casa em que morava com o filho, que fica junto da barbearia, onde o crime ocorreu.
A morte dele acendeu novamente a discussão em torno da impunidade diante da criminalidade, uma vez que os assaltantes têm diversas passagens criminais (Marcelo Barbareli, inclusive, já tem um latrocínio nas costas) e permaneciam soltos. A dupla, inclusive, já havia prestado serviços à vítima.
O caso, que havia sido registrado como morte suspeita, mudou para latrocínio no fim da tarde. “A Polícia Civil solicitou uma série de quesitos do exame necroscópico. No fim, ele apontou que houve nexo causal entre as lesões e a morte ontem. Agora, se torna um crime hediondo”, relatou Granja.
Havia suspeita inicial de um infarto, porém, o laudo confirmou traumatismo craniano. “Ele estava com hematomas nas pálpebras, lesão nasal e edemas nas mãos e nos dedos. Tinha também hematoma no couro cabeludo. As lesões teriam sido causadas por um instrumento contundente. A vítima teve, segundo o exame, um edema cerebral difuso e uma hemorragia discreta na base do crânio”.
Com isso, Granja enviou representação ao Ministério Público e afirmou que indiciará Robson Ribeiro de Matos e Marcelo Barbareli, presos pela PM na terça após serem reconhecidos em imagens de câmeras de imóveis vizinhos, por latrocínio.
A dupla já cumpria prisão temporária de cinco dias (até domingo) por roubo qualificado na Cadeia Pública de Avaí.
Bento era viúvo e deixa quatro filhos, cinco netos e um bisneto. O sepultamento será hoje, às 9h, no Cemitério da Saudade.
O crime
Os bandidos entraram pela janela dos fundos da casa por volta das 17h. A vítima foi golpeada várias vezes na cabeça e nos braços, ao negar entregar a quantia de R$ 500,00 que estava no bolso de sua camisa. Ele só foi encontrado pelo filho horas depois, caído no chão da cozinha.
Segundo Kleber Granja, os bandidos já haviam prestado serviço para o idoso. “A vítima reconheceu o Marcelo como sendo o agressor. Robson foi quem o segurou. Os dois são do bairro, já capinaram terreno para ele e sabiam que o idoso andava com dinheiro no bolso”.
Na quinta, o JC fez ampla reportagem sobre crimes contra idosos. Ao menos dez pessoas de idade avançada foram vítimas de criminosos nos últimos cinco dias.
‘Espero pena justa diante do estrago que causaram para a nossa família’
Em frente à residência de Dirceu Bento, na calçada, um monte de areia e pedras. O material foi comprado pelo filho dele, Jeanei Bento, 48 anos, para subir o muro da casa e oferecer mais segurança ao pai. A reforma, agora, parece nem fazer mais sentido e a revolta pela morte já tomou conta dos familiares.
“Espero uma pena justa diante do estrago que esses criminosos causaram na nossa família. Meu pai morreu devido às agressões, pois o comportamento dele mudou bruscamente”, desabafou Jeanei, que encontrou o pai já sem vida, por volta das 7h.
“Fiz o café e, quando cheguei no quarto, percebi que ele não estava respirando. O triste é que meu pai tinha expectativa de retomar as atividades na barbearia e eu, a esperança dele vencer este trauma”.
Amigo de longa data, o tenente-coronel da PM Jorge Duarte Miguel, 51 anos, cortava cabelo com Bento há 21 anos. “A gente fica chateado com a defasagem do nosso código penal e limitações das leis que, infelizmente, mantêm os bandidos nas ruas”, critica.
Uma vizinha, que preferiu não se identificar, conhecia o idoso há 37 anos. “Uma pessoa sensacional e carinhosa com as crianças. Minha filha de 10 anos o chamava de vovô Lelo. Todo mundo está revoltado”.
Saúde investiga
Segundo a família, no dia da agressão, Dirceu Bento foi atendido no PS Central e a equipe não teria solicitado exames mais detalhados. Após a morte e a divulgação do laudo, aumentaram os questionamentos. Diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Sabbag informou que iria analisar a ficha de atendimento antes de se pronunciar.
Vá com Deus, seu Lelo...
| Alex Mita |
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| Dirceu Bento era dono de uma das barbearias mais antigas da região da Vila Independência |
“Você me arranja uns clientes?”. O pedido foi feito entre as poucas palavras que Dirceu Bento, carinhosamente chamado de Lelo por amigos e familiares, trocou comigo e com o repórter fotográfico Alex Mita durante uma entrevista na casa dele, dois dias antes de morrer.
Com a voz trêmula, mas ainda grossa e contundente, ele manifestava nessa simples frase sua vontade de viver e continuar trabalhando.
Barbeiro desde 1960 na cidade, seu Lelo atendeu de coronel a faxineiro na barbearia que funcionou na quadra 2 da Virgílio Malta, no Centro de Bauru. E, das centenas de amizades que fez, uma dezena delas ainda cultivava como clientela no estabelecimento improvisado na sala de sua casa, na Vila Independência.
Naquela tarde em que o entrevistei, seu Lelo, que era considerado pelo filho uma pessoa ativa e forte, parecia frágil.
Por todo o tempo, permaneceu cabisbaixo, como se estivesse decepcionado consigo mesmo, por perceber, talvez, que os efeitos das pancadas demorariam a passar. Ou como se, naquele exato momento, ele tivesse notado que o tempo, generoso até então, havia passado. E levado consigo a força e saúde que restavam daquele pai de família que, com seu quase um metro e oitenta de altura, venceu inúmeras batalhas para criar os filhos e superar a perda da esposa. Ferido por fora e por dentro, Dirceu se via, agora, dividido entre um sofá e um quarto. Depressivo, sem vontade de andar, falar, sem fome e, por fim, sem sono.
Foi depois de quase uma semana de pesadelos e insônias, provocadas pelas dores e o trauma, que seu Lelo finalmente conseguiu descansar em paz.
Deitado em sua cama e com semblante tranquilo, ele se foi, mas carregando em seu rosto e corpo as marcas da violência, como quem não vai esquecer. Talvez, com o desejo de poder viver em um lugar melhor, onde tenha mais respeito e possa tirar uma soneca em casa de portas abertas ou sem se preocupar com o tamanho do muro.



