Talvez Primeiro de Agosto, a rua. O menino, que sou eu, inclina o olhar para cima: da calçada, o prédio alto se impõe. Talvez tio Otávio ao lado. E nada mais sei daquele momento. Anos mais tarde, de novo saído de Ourinhos, a terra-mãe, já é 1988. E já é farra.
Aquele jovem iniciante, que sou eu, vem a passeio para show dos Paralamas na Luso. O primo, Lúcio Horta, faz as honras da casa. Ficamos ali em cima do Frutal Lima, compramos pão na Santa Izabel e a bebida saiu sabe-se lá de onde. No show lotado, ânimo vira apreensão na frente da pista, quase prensado na quina do palco. Mas do empurrão em ondas nada de pior acontece. Pausa, estrada e retorno.
Meses depois, a volta definitiva a Bauru se dá pelo vestibular. Garantida a aprovação em rádio e TV é hora da beliche na pensão da Dona Joana, na Ezequiel. As reuniões para arrumar uma república ocorriam na praça Rui Barbosa ainda das antigas, com laguinho. A casa antiga da Capitão Gomes Duarte passa a acolher parte do grupo da pensão, eu incluso.
Dali da quadra 3 chegamos a ir a pé ao BAC, onde vimos show do Ira! no começo da década de 90 e onde pulamos de alegria em baile de Carnaval. A linha Altos da Cidade estava firme e forte a cumprir seu traçado coletivo todos os dias, com adicional demora aos domingos e feriados.
Logo, de uma manifestação de alunos da Unesp em 15 de maio de 1991, na Rui Barbosa, sairia eu dali com a futura mãe dos meus dois filhos. Protestar por mais verba universitária também tem lá seu romantismo. Eram tempos de estudante sem dinheiro no bolso ou amigos importantes.
De uma festa junina perto do estacionamento do Fórum, num sábado à noite, escaparam meus pensamentos até um show no mesmo momento não visto no Rock Drinks por falta de verba. E até hoje bato na mesa com punhos cerrados ao lembrar da faixa na frente do Templo anunciando Taiguara: perdi, já era, nunca mais.
A Bauru das primeiras lembranças também é menos violenta, menos neurótica e vaza menos. A Bauru de hoje tem seus encantos e evoluções. Gosto das duas. Garantir que seja ainda melhor nos seus 120 anos, em agosto de 2016, está nas nossas mãos. Que também já foram menos marcadas, mas e daí? O passado cria rugas, mas abre presentes pro futuro. Que o tempo triunfe. E que isso que rotulamos de “hoje” renda lembranças para, um dia, merecer ser chamado de saudade.
O autor é editor executivo do JC