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Entrevista da Semana: irmãos sobre duas rodas

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Éder Azevedo
Irmãos mantêm, há meio século, uma tradicional revenda de motos na cidade e têm ‘no sangue’ o amor pelas duas rodas

Pode-se dizer que os irmãos Pedro Gonçalves Cardoso, 74 anos, e Elias Gonçalves Cardoso, 72, são desses homens à moda antiga de um tempo em que a ética, o respeito e a palavra contavam mais do que ter posses. Eles são dessas pessoas que valorizam muito mais o  SER em vez de TER. Mas também pode-se dizer que são dois homens antenados com os tempos modernos e têm a cabeça aberta para entender as modificações da sociedade e, especialmente, do comércio.

Se assim não fosse, não teriam comemorado recentemente os 51 anos da empresa Supermoto  Honda. Em tempos incertos em que as empresas abrem e fecham num piscar de olhos, não é um feito qualquer alcançar meio século de sobrevivência com uma rede de revendas, porque o trabalho deles não fica restrito à matriz bauruense.

Eles avançaram pela região com lojas em Pederneiras, Lençóis Paulista e Pirajuí. E orgulham-se de ter uma empresa que funciona como uma família. Além de dividir os negócios (ou somar, como preferem), os irmãos têm o amor pela velocidade e pelas motocicletas como ponto comum. Foram pilotos e disputaram muitas provas. “Somos do tempo das corridas de lambreta, de passar seis horas numa competição. Na moto, ganhamos alguns primeiros lugares”, lembra Pedro.

Jornal da Cidade - Os dois vieram praticamente juntos para Bauru?
Pedro - Sim, viemos jovens de Iacanga. Minha mãe teve 11 filhos, sete homens e quatro mulheres, não dava para ficar todo mundo lá, não ia dar certo todo mundo amontoado. Cada um, assim que cresceu, procurou seu rumo.
Elias - Fiz um curso de mecânica no Senai, e a partir daí montamos uma oficininha na rua 7 de Setembro. Ali foi nosso começo, nos anos 60.

JC - E como surgiu a Supermoto?
Pedro - Compramos a loja com o nome e tudo. Ela existia desde 1955. Compramos em 1964. Hoje estamos no meio da quadra na rua Araújo Leite (no centrão, entre a Primeiro de Agosto e a Batista de Carvalho), mas inicialmente era um ponto pequeno na esquina.
Elias - E trabalhamos juntos até hoje. Deu certo. Foi em 1972 que viramos revendedores da Honda. Compramos quatro motos. Depois de vender compramos mais duas, depois mais três e assim foi.

JC - E como fazer para uma parceira entre irmãos dar certo, quando se vê tanta disputa em família nos dias de hoje?
Pedro - Não é difícil. É só ter paciência. Procurar um ouvir o outro, dialogar.
Elias - Eu encaro as relações com muita naturalidade. Basta ter tolerância.

JC - Vocês também tinham o gosto pelas competições sobre duas rodas?
Pedro - Sim, com certeza. Dirigimos muito por essas estradas afora.  Foram muitas as competições e ganhamos alguns primeiros lugares. Sou do tempo das corridas de lambreta, íamos correr em Iacanga, Agudos, todas as cidades da região. Foi bom. Mas uma hora a gente sabe que tem que parar. A gente constitui família, a vida vai mudando.

(Neste momento da entrevista eles mostram com orgulho uma foto histórica, dos anos 70, ao lado do “Paçoca” - Edto Pereira -, competidor que virou preparador de kart na capital. Contam que passaram pelas mãos do amigo alguns pilotos de atuação internacional, como Hélio Castro Neves.)

JC - E como eram as esposas com as competições?
Pedro - O problema é que eu gosto também de pescaria, e daí já viu, né?! Ia com os amigos para o Pantanal, passava semanas por lá, disso ela não gostava muito, não.
Elias - Bom, não teve jeito, comigo ela teve que aceitar minha paixão pelas motos, e para piorar (risos), ainda tive o filho que herdou o mesmo gosto.

JC - De fato, Marcel Sona foi um grande piloto...
Elias - Jovem ainda, antes dos 15 anos ele já estava competindo.  Nos anos 2000, entre 2005 e 2011,  venceu inúmeras provas do campeonato de Supermotos. Acumulou muitos títulos da Supermoto.

JC - Vocês dois se casaram na mesma época?
Pedro - Demorei mais, o Elias é que foi apressadinho (os dois riem juntos). Casei com mais de 30 anos, com Maria Antonia Loge Cardoso. Tivemos quatro filhas e hoje já tenho seis netos com idades entre 6 e 16 anos.
Elias - Eu casei logo, aos 19/20 anos, e estou casado há mais de 50. Tivemos um casal de filhos e hoje tenho netas e duas bisnetas.

JC - E como está a vida com os netos?
Elias - É ótimo... encaro as crianças como a continuação da vida, da família.
Pedro - É uma convivência bem diferente da dos filhos. No tempo deles não sobrava tempo, a vida era mais corrida, agora é mais desfrutada.

JC - Se fossem ficar contando todas as histórias daria um livro...
Elias - Eu já tenho esse livro escrito, com nossas memórias, com minhas experiências, ensinamentos, é só questão de organizar e editar. Mas de curioso mesmo, e posso  provar, é que me arrisquei até sendo piloto de “Globo da Morte” do Circo Vostok (e exibe a foto). Foi uma grande loucura. Depois do espetáculo, todo mundo vinha me parabenizar no final da apresentação, mas na verdade ninguém sabia o quanto eu estava me desmanchando por dentro (risos).

JC - Vocês receberam reconhecimento público pelo trabalho da empresa?
Pedro - Sim, fomos “intimados” a ir para os Estados Unidos, em Las Vegas, quando nos encontramos com o criador da Honda, Soichiro Honda. Ele saiu do Japão e foi lá nos encontrar, recebemos um prêmio pelo nível de satisfação dos nossos clientes. Também fomos convidados a conhecer a fábrica da Honda no Japão.

JC - O que vocês fazem para manter a fidelidade do cliente?
Pedro - Acho que o mais importante é a atenção que você dá ao cliente. A pessoa tem que sair com a solução para seu problema.
Elias - A expressão alegre conta muito, atender sem cara feia é fundamental.

JC - Não pensaram em diversificar, vender carros?
Pedro - Tivemos até proposta, mas avaliamos e resolvemos não arriscar.
Elias - Gosto tanto de duas rodas que o que faço à noite é pedalar (risos).

JC - Vocês estão numa profissão em que é necessário estudar muito, se reciclar...
Pedro - O estudo é fundamental. Para o jovem, para a vida, só ajuda. No caso das motos, sempre saem modelos novos, a gente tem que estar por dentro da tecnologia, os cursos e treinamentos são constantes e importantíssimos. Não estudei mais porque tinha que trabalhar, não tive escolha, minha escola foi a vida.
Elias - Eu vejo diferença entre a vida e a escola. Na escola você estuda e faz a prova e depois vem o resultado. Na vida é o contrário. Você faz, tem o resultado e depois estuda para ver o que aconteceu (risos). Uma coisa é certa: não temos do que reclamar. A gente não tem tudo o que quer, mas tem mais do que merece.

Perfil duplo

Nomes:  Pedro Gonçalves Cardoso

              Elias Gonçalves Cardoso
Idades: 74 e 72 anos
Local de Nascimento: Iacanga (SP)
Hobbies: Pescar (Pedro)

               Pedalar (Elias)
Filhas do Pedro: Daniele, Flávia, Juliana e Aline
Filhos do Elias: Margara e Marcel
Netos do Pedro: Pedrinho, Felipe, Eduardo, Luiza, João e Rafael
Netas do Elias: Mariana e Laura
Bisnetas do Elias: Leila e Luiza
Livros de cabeceira: Bíblia Sagrada (Pedro)

- Código da Inteligência, de Augusto Cury (Elias)
Times: Santos (Pedro) e nenhum (Elias, que é jogador de futebol amador)
Frases: Elias - “Sofrimento faz parte da vida, sem ele não vamos evoluir”, do Papa João Paulo II

- “O que não muda é que tudo muda sempre”

- “Grande parte da humanidade envelhece muito cedo e fica experiente muito tarde” (frase de Elias, criada em 1971)
Religião: Católica. Tivemos duas irmãs freiras. Uma delas, a irmã Goreti, é conhecida dos bauruenses e hoje está em São Paulo (Pedro)
Profissão alternativa: “Pescador (risos). Seria comerciante de alguma outra coisa” (Pedro)

“Além de piloto e ciclista? Seria escritor” (Elias).

 

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